Do Palmeirinhas ao Ajax

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Genésio; Luizinho, Zeca, Ademir e Gilberto; Valdir, Antônio e Isidoro; Mário, Adilson e Jair. Este foi o time do Palmeirinhas, que pela primeira vez entrou em campo para disputar uma partida de futebol. O resultado pouco importa, haja vista, estar se concretizando um sonho na vida da comunidade.

Uma das questões centrais na vida de uma comunidade, está relacionada com a autoestima de seus integrantes. Para isso, suas lideranças tem que ter a criatividade de criar espaços e instrumentos, de modo que envolva todos os seus integrantes. De forma que motive sua participação e transforme a agenda da comunidade em programação permanente de todos os seus membros.

Grupos de teatro, grupo de Jovens, time de futebol, além das equipes de catequese, de liturgia, grupos de orações, sindicato, associação de produtores, são atores fundamentais de aglutinação, participação e mobilização dos integrantes de uma comunidade.

Cada comunidade do município tinha sua equipe de futebol. Apenas a nossa não tinha e isso ampliava nosso isolamento em relação às demais comunidades. A grande maioria das comunidades, além da equipe de futebol tinha seu próprio campo, o que não acontecia com a nossa. Naquela época, eram dezoito campos de futebol espalhados pelo município. Atualmente, já não existem mais nenhum campo com medidas oficiais. Apenas alguns campos privados do chamado futebol de sete, dois campos para ser mais preciso e alguns outros de futebol de cinco.

Formar a equipe de futebol da comunidade foi o primeiro passo. No entanto, seria necessário iniciar a luta para ter o campo, pois treinar na vala (grota atrás de onde mora o Zequinha hoje) não dava, pois além de ser um espaço físico pequeno, quando chovia formava um lamaçal, de tal forma que impossibilitava sequer andar, imagina jogar futebol, era impossível. Neste processo de luta pela construção do campo de futebol da comunidade, participei do meu primeiro ato de protesto político. Numa festa do padroeiro da comunidade (Santo Antônio), aproveitando que o prefeito do município estava presente, largamos a festa e fomos jogar bola na vala. Nos sujamos todos de lama e voltamos para a festa enlameados e com a bola na mão reivindicando ao prefeito a construção do campo. O constrangimento dos líderes mais antigos da comunidade foi geral, mas no final daquele ano o trator da prefeitura finalmente veio fazer o tão esperado campo. Assim, nossa primeira luta foi vitoriosa e nos dava ânimo para construir outras.

Na época, a prefeitura não organizava os campeonatos municipais de futebol. A organização era apenas para os campeonatos de futebol de salão, com as equipes mais próxima da sede do município. Embora tivesse uma comissão municipal de esportes – CME, a cada final de semana uma comunidade diferente organizava um festival/torneio, com a participação das equipes das demais comunidades. Nunca vou esquecer do primeiro festival organizado pela nossa comunidade, quando por motivos climáticos não foi possível realizar no nosso campo e fizemos no campo da comunidade vizinha. Foi uma lamentação geral, pois foi a primeira vez em que o nosso Palmeirinha disputou uma partida de honra, perdemos. Pois, disputamos com o Brasil do Distrito do Garcia, que era a melhor equipe do município.

Aos sábados à tarde, tinha treinamento e nos domingos jogos em comunidades diferentes, que quase sempre começava pela manhã e à tarde uma domingueira que era uma oportunidade de ampliar ou consolidar os namoricos.

Passadas décadas, este ano tive a oportunidade novamente de participar da festa do padroeiro da minha comunidade. De poder conversar com todos os conhecidos e amigos atuais e antigos, inclusive com a domingueira tradicional, mas acima de tudo, tive a oportunidade de sentar no banco ao lado do campo de futebol de sete, pois o antigo campo conquistado com muita luta já não existe mais. Mas, que para a minha sorte este campo é ao lado da igreja da comunidade gerando um incremento de participação na festa do padroeiro.

Como o campo de futebol o Palmeirinha também não existe mais, agora é o Ajax, a equipe de futebol da comunidade e para a minha alegria tem também a equipe feminina e veterana da comunidade. O Ajax defendia o título de campeão municipal conquistado no ano de 2016. Pelas informações, neste ano acabou ficando em terceiro lugar. Mas, o mais importante foi ficar a tarde sentado à beira do campo conversando e comentando os jogos que iam acontecendo. Para quem já teve oportunidade de assistir ao vivo em grandes estádios mundo afora, nada é melhor do que assistir e torcer pela equipe da nossa comunidade. Nada é mais bacana do que torcer, reclamar e comemorar com os nossos.

Até agora não consigo concordar com a grande maioria dos gestores públicos, que não priorizam o esporte de base, enquanto política pública que integra as comunidades. Além de organizar campeonato e mobilizar as categorias, também é necessário investir nas estruturas de base, pois elas permitem aglutinar os demais setores das comunidades, bem como, oportunizam novos valores para ingressar no esporte de rendimento.

Lamentável também, que num País que tem características de muitas pessoas com obesidade e com necessidade de atividade física, o Congresso Nacional queira retirar a cadeira de educação física da grade curricular do sistema educacional, tornando-o de forma alternativa.

Tenho muito orgulho de ter acompanhado a implementação do programa Primeiro Tempo, implantado pelo Governo Federal nas comunidades mais empobrecidas do País. Bem como, do programa de patrocínio estatal que sustentava milhares de projetos sociais de incentivo ao esporte de base, que além de garantir complemento escolar também garantia uma atividade esportiva. Exemplo de resultado destes projetos foi a medalha de ouro conquistado pelo Brasil na canoagem nas últimas olimpíadas.

Enfim, reivindicar espaços públicos para a prática do esporte em nossas comunidades é fundamental para motivar nossa juventude, bem como, integrar o conjunto das comunidades.

Viva a História do Palmeirinha.
Viva o Ajax masculino, Feminino e Veterano.

Por José Claudenor Vermohlen (Zeca), consultor

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