Diante do portão da Colônia Penal

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– Não sei onde fica a colônia penal e nem o lado de Piraquara, chefe, avisou o peão naquele trecho com uma obra de recapeamento.

Sol. Azul. Sol de sábado nos caminhos errados pela falta completa de placas, o que causou certa vergonha na pergunta desolada no meio da estrada.

– Não sabe mesmo, amigão?

– Sou daqui não, chefe. Todo mundo aqui é de Minas.

Jandira me questiona ainda no carro. Será que ele era da penitenciária? Talvez. Mas como não saberia o caminho de volta? Então chegamos finalmente à colônia penal de velhos telhados e fachadas desgastadas, espaços de canis onde o mato alto tomou conta, cenário de abandono inevitável na entrada para ser comparado com algum seriado do netflix.

Clichês vêm à mente na forma de realidade e nos assustam. O mundo lá dentro é mesmo o mundo real?

Ismael nos avisa na portaria que estamos atrasados em dez minutos para a visita, não podemos entrar, só deixar os mantimentos depois das quatro da tarde. Ficamos com as sacolas pesadas em punho, no meio do descampado, cães preguiçosíssimos nos farejam numa estranha forma de saudação, mas rosnam ao gesto do braço, acostumados talvez às ripas da vida.

– Mas é a primeira vez que estamos vindo, moço.

– Todo mundo fala que é a primeira vez, moça, avisa Ismael a Jandira, isso não muda nada, ele completa, inabalável. Sem sair desse estado, de repente o agente deixa de lado a marmita e avisa que vai nos ajudar, sacrifica o seu almoço e faz a triagem das nossas coisas. Ismael aproveita o momento oportuno para nos ensinar suas predições de verdade e retidão:

– Eu busco a verdade, e ele cita a Bíblia no trecho que eu já nem recordo. Ismael não aceita e afasta o saquinho de suco industrializado que restou da triagem e não entrou junto com o garfo e com a garrafa de sprite quente. Os cães também passam a nos desprezar e se afastam.

Jandira só queria passar as calças limpas para o irmão. Porteiro de uma história de Kafka, Ismael detinha o pequeno poder de nos ferrar ou dar a benção aos nossos embrulhos e caixinhas de chokomilk, mas Ismael era um bom sim, despachou todas as coisas e logo voltou à sua marmita fria, naquela extensão de matos e telhados sobre sonhos empacotados dentro de grades.

Eu e Jandira voltamos ao carro, a fome aperta e no bar da esquina onde o doguinho já estava embranquecido, um senhorzinho de cadeira de rodas, pendurado no tempo e no portão de entrada da colônia penal, definia o conceito de encruzilhada: afinal, o que ele fazia ali parado? Por que não ia embora?

O ônibus da Vila Macedo despeja dezenas de vidas para as visitas da tarde. São roteiros conhecidos no final dessa trilha: agachar sem roupa não sei quantas vezes; conseguir carta de algum lugar oferecendo trabalho para o semiaberto; passar na universidade e não conseguir a inscrição; ler o que indicam e ganhar três dias ao mês de remissão; o bife magro temperado com larvas; conversar sobre os outros presos políticos que estão no complexo penitenciário e ainda recebem algum holofote das notícias; trocar principalmente algum palavrão, quando vai sair dessa merda, dessa bosta, dessa pôrra desse lugar, tem amigo melhor do que um bom palavrão nessas horas? E também dizer e escutar que está tudo bem, tudo bem aqui, tudo bem, tudo bem, tudo bem sim, sempre tudo está bem, é o que sabemos dizer e o que às vezes estamos dispostos a ouvir.

Céu azul, meninos da vila arrastando raias na terra avermelhada desse lugar nenhum, e a nossa última mirada para trás, para o irmão de Jandira nalgum lugar lá de dentro, sonhando talvez maravilhas vendo aquela raia pálida cortar o azul, de dentro da colônia penal onde ele nos garante, em cartas censuradas, que o sol ainda não deixou de golpear com força. Mas só que de dentro. De dentro para fora. De dentro para fora o sol golpeando com força.

 

Por Pedro Carrano (texto e ilustração)
Mate, café e letras – crônicas latinoamericanas

 

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