Em Curitiba, Lula diz: “Achei que iam mostrar a escritura”

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Ex-presidente prestou depoimento durante cinco horas na Justiça Federal do Paraná

Curitiba se tornou a capital da política brasileira nos últimos três dias. A cidade recebeu militantes sindicais e de movimentos sociais de todo país por conta do depoimento do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva ao juiz Sérgio Moro na operação Lava Jato. Lula é acusado de ter comprado um apartamento triplex no Guarujá com dinheiro recebido de propina da construtora OAS. Após mais de cinco horas de depoimento, o ex-presidente foi até a Praça Santos Andrade, em frente ao prédio histórico da faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná (UFPR). No local, ele era aguardado por milhares de pessoas. A elas, Lula comentou como foi sua audiência, que seria tornada pública pela justiça minutos depois: “Achei que iam mostrar a escritura”.

De acordo com a Frente Brasil Popular, a presença do ex-presidente em Curitiba movimentou mais de 50 mil pessoas. Em contrapartida, a manifestação em favor da operação Lava Jato e em favor do juiz Sérgio Moro concentrou no máximo 50 pessoas em frente ao Museu Oscar Niemeyer (MON). À militância, Lula disse que “se não fossem vocês, eu não suportaria o que estão fazendo comigo. A minha relação com vocês é de companheiro de luta”.

Foto: Joka Madruga/Brasil de Fato

O ex-presidente também criticou a mídia por antecipar sua condenação. “Eu respeito a justiça e as leis e a única coisa que eu peço é que eles me respeitem. Tenho 5 filhos, oito netos e não é justo meu neto sofrer bullying por conta do que a Globo fala de mim”, criticou. Um pouco antes de sua presença na Praça Santos Andrade, Lula havia dito ao juiz Sérgio Moro que era a pessoa mais investigada do Brasil e que seus adversários não aguentariam dez por cento do que ele está suportando. O ex-presidente listou a quantidade de matérias negativas em veículos como Folha de São Paulo, Estadão, revistas, Veja, Época e Istoé, além do Jornal Nacional, onde mais de “18 horas de reportagens” eram negativas. Para Lula, os vazamentos seletivos à imprensa por parte da operação Lava Jato depõem contra a democracia.

“Há um interesse de vazar, doutor Moro, porque esse julgamento tem que ser pela imprensa. (Contudo), o comprometimento da justiça com a imprensa está levando a um impasse: alguns veículos de comunicação estão com dificuldade em mostrar como isso vai acabar se esse Lula for inocente. Como vão prestar contas aos telespectadores se de repente ele não cometeu crime”, questionou.

Apoio político

A vinda do ex-presidente Lula também foi acompanhada por senadores como Lindbergh Farias e Gleisi Hoffman, pelo presidente da CUT, Vagner Freitas, e pelo líder do MST, João Pedro Stédile. A ex-presidente Dilma Rousseff também esteve na capital paranaense desde cedo. Enquanto Lula prestava depoimento, ela discursou à multidão na Santos Andrade: “Nós somos aqueles que sempre ganham com a democracia. A força de vocês que vai derrotar a arbitrariedade e a injustiça”, destacou a ex-presidente golpeada há mais de um ano.

Foto: Joka Madruga/Brasil de Fato

Movimento pacífico

A Praça Santos Andrade estava repleta de pessoas que, ao menos hoje, se não todos os dias, eram sim, militantes. Camisetas vermelhas, bandeiras flanando. A cor predominante era sim o vermelho-PT, mas tinha bandeira de luta de todos os movimentos sociais organizados, bandeiras de centrais sindicais ou de movimentos identificadas com suas cidades ou estados de origem. A militância curitibana ficou com a organização do grandioso ato político, mas quem encarou a possível hostilidade da República de Curitiba não vai sair daqui decepcionado.

Mesmo com helicóptero da PM dia e noite no céu da capital, mesmo com toda a tropa de choque e demais envergaduras de PMs e PFs, o que se viu foi um movimento harmonioso e pacífico. O único ataque registrado desde o início do acampamento organizado pelos manifestantes no terreno da rodoferroviária de Curitiba foi o disparo de um rojão que feriu uma pessoa dentro de uma barraca.

Nas ruas, na praça, nas marchas o que se viu foi uma grande massa que não encontrou motivos para se arrepender da mobilização e vigília nesses dois dias de estadia em Curitiba. Mulheres, jovens e crianças encararam a festa da resistência com a mesma disposição de combativos há mais tempo na luta. Foi um ato político. Porque tudo na vida é um ato político.

Por Manoel Ramires, de Curitiba
Colaborou Paula Zarth Padilha
Terra Sem Males

Foto de capa: Joka Madruga/Brasil de Fato

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