Entre a roça e a estrada, agricultores se mantêm vigilantes no Oeste do Paraná

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Há 53 dias, famílias seguem mobilizadas para impedir o despejo de três áreas no município de Cascavel

Por Diangela Menegazzi | Foto: Maikeli Gomes

Seu Nivaldo Alves é o primeiro a chegar todos os dias no espaço da Vigília Resistência Camponesa, em Cascavel, no Paraná. Ele chega cedo para cortar a lenha e acender o fogão caipira, onde mais tarde será preparado o almoço. Aos 59 anos, Nivaldo é trabalhador Sem Terra acampado e soma-se às mais de 800 pessoas ameaçadas de despejo das terras em que vivem e plantam, situadas na região Oeste do Estado.

Aos poucos, outras pessoas vão se juntando a Nivaldo, chegando à Vigília que começou na manhã de 28 de dezembro de 2019. Às 10 horas, o espaço de convivência, instalado às margens da BR-277, já está todo ocupado pelas famílias vigilantes, que chegaram a pé, de trator, ou em carros e motos vindas de acampamentos e assentamentos vizinhos. Elas estendem as faixas onde denunciam o motivo pelo qual estão ali, organizam e limpam o local para mais um dia de resistência.

As famílias querem o fim da violência e dos despejos no campo, para continuar o desenvolvimento de suas comunidades. E buscam o apoio do Estado para a efetivação da reforma agrária. Ao todo, são 211 famílias ameaçadas. Elas vivem há 20 anos nos acampamentos Resistência Camponesa, Dorcelina Folador e Primeiro de agosto, dentro do chamado Complexo Cajati. 

Palavras de ordem e o hino do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), do qual as famílias fazem parte, são entoados na primeira atividade do dia, chamada de “Formatura”. Este também é o momento no qual os representantes dos acampamentos e assentamentos vizinhos se mostram presentes, além de outras pessoas que chegam diariamente para dar apoio e prestar solidariedade ao movimento.

Na última semana, agricultores Sem Terras dos municípios do Sudoeste do Paraná participaram da Vigília. Segundo Airton Ferreira dos Santos, do acampamento Mãe dos Pobres, de Clevelândia, a presença demonstra a cumplicidade entre os acampados de todas as regiões e também a resolução em levar a experiência àquela região, se necessário. Lá, também há ameaça de despejo. “Quem tá na peleia, tem que ficar ativo”, afirma. Anteriormente, uma caravana do Norte do Estado esteve em Cascavel para apoiar e conhecer a experiência de luta. 

Organizados, sete grupos se revezam para preparar o almoço, feito com alimentos frescos. Quiabo, feijão, arroz, milho verde, abobrinha, carnes e saladas diversas fazem parte do cardápio. Os alimentos são produzidos e doados pelas próprias famílias acampadas. Aos sábados e domingos, militantes já assentados na região e outros visitantes também contribuem na tarefa da cozinha.

Enquanto o almoço é feito, as crianças menores correm e brincam pelo espaço. As já em idade escolar, chegam e partem do local da Vigília até o assentamento vizinho Valmir Mota. Lá, funcionam duas escolas do campo, uma municipal e outra estadual. 

Nesse vai e vem das crianças, e em meio às tarefas dos adultos, cultivam-se momentos de prosa, regadas a chimarrão e tererê, bebidas com erva-mate típicas da região. Ali, os agricultores sem-terra compartilham experiências de colheita e plantio sem o uso de veneno, e falam de coisas triviais mescladas a clamores e preocupações com o futuro de suas comunidades. 

Luiza Fagundes, 44 anos, e Odair Padilha de Lima, 34 anos, ambos do acampamento Resistência Camponesa, comercializam em Cascavel o que produzem em suas roças. São pelo menos 200 quilos de alimentos vendidos semanalmente em bairros da cidade. Nas rodas de conversa, os dois agricultores repassam conhecimento, ao mesmo tempo em que estão atentos à política que afeta suas vidas. “Se nós não unirmos forças, não conseguiremos chegar lá [conquistar a posse das terras] e tocar a vida pra frente”, diz Luiza.

Os alimentos produzidos pelas famílias também ficam expostos na Vigília, para serem vendidos às pessoas de fora. Nesta época, há feijão novo colhido pelos acampados, de cores e tamanhos tão diversos que deixaria impressionada qualquer pessoa, como eu, acostumada a comprar somente o feijão preto ou carioca no mercado. 

Nos fins de semana, a Vigília fica ainda mais animada, pois recebe mais amigos vindos do meio urbano de Cascavel, além de pessoas de outros municípios e estados brasileiros. Lideranças religiosas, políticas e de outros movimentos sociais são presenças frequentes no local. No domingo, a Vigília também tem recebido celebrações religiosas. 

Neste último, dia 16, o Bispo Naudal Alves Gomes, da Diocese Anglicana de Curitiba, celebrou missa em solidariedade às famílias. “Pedimos ao nosso governador Ratinho, e a todas as autoridades, que cessem os despejos e reintegrações de posse, para que os nossos companheiros continuem produzindo e vivendo com dignidade e trazendo alimento para a mesa das famílias brasileiras”, ponderou Naudal ao fim da celebração. 

O encerramento das atividades da Vigília é feito pontualmente às 15 horas. Uma pessoa é escolhida para falar em nome dos presentes. A manifestação é gravada e compartilhada posteriormente nas redes sociais. Em todas as mensagens, ecoam as palavras de ordem “Ratinho Jr., basta de despejo!” (em referência do governador do Paraná, do PSD) e “Resistência Camponesa: por Terra, Vida e Dignidade”. 

Segundo a coordenação do MST, a Vigília continuará por tempo indeterminado, até a solução do impasse. 

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