Elas, sim | Mais do que repudiar uma candidatura, mulheres vão tomar às ruas em defesa de seus direitos

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Confira entrevista com a candidata ao senado pelo Paraná Mirian Gonçalves (PT). Para ela, a agenda das mulheres busca fortalecer na sociedade o debate sobre igualdade de direitos.

Por Manoel Ramires
Fotos: Gibran Mendes

O dia 29 de setembro deve ficar marcado por manifestações de mulheres por todo país e até no exterior contra a candidatura de Jair Bolsonaro (PSL). Nascido do movimento #elenão que denuncia o machismo, a homofobia, o racismo e a defesa da tortura, as manifestações ganharam corpo após o grupo “Mulheres unidas contra Bolsonaro”, que contava com mais de dois milhões de integrantes, ser hackeado por apoiadores do candidato.

Mesmo antes da manifestação deste sábado, a campanha contra o candidato de extrema-direita já tem surtido efeito. Sua rejeição entre as mulheres está em 52%, representando uma alta de 11% nos últimos dias. Além disso, o candidato que lidera o primeiro turno já perde no segundo para seus principais concorrentes: Haddad (PT), Ciro (PDT) e Alckmin).

Por outro lado, as manifestações das mulheres não se restringem apenas a Bolsonaro e sua militância. De acordo com a candidata ao senado Mirian Gonçalves (PT), a agenda das mulheres busca fortalecer na sociedade o debate sobre igualdade de direitos. Para ela, que ocupou o cargo de vice-prefeita de Curitiba, o Brasil precisa voltar a proteger as mulheres e as colocar no orçamento. Confira.

Qual é a importância desse movimento “Ele, não”?

Mirian Gonçalves: Ele tem uma importância nacional e internacional, pois acontece em outros países.  Ele representa muito mais do que uma mobilização contra um determinado candidato. Isso representa mais a união das mulheres para demonstrar o que elas querem e o que elas não querem. Isso pode ser visto na Argentina com as manifestações pela legalização do aborto que, no fim, foi barrada pelo governo. Eu entendo que, no Brasil, estão provocando as mulheres e que isso vai se reverter nas urnas.

Um dos argumentos de Bolsonaro é que a diferença salarial entre homens e mulheres é definida pela competência e que não é papel do Estado intervir.

Mirian: Sou firmemente contrária a isso. O Estado existe justamente para regular o que consideremos um direito. Já existe uma lei que determina a igualdade de salários entre mulheres e homens e mesmo aqueles que desempenham a mesma atividade. Ainda assim, não é cumprido. Por isso, tem que regular. Como advogada trabalhista, eu vejo desculpas como ‘a mulher não produz tanto porque tem que buscar o filho na escola, ela não foca no trabalho, não está o tempo todo disponível e o homem já pode’. A situação piora em relação a mulher negra.

 

Defender as pautas das mulheres significa esquecer os direitos dos homens?

Mirian: A minha campanha é voltada às mulheres e também aos trabalhadores e trabalhadoras. A solidariedade é fundamental nisso. Afinal, ela não significa dar aquilo que te sobra, mas aquilo que você acredita que o outro tenha. Então, quando eu defendo as mulheres, estou pedindo o apoio dos homens que acreditam que as mulheres têm direito à igualdade. Quem não acredita nisso, naturalmente não votam em mim. O mesmo acontece com aqueles que não acreditam nos trabalhadores e trabalhadoras, que apoiam a reforma trabalhista, por exemplo.

 

No governo Temer, houve um recuo em políticas para mulheres. Com Bolsonaro, essa ameaça pode aumentar?

Mirian: Essa ameaça já é vista mundialmente. Ele vai na contramão dos direitos humanos. É homofóbico, misógino, racista, prega a violência. Há poucos dias, as pessoas se envergonhariam em levantar essas bandeiras atrasadas que me lembra a Ku Klux Kan, que matava negros e homossexuais apenas por serem diferentes.

O Brasil ocupa a quinta posição mundial em taxa de feminicídio. Como combater essa realidade?

Mirian: Existem várias formas de fazer esse combate. Uma delas são as Casas de Proteção implementadas nos governos de Lula e Dilma. A mulher precisa ter segurança para fazer a denúncia. Pois só o fato de denunciar pode aumentar seu risco. Por isso, a mulher precisa ser protegida pelo Estado. Eu ainda defendo que a justiça, que tem orçamento próprio, tem que encarar com mais seriedade esse problema. Vou apresentar uma emenda constitucional para que parte da verba do judiciário seja utilizada em políticas que defendam as mulheres. O dinheiro deve se destinar para contratação oficiais de justiça, varas e servidores públicos que se dediquem ao combate ao feminicídio e promovam a proteção da mulher.

A Casa da Mulher deve voltar a ser prioridade. No Paraná, a proposta era ter em Curitiba, Paranaguá e Foz do Iguaçu. Apenas a da capital foi implementada e está abandonada, pois faltam recursos. Eu entendo que é necessário a criação de até oito casas. Ainda defendo a educação como elemento de combate. Afinal, quando a sociedade não permite o debate sobre a sexualidade, sobre igualdade nas escolas, isso acrescenta a possibilidade do crime contra a mulher.

 

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