Direita, Esquerda e a Genética do Comportamento, por Fernando Lopez

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Discutir meritocracia com alguém de direita muitas vezes nos dá a impressão que nós somos de um planeta e eles de outro.

Pra eles meritocracia significa “vencer na vida” como resultado de esforço pessoal, dedicação e merecimento.
Para nós soa como uma desculpa esfarrapada para justificar que alguns tenham tudo e outros tenham nada, colocando no indivíduo a culpa exclusiva de seus “insucessos”, e não como consequência da falta de investimento Estatal nas áreas que poderiam tornar mais equilibrada a competição.

O mesmo ocorre com uma enorme variedade de outros assuntos.

Como isso é possível? Como um conceito simples pode ter leitura tão diferente, dependendo de que lado da cerca política a pessoa esteja?

Desde o golpe de 2016  está ficando evidente que nós estamos vivendo como se tivéssemos cada um nossa própria realidade, como se olhássemos para uma maçã e a víssemos vermelha, enquanto outros olham a mesma fruta e a veem verde.

Como explicar esse fenômeno?

Já ouviu falar de genética do comportamento? Até pouco tempo atrás eu também não tinha ouvido.

Acabei descobrindo o que era ao procurar alguma explicação para como são possíveis essas leituras tão opostas da mesma realidade. Será que cérebro de um progressista processa informações de maneira diferente do cérebro de um conservador? O que faz nosso olhar sobre a realidade ser tão diferente do deles?

Como gente inteligente, estudada, bem criada, pode ter um posicionamento social e político tão escroto, tão vil, tão ignorante a ponto de apoiar um governo com evidentes tendências fascistas e completamente alheio às necessidades dos mais carentes, desprezar as minorias, o meio ambiente? Gente que estudou nas melhores escolas, viajou meio mundo,  fala até Javanês mas mesmo assim vota na escória intelectual, acredita piamente que Moro é bem intencionado, gente que defende que patriotismo é bater continência para a estátua da liberdade na frente da loja da Havan.

Confesso que já passei muita raiva;  raiva de ver familiares, amigos, pessoas antes queridas apoiando esse conjunto de desgraças e por isso resolvi procurar uma explicação materialista que me servisse (sou ateu e marxista, as explicações metafísicas não me atraem), uma explicação que me desse uma certa base racional para entender este fenômeno e quem sabe até, pasmem, perdoar.

Eu queria ir um pouco mais fundo que simplesmente culpar a influência do capital no comportamento da elite opressora e gananciosa. Uma explicação que fosse além do simples reducionismo econômico.

Encontrei algumas pistas interessantes nessa tal Genética do Comportamento, um campo da pesquisa científica que usa métodos da genética para investigar a natureza e a origem das diferenças de comportamento entre os seres humanos.

(Neste momento eu tenho que fazer um pequeno intervalo para explicar que sim, eu sei que a genética do comportamento foi utilizada em teorias eugênicas, por fascistas e nazistas para justificar a segregação racial.  Tô ligado ao risco que corro aqui e garanto que minha intenção é exatamente o oposto, como verão).

Sigo avisando que não sou geneticista, nem psicólogo, não tenho formação universitária que me habilite a desenvolver teorias científicas nestes ramos – muito menos tenho a intenção de fazê-lo – mas continue comigo um pouco mais, caro leitor e cara leitora. Não desista agora.

Vamos lá…

O mesmo período histórico nos deu Marx nos deu Darwin; e é por aí,  meus queridos e queridas – na reunião do pensamento desses gênios – que se encontra o busílis.

Lá no começo, mas bem no começo mesmo, a espécie humana se dividiu  em grupos para poder sobreviver. Tinham os que saiam para caçar e os que ficavam para coletar frutos e outros alimentos. Parece óbvio que alguns se consideravam capazes de ir, de tacape em punho,  matar a proteína do almoço; enquanto outros focavam nas atividades coletivas de manutenção da aldeia, se menos arriscadas, nem por isso menos importantes. Me parece plausível também que dois instintos naturais, o de sobrevivência e o de preservação da espécie tenham tido influência direta nesse processo seletivo primal, cada um com maior ou menor reflexo no comportamento de cada grupo.
Imagino que os mais individualistas, mais dispostos a sobreviver a qualquer custo, foram os que desenvolveram uma predisposição para assumir o comando dos grupos de caça, dos exércitos, dos reinos, dos governos e modernamente, do capital. Criaram a ideia que deveriam ser regiamente premiados por seu esforço, pelos riscos que corriam.

Ao mesmo tempo, os coletivistas, sob a influência de um maior instinto de preservação da espécie, foram formando as bases populares das sociedades: os coletores, agricultores, servos, os proletários, os mestres de ofício, os pequenos comerciantes. Foram formando a consciência da necessidade da sociedade atuar para o crescimento do todo e de todos.

Some aí duzentos mil anos de evolução da espécie e dá pra imaginar que o processo foi criando grupos de pessoas com traços de comportamento mais individualistas e pessoas com traços de comportamento mais coletivista e definindo sua propensão para assumir os postos e atribuições em uma sociedade altamente complexa.
Isso explicaria, do ponto de vista da evolução da espécie, por que hoje temos pessoas de direita e de esquerda dentro das mesmas estruturas familiares, pessoas que foram expostas aos mesmos fatores externos, à mesma criação e as mesmas experiências durante a vida e que tem uma compreensão muito diferente da mesma realidade.

Apesar da crudeza naturalista desse argumento, me conforta pensar que assim possa ser. Que irmãos, amigos, parentes, que se dizem de direita e apoiam coisas como meritocracia ou  neoliberalismo, não são necessariamente ignorantes ou más, mas sim pessoas com um grau de individualismo maior que o meu, uma herança natural, primordial,  que funciona como um prisma que muda a forma como enxergam a vida.

Fica mais leve ir tocando o barco assim, tendo uma explicação improvada, simplista e possivelmente falha para um problema multi-complexo, mas que ajuda a olhar a pessoa de direita não como um alienígena ou uma inimiga, mas como uma variante da espécie.

Armados com uma pseudo-explicação, mas principalmente desarmados da ignorância do maniqueísmo, dessa dicotomia das pessoas de bem contra as pessoas do mal (?), poderemos, talvez, usar nosso potencial para construir as pontes necessárias para avançarmos na construção de uma sociedade mais justa e solidária, mesmo que o outro lado não consiga ver nem compreender a necessidade disso.

Fernando Lopez é colunista do Terra Sem Males e idealizador do Social Lista SA.

Um comentário em “Direita, Esquerda e a Genética do Comportamento, por Fernando Lopez

  • 7 de fevereiro de 2020 em 15:36
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    Muito interessante seu texto. Faz sentido… Muito sentido. Quando trabalhei na SME, conheci Valdiney Veloso Gouveia, da Universidade Federal da Paraíba , pesquisador sobre valores humanos. Ele explica a natureza motivacional dos valores e chega a uma conclusão próxima a apresentada por você. Vale a pena conferir.

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