É o ano do porco no horóscopo chinês

Colabore com o jornalismo independente, compartilhe.

Algumas verdades são difíceis de encarar. O pensamento a sério, que depende da verdade – ou da construção de algo que encaramos como a verdade -, é meio que pra deprimir mesmo. Acho que o Slavoj Zizek já disse algo assim. E a maior parte das pessoas não liga pra isso.

Tem o caso dos porquinhos, por exemplo. Dos porquinhos que andam por certos lugares do Rio de Janeiro. É a cidade onde eu moro. No bairro de Santa Teresa. Que é cercado por favelas dominadas por facções diferentes, ou seja, rivais. E que rivalizam com a polícia e com a milícia. Ou não, dependendo do contexto.

Enfim.

Tem uns porquinhos que andam por Santa Teresa.

Eu passo pela rua, olhando os porquinhos, e mostro eles pras crianças. Porque, sim, é legal ver eles por ali. Eles deitam na lama que encontram. Às vezes dizem “óinc”, que não é bem um “óinc”, é mais um “frrrronc”. Não pra gente, especificamente. Apenas dizem. Em geral nos ignoram.

Então, um dia, num daqueles papos dos outros que você escuta sem querer, onde alguém está falando sobre um boato a respeito de um comentário de sabe-se-lá-quem ouvido sem querer de outro alguém, já tão remoto e anônimo, ouvi uma história mais ou menos assim: que certa feita uns fiscais, “da prefeitura”, diga-se, genericamente, foram atrás desses porcos. Porque estavam à solta sujando a rua, e coisa e tal. E foram recebidos à bala pelo tráfico.

Parece que existe a possibilidade de que esses fofos e rosados porquinhos cuti cuti sejam usados pelo tráfico pra eliminação de cadáveres.

Bom, quando eu via os rechonchudos e aparentemente super bem alimentados suínos com as crianças pelas ruas, não é que eles fossem exatamente a família da Peppa Pig. Eles cagam nas ruas. Mas também não imaginava que fossem piores que os porcos do George Orwell. São tipo aqueles bichos que aparecem no Hannibal.

Algumas verdades são difíceis de encarar e achei melhor poupar as crianças disso. Naturalmente.

E é sobre esse lance das verdades dolorosas que um objeto paginado chamado “Nix”, de um gringo chamado Nathan Hill, trata. Objeto aliás com mais de 600 páginas, daqueles que poucos têm tempo de ler, e ainda por cima caro pra caramba, disponível nas prateleiras mais destacadas das livrarias. Eu recomendo esse objeto. Tente achar um pdf dele por aí. Não tente achar um pdf dele por aí, que pirataria é crime. Então, tente achar um amigo rico que o tenha comprado e empreste o exemplar. Porque afinal, uma verdade dolorosa é que procuramos pouco as escassas bibliotecas públicas que fazem empréstimo de livros.

Bom, quanto a esse objeto paginado aí. Ele traz algumas verdades dolorosas. E um monte de personagens não sabendo como lidar com elas. Tanto no campo pessoal como no social. Dá pra dizer que suas páginas contêm muitas reflexões sobre pós-verdade, por exemplo, em sentenças-chave como

Caso ainda não tenha notado, devo lhe dizer que o mundo meio que abandonou o velho projeto iluminista de investigar a verdade por meio da observação direta dos fatos. A realidade é complicada demais, assustadora demais para isso. Em vez disso, é muito mais fácil ignorar os fatos que não se encaixem em nossas ideias preconcebidas e acreditar naqueles que se encaixam. Eu acredito no que eu acredito, e você acredita no que você acredita, e ficamos assim. É o encontro da tolerância liberal com o negacionismo obscurantista. Algo muito na moda hoje em dia. (…) Nunca fomos tão radicais em política, tão fundamentalistas em religião, tão rígidos em nosso pensamento, tão incapazes de empatia. A forma como vemos o mundo é totalizante e irredutível. Estamos evitando completamente os problemas levantados pela diversidade e a comunicação global. Portanto, ninguém mais se importa com ideias antiquadas como a distinção entre verdadeiro e falso.

Além da pós-verdade, que é outro nome pra mentira, o objeto paginado do qual estou falando tem muito de gentrificação, a mulher frente ao patriarcado, escapismo frente a uma realidade de endividamento e trabalhos sem sentido, pragmatismo versus idealismo nos dias de hoje, patriarcado, solidão na era da informação, vergonha dos gordinhos de entrar pela primeira vez na loja de orgânicos, educação institucional no capitalismo tardio, patriarcado.

Eu devo ter mencionado patriarcado. Então. Esse é mais um daqueles objetos – que muita gente já diz ser um “novo clássico”; – que a crítica, e quem sabe a academia, nunca, ou dificilmente, analisa por esse lado. O lado que entende que o patriarcado fode com todo mundo, em todos os sentidos. Não sou especialista, mas “2666”, de Roberto Bolaño, e “O jogo da amarelinha”, de Cortázar, todos escritos por homens, veja só, também têm muito de denúncia do patriarcado, ou melhor, de mostrar o quanto ser mulher significa ser tratada como mulher, no mundo em que a gente meio que vive. E, bem, a não ser que a academia esteja fazendo muito a respeito às escondidas, não se leem muitas reflexões nesse sentido, a respeito desses clássicos, por aí.

É que existem verdades dolorosas, mesmo por parte dos detentores do discurso comumente referendado quanto à inteligência.

Por falar em inteligência, “Nix” desperta algumas situações incômodas. Tipo quando houve aquele protesto contra a Guerra do Vietnã em Chicago, em 1968. O protesto onde, pra cada manifestante sangrado pela polícia, dez ligações de americanos do Meio Oeste a favor do policial chegavam às emissoras de TV. O protesto cheio de boas intenções que, dizem, acabou
ajudando Nixon a se eleger, já que, além dele ser o candidato bélico das bravatas quanto à “segurança” aos valores americanos, deve ter gente que votou nele só por raiva dos hippies,
que certamente eram encarados como ameaça maior à democracia do que a segregação racial, a precarização do trabalho e a lucratividade da indústria armamentista, por exemplo.

Talvez dê pra fazer paralelo dessa situação do Donald anos depois, aquele cara laranja pintado como porco nos xous do Rogério Águas: foi eleito presidente lá daquelas bandas, mesmo depois de todo o Occupy. E talvez também com o desfecho da Primavera Árabe, fora dos EUA.

Ah, sim. Já ia esquecendo. Tem ainda o caso brasileiro em 2013. Onde muita gente, que de início só queria baixar o preço da tarifa de ônibus, acabou dando gás a um processo que culminou em impítima de presidenta eleita, automaticamente dando vez à ascensão de um vice que na verdade era vice disfarçado do candidato derrotado nas urnas em 2010 e, veja bem, culminando na eleição de um continuísmo piorado, piorado pra pior, BEM pior, embrulhado em discurso fascista e legitimado pela população. Boa parte desta agiu como os americanos do Meio Oeste em 1968.

E o que dizer do futuro? Meio que dá pra prever quem os Coletes Amarelos franceses vão acabar elegendo, querendo ou não.

E por aí vai.

Paradoxalmente, em hipótese alguma se deve defender que não se pode defender o direito aos protestos. Se alguém me pergunta se eu sou contra ou a favor de algum deles, é como se me perguntasse se eu sou contra ou a favor do espasmo muscular, no caso de um corpo levando choque.

E isso tudo me faz querer refúgio não só no Uruguai, mas literalmente na casa do Pepe Mujica. Mesmo. Eu dormiria até no fusca, se ele deixasse. Eu só teria que convencer ele de que não
sou daquela galera de 2013. Com o plus de que sei passar chimarrão.

Quando se quer buscar por um mundo melhor, às vezes parece não ser muito interessante sair totalmente da curva. Às vezes é caso de seguir atento, em meio ao cardume dos distraídos.
Triste verdade. Ao cardume ou à vara, que é o coletivo de porcos. Vara, como a palavra que define a jurisdição de um juiz. Triste coincidência.

Outra verdade é que 2019 é o ano do porco no horóscopo chinês.

Por Bruno Brasil, jornalista curitibano radicado no Rio de Janeiro, escreve para o Terra Sem Males na coluna “entre aspas”
Acesse aqui a coluna

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *