Desdenham da cultura

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Por Manoel Ramires
Terra Sem Males

Só pode ser a falta de cultura dos ilustres políticos para que eles tomem decisões que asfixiem a promoção e desenvolvimento de atividades culturais. Isso revela que a cultura é independe da classe social ou da formação intelectual. Ela é resultado do desejo, de uma pungência, como diria Schopenhauer, de transformação e elevação humana. Sentido distante das decisões recentes dos prefeitos Gustavo Fruet, Rafael Greca e João Dória.

Fruet perdeu a chance de ser o grande mecenas em Curitiba. Prometeu que a sua gestão atingiria 1% do orçamento público para a cultura. No período eleitoral, fez malabarismo matemático para atingir o índice valendo-se da receita líquida do município. A mágica não surtiu efeito eleitoral, com ele sendo apagado do segundo turno. Ao final, o cancelamento do edital de cultura para 2017 no valor de R$ 2 milhões, que foi longamente discutido, assemelha ainda mais a sua imagem de leão do Mágico de Oz.

Já Greca, como Rei Momo da onda conservadora e radical de direita que volta ao poder, segue disparando suas bravatas. Ele sugeriu a Fruet que cancelasse a 35a Oficina de Música. O objetivo é se esquivar do ônus de um possível fracasso. Como argumento, recorreu a um velho clichê dos políticos contemporâneos: disse que priorizaria a saúde. Como um indivíduo que gosta de artes a ponto de levá-las pra sua casa, Greca tem conhecimento que eventos culturais e esportistas geram receita para a cidade e para o comércio. Cidades como Paris, a cidade luz, tem boa parte do seu turismo ligado à cultura. No entanto, para Greca, é preferível criar falsa polêmica entre serviços públicos do que cortar, por exemplo, cargos de indicação política como a nomeação do filho de Beto Richa para secretaria de esportes. Nem começou o governo e o Pingüim já arrepia Curitiba City.

Já João Dória, prefeito de São Paulo, é a representação perfeita de uma classe média que viaja ao exterior para tirar selfie em frente a Mona lisa e coloca na legenda que admira muito Michelangelo. A única coisa que talvez ele entenda de cultura é arte morta. Aquela coisa de retrato a óleo de uma mesa repleta de canapês e tacinhas de frisantes. Sua ideia de colocar um cercadinho e food trucks na Virada Cultural, enjaulando o evento em Interlagos, revela muito de uma mentalidade de camarote e sorriso amarelo em foto de Caras. Dória, na verdade, está fazendo para o que foi eleito. É seu objetivo matar o centro de São Paulo, “lixo vivo”, segundo suas palavras, separar a periferia do resto da cidade e ainda dar uma graninha para a iniciativa privada com o aluguel do autódromo. É o verdadeiro “Homem de Cobre” de Higienópolis.

Imoral

É inaceitável a militância política do juiz Sérgio Moro. No espaço de 24 horas, o responsável pela maior investigação do Brasil, que envolve toda classe política, foi flagrado em dois eventos ligados ao PSDB. Na segunda-feira, em Mato Grosso, ele discursou para uma plateia de tucanos sobre transparência a convite do governador Pedro Taques (PSDB). Chegou a elogiar o deputado federal Nilson Leitão por votar a favor das 10 medidas. Se esqueceu que o tucano é investigado por desvio de verbas da educação estadual. Na terça, em evento da revista “Istoé” que, entre outros, concedeu a Michel Temer o título de “brasileiro do ano”, Sérgio Moro foi flagrado aos risos com Aécio Neves, citado dez vezes em delações premiadas, mas sequer “conduzido coercitivamente” uma única vez. Moro não esconde mais sua militância política, abonado por uma massa raivosa que o apoia a qualquer custo, mesmo após ele ter sido mutilado em audiência no Senado.

A culpa é tua, Renan

Renan Calheiros decidiu descumprir liminar que o afastava da presidência do Senado. Declarou que não respeitava decisão monocrática do ministro Marco Aurélio Mello e aguardava posição geral do STF. Isso ocorre hoje (7). Renan disse que era um triste fim da democracia. Como disse um amigo poeta, “o homem é o único animal que cai em sua própria armadilha”. Renan foi fisgado.

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