Estalada

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Por Wilson Ramos Filho (Xixo)* | Foto: Via Dmitry Kotov 

Existem muitos esportes bizarros. Vários deles talvez não devessem ser considerados como tal. A confluência dos ideais individualistas e meritocratas (que caracterizam o neoliberalismo) e a monetização de todas as dimensões da vida (peculiar ao capitalismo), por intermédio dos meios de comunicação, cria legiões de torcedores entusiastas de modalidades de disputas que simulam simbolicamente imemoriais instintos bélicos.

Para gerar lucros para alguém, cada período histórico cria esportes novos e, com eles, aficcionados que, com entusiasmo, escolhem seus ídolos, seus gladiadores prediletos nas arenas dos circos pós-modernos. No final do século passado fomos adestrados a gostar de Fórmula-1, neste nos ensinam a nos emocionarmos com o UFC, MMA, e com tapas na cara. A maneira capitalista de existir em sociedade introjeta em todos nós os valores da superação individual das dificuldades e dos limites. A louvação do empreendedorismo é apenas uma das evidências deste processo de colonização cultural de nossas vontades.

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Entre os estranhos esportes de nossa era, por sua dimensão simbólica, encontro o campeonato de tapas na cara. Sim, é isso mesmo, você não leu errado. Consiste em uma sequência alternada de cinco tabefes entre dois competidores. No cara ou coroa decide-se quem começa. As regras, sempre elas, são claras: não vale mão fechada, a lapada deve espalmar a bochecha do adversário. Ao final, se nenhum deles tiver sido nocauteado, a decisão é tomada por critérios técnicos. Um espetáculo.

Nesse esporte contemporâneo, a primeira dificuldade do atleta é ter alta capacidade de resistir às porradas recebidas, pois, mesmo que não derrube o adversário pode vencê-lo pela decisão dos juízes, desde que tenha tido habilidade nos tapas desferidos. Todavia, para vencer por critérios técnicos, o contendor não pode ser covarde, não pode negar combate, tem que esbofetear vigorosamente o opositor, sem dó nem piedade, como se dizia na quebrada onde passei minha infância. Ao final da disputa, em que ainda restaram de pé os dois atordoados lutadores, os juízes decidem.

Mais que o sete a um, para quem gosta de esportes, essa parece ser a metáfora estalada mais apropriada à nossa realidade bolsonara em que tantos conciliadores tentam nos convencer a – #juntos – oferecermos a outra face.

*Wilson Ramos Filho (Xixo), doutor em direito, professor na UFPR, integra o Instituto Defesa da Classe Trabalhadora.

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