Militantes das causas populares estudam economia com professores da Unicamp em Curitiba

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Curso tem módulos mensais e trata tanto do contexto histórico do país quanto da conjuntura econômica brasileira atual

Por Paula Zarth Padilha
Foto: Leandro Taques
Terra Sem Males

Em uma sala de aula estão reunidos trabalhadores bancários, jornalistas, metalúrgicos e petroleiros. São representantes sindicais vinculados às mais diversas centrais. Também estão lá advogados e economistas que dedicam suas carreiras ao mundo do trabalho e às causas populares. E ainda, estudantes, secundaristas ou universitários, e militantes dos movimentos sociais que lutam pelo acesso à moradia, com ou sem graduação. Mas o que essas pessoas estão aprendendo é conteúdo de formação.

As aulas são ministradas por professores do curso de economia da Unicamp, Universidade pública de Campinas, São Paulo, sob a designação de “Curso de extensão em economia do trabalho e sindicalismo”.

“Nós professores da Unicamp, especialmente do Cesit – Centro de Estudos Sindicais e Economia do Trabalho – já temos a tradição de sair da universidade para o contato com o mundo do trabalho, dos movimentos sociais, isso faz parte da nossa história. Há muito tempo a gente tem essas iniciativas de cursos de formação, de extensão, com essa intenção de difundir conhecimento e de ajudar a contrapor a grande mídia do Brasil, que se concentra na formação de opinião pautada por economistas da lógica financeira”, explica Marcelo Proni, economista e professor da Unicamp responsável pelo módulo 6, o primeiro de 2017, com o tema “Trabalho e Questão Social no Brasil”.

Proni defende que os pesquisadores do Cesit estão mais preocupados com questões econômicas que levem em conta o desenvolvimento da nação, o mundo do trabalho e as desigualdades. “A nossa preocupação com os sindicatos e movimentos sociais é debater temas, promover discussões, ampliar o entendimento sobre questões que são cruciais”. As aulas são temáticas mas as abordagens sempre levam à conjuntura atual do país. “A gente espera essas iniciativas se multipliquem para que a gente possa ter instrumentos, usando o conhecimento, para superar de forma mais rápida essa conjuntura nacional complicada e perigosa do momento”, define o economista.

A trabalhadora bancária Sandra Regina Homeniuk é diretora da Secretaria Geral do Sindicato dos Bancários de Guarapuava e região. É dirigente sindical liberada há 7 anos e funcionária do banco Itaú há 27 anos. Ela e mais dois colegas do Sindicato, Sandro Zanona (presidente da entidade) e Everaldo Ribeiro (diretor da secretaria jurídica), uma vez ao mês fazem a rotina normal de trabalho na sexta-feira e após o almoço seguem viagem de carro até Curitiba. São de três a três horas e meia de estrada, com retorno no sábado logo após o término do curso. Ela conta que os bancários dos dez sindicatos filiados à federação estadual (Fetec-CUT-PR) foram incentivados a participar da atividade de formação.

“É de suma importância que nós militantes estejamos em constante formação, visto que representamos não somente uma categoria, mas a classe trabalhadora. Precisamos estar antenados nas constantes mudanças do mercado de trabalho e da sociedade. Temos conseguido entregar nossos trabalhos no prazo determinado e não tivemos nenhuma falta, pois entendemos a importância da participação na íntegra, visto que o curso traz muita bagagem e informação para nosso dia a dia de trabalho”, avalia a dirigente.

“Precisamos manter formação constante em assuntos diversos, pois nossa luta é com grandes potências, os bancos, o mercado financeiro. Precisamos ter subsídios e informações para, em nossas reuniões com bancários, em mesas de negociações e também com a população e a comunidade durante manifestações, greves ou conversas”, contextualiza Sandra.

O curso em parceria com a Unicamp é uma iniciativa do Instituto Democracia Popular (IDP), que em 2016 promoveu seminários temáticos mensais sobre questões econômicas abertos aos público, dirigidos para dirigentes sindicais e militantes das causas populares. “Pode-se dizer que o curso tem como principal objetivo possibilitar a formação de dirigentes sindicais e populares, aproximar a classe trabalhadora, lideranças populares e os pesquisadores da área, como forma de capacitação, aperfeiçoamento e, também, criação de um espaço plural de debates”, resume Janaina Filippetto, Secretária Geral do IDP, que também é aluna.

Ela avalia que os participantes têm demonstrado bom aproveitamento das atividades propostas. “Além de aprofundar seus conhecimentos, eles têm conseguido compreender a relação entre o teórico e a realidade e a importância destes conhecimentos para compreensão da conjuntura, especialmente neste momento político delicado que estamos vivendo”, diz Janaina.

O Instituto Democracia Popular é uma organização que se constituiu a partir da união de defensores de direitos dos trabalhadores com militantes da reforma urbana, que encontraram a defesa da democracia participativa e popular como ponto de convergência. O IDP considera que esse ponto de convergência pode ser materializado nos cursos de formação e também da atuação direta com a política habitacional e de regularização fundiária em Curitiba. A entidade destaca-se na assessoria jurídica em processos de reintegração de posse locais e em prol de moradias irregulares frente ao poder público.

As aulas do Curso de Extensão em Economia do Trabalho e Sindicalismo foram divididas em dez módulos, com carga horária de oito horas mensais, todas com trabalho de leitura e pesquisa prévia e apresentação de questões para avaliação que valem nota e, no final, o acesso a um certificado da prestigiada Unicamp. As entidades que mandaram seus representantes para o curso são o Dieese, os sindicatos e federação de bancários de Irati, Guarapuava, Toledo e Curitiba (SEEB, Fetec e CUT Paraná), sindicato e federação dos metalúrgicos (Força Sindical), sindicato dos trabalhadores da indústria da alimentação (CTB), sindicato dos petroleiros (Sindipetro PR/SC – CUT), sindicato dos jornalistas (Sindijor PR – CUT), sindicato dos engenheiros (Senge), além de lideranças do MTST, advogados, e estudantes.

As próximas aulas serão ministradas pelos professores Márcio Pochmann (Estrutura e Mobilidade Social), Hugo Dias (Novos Movimentos Sociais e Sindicalismo na experiência internacional), Magda Biavaschi (Regulação do Trabalho e Instituições Publicas no Brasil), e o encerramento com o coordenador do curso, José Dari Krein (Negociação Coletiva e efetividade da Regulação do Trabalho e o Sindicalismo no Brasil do Século XXI).

Os temas já abordados em 2016 foram ministrados pelos professores Denis Maracci (Globalização, economia e transformações no capitalismo/Mercado de Trabalho no Brasil), Anselmo Luis dos Santos (Padrões de Desenvolvimento e Trabalho), Paulo Balthar (O trabalho no capitalismo contemporâneo) e Marcelo Manzano (As perspectivas da economia brasileira), além do primeiro módulo de 2017, com Marcelo Proni (Trabalho e questão social no Brasil).

 

 

 

 

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