Escola zero à esquerda

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Eu sou assim porque sofri doutrinação quando estava na escola.

Minha melhor lembrança foi de um dia, já no ensino médio, em que eu e mais dois colegas – hoje um deles é uma espécie de neonazi, o outro publicitário – flagramos a professora de química indo embora ouvindo no toca-fitas do Uno Mille “Outro tijolo no muro”, do Rogério Águas. Demos risada, porque conhecíamos a letra da música. A professora também riu, quando falamos com ela, no dia seguinte. Ela era legal, apesar de ser de exatas.

Eu ia mal em exatas. Mas ia bem em humanas.

Falando nisso, mais ou menos na mesma época, o nosso professor de história – sempre esses de história – veio com outra coisa que me marcou, mas em outro sentido: disse com todas as letras que aquele cara de barba, cabelo comprido e boina com estrelinha era muito perigoso. Absolutamente perigoso. E quem usava camiseta com a cara dele era imbecil. Havia uma colega de turma que estava usando uma camiseta dessas.

A isso que o meu professor de história falou, claro, se juntavam outras pregações – de vários outros professores, e também de pessoas da direção – sobre o quanto era importante passar no vestibular de uma boa universidade, para se formar como pessoa de bem nesse mundão de “malvadeza neoliberal”, como dizia Paulo Freire – e como pareciam fazer questão de não dizer os meus educadores. A ideia, nesse respeitável colégio de classe média alta, era simples: você precisa conseguir a vaga, para fazer jus ao investimento dos seus pais. Quem consegue a vaga, depois consegue o emprego. Há que fazer jus ao mérito, porque só se dá bem quem tem o que tem, e é assim que as coisas são.

Enfim, escola muitas vezes é espaço de doutrinação capitalista.

Apesar de nunca ter me dado bem em exatas – só sei fazer aquela conta pra saber se está valendo mais a pena abastecer com etanol ou gasolina – virei mais ou menos aquilo que se costuma chamar de “adulto”.

Daí eu constituí família. Porque eu sou dotado de sistema reprodutor.

E, a partir daí, pensei seriamente, junto com minha companheira, se valia a pena colocarmos as crianças na escola. Ou melhor, se era justo, e válido, encampar a batalha por manter as crianças fora da escola. Ainda não há lei que regule o que fazer com crianças, nesse caso. E isso gera um longo debate – cheio de tabus, tanto à esquerda quanto à direita: como essa lei seria e quem a redigiria? E, mais importante: como ela afetaria as diferentes classes sociais?

Andamos nos informando a respeito, com pais que mantinham os filhos fora da escola. Vimos que é bem recorrente uma dúvida que tínhamos: já que não vou botar meu filho no ensino institucional, como vou suprir as demandas intelectuais dele, ou seja, como vou prover à criança “o lado bom” do ensino? E o que obtivemos como uma espécie de quase resposta foi que, assim como existem trocentos modelos de escola, afinal, existem diversas formas de não-escolarizar. Da mesma forma, vimos que existem duas brigas: uma pelo direito a não-escolarizar, e outra pelo direito de escolarizar em casa, simplesmente. Fora isso, vimos dois extremos nesse grupo tão difuso, dos que querem ter o direito de educar fora da escola.

Primeiro descobrimos os pais ultraconservadores que acreditam em criacionismo, por exemplo. Não devem estar pensando em educação livre, José Pacheco e tudo mais: provavelmente vão contratar professores particulares, pra educação domiciliar. É uma galera que em geral curte o Escola Sem Partido. Mas não querem seus filhos na escola, de qualquer forma. Criticam Paulo Freire sem sequer ter lido metade do verbete sobre ele na Uiquipédia – o que é engraçado, já que estão adotando certa postura crítica frente ao ensino institucionalizado (a meu ver equivocada, claro, mas que não deixa de ser coisa que o educador sempre defendeu). Enfim, nesse caso, o da educação domiciliar, que difere muito da não-escolarização, existe conteúdo pedagógico dado por outras pessoas que não os pais. Espera-se, aí, que a socialização dessas crianças possa se dar em ambiente religioso. E coisa e tal.

No outro lado, tem uma galera que prega um tipo de liberdade bem difuso e irrestrito, em todos os campos da vida. Um tipo de liberdade muitas vezes definido como radical, mas que, talvez, quem sabe, seus adeptos não saibam exatamente como definir melhor, em termos práticos, quero dizer. Que fazer nesse caso, a não ser não fazer nada? Então, quando perguntados a respeito, normalmente lançam mão de alguma tirada poética: “Não escolarizo meus filhos porque a vida é como a água movendo as pedrinhas do riacho”. Ok, não discordo. Só tenho medo que o rio esteja poluído. Conhecemos gente assim, que se retirou das grandes cidades, pra viver na natureza, sem professores, sem vizinhos, sem trânsito, sem estímulos consumistas (tenta-se, né?), sem agrotóxicos na comida – mas também sem museus, sem bibliotecas, sem manifestação nas ruas, sem planetários, e talvez mesmo sem simples reuniões com outras pessoas. Nesses casos acho que não existe preocupação com conteúdo: o conteúdo é ir pro rio catar pedrinhas. Aí não há educação domiciliar porque o domicílio, no caso, é o mundo. E por aí vai.

Tem gente aí, dentro desses dois grupos que citei, que não quer se socializar, ou quer se socializar só um pouco, em encontros eventuais – e com outras famílias não-escolarizadas de cabeça mais ou menos igual. E tem gente aí que não está preocupada com o futuro profissional da piazada. Mesmo a partir do momento em que estamos falando de crianças que, em tese, ainda vão sentir os efeitos da reforma trabalhista de 2017.

O que ocorre é que, no fim, acho que tanto nós, aqui, em casa, quanto os criacionistas e os das pedrinhas do riacho temos a percepção de que nenhum de nós, pais, vai dar conta de “ensinar” nada. Tratar-se-ia, então, de darmos a nossos filhos possibilidades de relações com o mundo outras do que aquelas previstas institucionalmente. Não preciso dizer o quanto isso é subjetivo. E vago. E não preciso dizer que somos, em maioria, brancos e de classe média pra alta – mesmo quem aí não pode ser considerado “elite” no sentido econômico, pode muito bem ser “elite” no sentido intelectual.

De qualquer forma, algumas coisas são importantes aí nesse debate, agora que o governo via Uatzáp começou, em 2019. A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos parece estar interessada em liberar a prática rápido, com regulação afinada somente com os argumentos do primeiro grupo que citei, acima. A ANED, a Associação Nacional de Educação Domiciliar, gosta muito dessa senhora, ao contrário de muita gente na Holanda.

Não preciso dizer que parte dos que são a favor da não-escolarização, parte da galera das pedrinhas no riacho, rejeita o rumo que as coisas estão tomando. Em silenciamento e surdez, essa discrepância entre os extremos não-escolarizados é só mais um Fla x Flu.

Enquanto isso, boa parte da esquerda parece disposta a encarar o fim da obrigatoriedade da presença infantil nas escolas como uma tentativa de ataque ao ensino público, alegando que a contribuição de pais e cuidadores sobrecarregados por suas jornadas de trabalhos jamais se daria conforme certas pessoas idealizam. E é isso mesmo. O problema é que é isso também. Sinceramente não sei se há esquerda a favor da prática. Porque, afinal, se você defende que criança esteja fora da escola (de qualquer forma que isso possa acontecer), só pode ser um individualista incurável. Mas penso que poderia ser uma boa, se houvesse. Porque, por mais que eu reaja automaticamente com um “ora, vai tomar no **” toda vez que dou de cara com algo que a ministra supracitada diga, por achar que ela nem deveria ser ministra, deixar de imiscuir-se na questão da educação fora da escola, pensando-se as formas com que isso pudesse ocorrer legalmente – com a devida fiscalização estatal – talvez seja justamente o que está jogando a pauta do dito homeschooling – que é diferente da não-escolarização – no colo das pessoas que pensam como a ministra. Ou seja: é a galera que acreditou na história da mamadeira de pinto que está redigindo a medida provisória que trata do ensino domiciliar. Desse jeito, o texto a regulamentar a prática realmente vai dar brecha para que as crianças vendendo bala no sinal, ou artesanato indígena nas rodovias, sejam colocadas no mesmo balaio que a piazada classe média KKK, e estejam nessa por opção dos pais, oficialmente.

Outra coisa que eu não sei é dar a minha opinião a respeito do que é melhor pras crianças, em geral. Tipo a Glória Pires, mesmo. Porque é complexo demais. Cada caso é um caso e eu posso muito bem estar errando feio com as minhas próprias filhas. Mas acho legal frisar esses pontos aí:

1) Não há evidência empírica documentada de que a educação domiciliar seja ineficaz do ponto de vista do desenvolvimento intelectual, nem necessariamente nociva do ponto de vista da socialização, que pode se dar de mil formas, apesar disso continuar servindo de argumento aos pró-escola custe o que custar;

2) As pessoas se educam fora das instituições, também. Pra mal e pra bem;

3) Querer deixar as crianças fora da escola não significa necessariamente querer uma educação domiciliar sem regulamentação;

4) O criacionismo é uma merda, e manter uma obrigatoriedade não o combaterá. Aliás, ele deve ser combatido? O Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos da ONU, do qual o Brasil é signatário, talvez indique que não;

5) Somos uma sociedade em mudança, com demandas flutuantes, e é natural que a legislação reconheça isso. A Lei de Diretrizes e Bases e as disposições sobre a educação na Constituição pretendem defender a educação pública, de qualidade. Isso, imagino, TODOS QUEREMOS. Ou quase. Mas permitir que se eduque fora da escola não significa necessariamente tirar responsabilidades do Estado. Não entendi até agora esse raciocínio como outra coisa que não presunção e medo – mas posso estar errado, me ajudem.

O Brasil é signatário de tratados internacionais, como esse troço aí da ONU que eu escrevi, onde o país se responsabiliza pela educação. E os desrespeita. Desrespeita também o que o Paulo Freire escreveu. O que fazer pra que a escola – pública ou privada – não seja depósito de criança?

Se a obrigatoriedade do ensino institucional é mesmo esse barbante tentando impedir que um elefante caia num penhasco, bom, talvez o problema não esteja no barbante, mas no tamanho do elefante, na qualidade e na inclinação do solo onde ele desliza e na proximidade do penhasco.

Sei que eles querem enfraquecer mais ainda a educação pública. Mas, talvez, ao invés de se manter uma inflexibilidade pra uma parte da sociedade civil, seja hora de nos perguntarmos por que isso necessariamente reduziria recursos para a educação pública. Existem estratégias que poderiam gerar garantias, nesse sentido? Talvez um bom começo seja nos perguntarmos por que o governo gasta mais lavando carros oficiais da Câmara do que investindo em museus. E, aí é que vai a parte difícil, tentar mexer nisso.

A nossa filha que está em idade escolar, aliás, está matriculada numa instituição de ensino presencial. Ela gosta. Ainda não foi zoada por ir pra aula com camisa alguma. As coisas são infinitamente mais complexas do que se imagina.

 

Por Bruno Brasil, jornalista curitibano radicado no Rio de Janeiro, escreve para o Terra Sem Males na coluna “entre aspas”
Foto: Arquivo pessoal

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