Dores da perseguição, lágrimas de oportunidade

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Na década de 80 no século passado, a ditadura começava a perder fôlego e a mobilização dos trabalhadores, camponeses, jovens e estudantes ampliavam seus espaços organizativos, ampliavam suas pautas e agigantavam-se em suas mobilizações.

De cada comunidade nascia um grupo das Comunidades Eclesiais de Base – CEBS ou um Grupo de Jovens da Pastoral da Juventude. Em cada Município surgia uma Oposição Sindical e por consequência a Central Única dos Trabalhadores – CUT, nascia também um grupo construindo um Partido de Esquerda, o Núcleo do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra – MST, a Comissão Regional dos Atingidos por Barragens – CRAB e hoje MAB, o Movimento das Mulheres Agricultoras – MMA atualmente denominado de MMC e a Comissão Pastoral da Terra – CPT. Enfim, em cada recanto nascia algo novo que mexia com as estruturas sociais até então estabelecidas.

À medida que a sociedade organizada crescia, ampliava-se a mobilização iam se alterando suas estruturas, quer sejam nos estados ou nos municípios. Na mesma proporção, também crescia a reação dos conservadores, que até então estavam sustentados nas suas zonas de conforto. Como era possível um bando de jovens “malucos e aventureiros” quererem questionar seu jeito de atuar ou mesmo fazer as coisas? Do ponto de vista deles (os conservadores), era inadmissível que tais ideias, as quais denominadas [comunistas] chegassem até seus recantos, dominados pela exploração dos mais humildes. Diziam ser um “bando de malandros” que queriam inventar coisas novas só para reclamar e fazer agito. Na opinião deles, aqueles jovens não passavam de agitadores e/ou arruaceiros. As perguntas e afirmações feitas no cotidiano das nossas lutas, faziam parte da disputa política daquele tempo. A cada greve ou mobilização, um trabalhador era demitido ou pressionado a mudar sua posição política.

Numa greve da Universidade Federal de Santa Catarina – Ionara que era líder estudantil e professora da rede estadual foi demitida pelo Estado. O mesmo absurdo aconteceu com Valmir Ludwig, Jocelito e Ana em Brusque. Antônio Melo, Idalina e Maneca não conseguiam emprego em Itajaí. Durante uma reintegração de posse numa ocupação urbana em Florianópolis, as vésperas da eleições de 1986, Francisco Veríssimo à época candidato a vice governador juntamente com o candidato a governador foram presos por apoiar o Movimento dos Sem tetos contra a ação da Polícia Militar.

Na roça, a vida era tão complicada e restritiva quanto nos espaços urbanos. No início, éramos considerados como boas e/ou ótimas lideranças, pois contribuíamos na organização da comunidade, animávamos a juventude, contribuíamos na organização da equipe de futebol. Enfim, éramos os bons meninos e meninas engajados na vida Pastoral da Paróquia. Porém, quando assumimos posição política nos tornamos em loucos e comunistas dos municípios. Hoje tenho absoluta clareza de que fomos transformados pelos conservadores em transgressores sociais. As divergências começavam dentro da família que com muita habilidade a gente administrava, pois boa parte dos problemas eram motivados por lideranças da direita principalmente sobre os pais. Era duro chegar em casa e ver a mesma enfeitada por cartazes de Collor por ordem do prefeito municipal à época. Da mesma forma, foi gratificante e ousado colocar a justiça atrás do mesmo prefeito que estava comprando votos no dia da eleição.

Diante daquele cenário difícil, era necessário que a cada reunião da Coordenação Arquidiocesana da Pastoral da Juventude, além de uma boa Análise de Conjuntura preparada por um membro da Equipe de Assessoria, tivesse um momento de celebração e partilha de como cada um estava sobrevivendo em sua vida pessoal, consequência das opções tomadas na caminhada. Eram momentos de profunda reflexão. Lagrimas caiam pela face das pessoas devido ao sofrimento e as pressões advindas dos conservadores (os opressores de sonhos). Mas, ao mesmo tempo, as lágrimas também eram de alegria e firmeza por estarmos construindo e vivenciando algo novo a partir da nossa opção de vida. Pois estávamos edificando nossa casa sobre a rocha, como diz a passagem bíblica.

Diante da realidade a qual no deparávamos, era necessário construir alternativas para enfrentar as perseguições. Francisco Álvaro Veríssimo foi trabalhar na Comissão Pastoral da Terra – CPT, que também começava a mobilizar os agricultores através das Oposições Sindicais e dos Movimentos Sociais do Campo. Ionara passou a ser liberada pela Pastoral da Juventude através de um projeto de parceria com a Entidade alemã da Igreja Católica que luta pela diminuição da pobreza – MISEREOR. Maneca foi ser professor na rede privada; Antônio Melo, Idalina, Valmir, Ana, Jocelito, Erasmo e outros resolveram de forma solidaria com a ajuda dos familiares e de suas próprias economias fundar uma fábrica de cordas – BRUSCOR em Brusque e; na roça resolvemos construir roças comunitárias com a perspectiva inicial de contribuir com o Grupo de Jovens da comunidade, para depois ser uma experiência de sobrevivência de renda para jovens agricultores, mas que acabou não dando tão certo na segunda etapa.

Marcas daquele tempo ainda são sentidas hoje. Mas ao mesmo tempo, valores de solidariedade, partilha e acima de tudo compromisso com a transformação da sociedade se perpetuaram nas consciências em busca de utopias conforme cantávamos nos encontros, mobilizações e romarias.

Utopia (Zé Vicente)

Quando o dia da paz renascer. Quando o Sol da esperança brilhar. Eu vou cantar.
Quando o povo nas ruas sorrir, E a roseira de novo florir. Eu vou cantar
Quando as cercas caírem no chão. Quando as mesas se encherem de pão. Eu vou cantar. Quando os muros que cercam os jardins, destruídos. Então os jasmins vão perfumar.

Vai ser tão bonito se ouvir a canção, Cantada de novo, no olhar da gente a certeza de irmãos, reinado do povo (2x).

Quando as armas da destruição. Destruídas em cada nação, eu vou sonhar.
E o decreto que encerra a opressão, assinado só no coração, vai triunfar.
Quando a voz da verdade se ouvir, e a mentira não mais existir, será enfim. Tempo novo de eterna justiça, sem mais ódio sem sangue ou cobiça, vai ser assim.

Como em cada análise de conjuntura, cantávamos a realidade e em cada celebração cantávamos os sonhos de um tempo novo, hoje tenho plena certeza de que tudo valeu a pena. O exemplo de cada um em sua história, prova que toda luta sonhada e construída coletivamente, se transforma em realidade. Mesmo quando surgem os percalços e sua construção é interrompida, como está acontecendo neste momento da história.

Os tempos atuais são de resistência, mas também de lutas. E nestes tempos obscuros, de defensiva, de perda de valores e de direitos, também é tempo de passar os cajados para novos meninos e meninas que estão por aí se organizando e lutando. Vivendo suas perseguições e construindo suas alternativas. A nós, mais vividos e experientes, cabe a tarefa de contribuir nas assessorias, formação e com exemplos de nossas histórias de vida, para que sirva de parâmetro nas lutas por uma sociedade democrática, solidária, respeitosa, sustentável e inclusiva.

Por José Claudenor Vermohlen (Zeca), consultor e foi da Comissão Nacional de Assessores da Pastoral da Juventude Rural

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