“ESTAMOS COM UMA ESCOLA PÚBLICA PRECARIZADA NO PARANÁ”

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Entrevista com Hermes Silva Leão, presidente da APP Sindicato

Numa manhã de sábado ensolarada, após abrir um evento da Marcha das Mulheres, o presidente da APP Sindicato Hermes Silva Leão recebeu a equipe do jornal Terra Sem Males no meio de uma palestra que proferia na sede da União Paranaense dos Estudantes. E foi numa pausa durante a correria que o líder das duas maiores greves do Paraná em 2015 concedeu sua entrevista.

Ele falou sobre a importância da coletividade dentro da direção da APP; sobre a mobilização e as lutas da categoria; a postura de “vigiar e punir” do governador Beto Richa no dia do massacre e no pós greve; afirmou que o chefe da Casa Civil, Eduardo Sciarra, e o presidente da Assembleia Legislativa do Paraná, Ademar Traiano, também deveriam ter sido denunciados por responsabilidade no massacre. Hermes reafirmou a luta pela educação pública de qualidade e os desafios da categoria.

Professor Hermes discursa minutos antes da tropa de choque do governo Beto Richa agredir os trabalhadores do estado. Foto: Joka Madruga
Professor Hermes discursa minutos antes da tropa de choque do governo Beto Richa agredir os trabalhadores do estado. Foto: Joka Madruga

Confira a íntegra da entrevista exclusiva para o Terra Sem Males:

TSM: Quais são os desafios da educação pública do Paraná em sala de aula?

Hermes Leão – A APP Sindicato tem uma trajetória longa de formação por uma escola pública de qualidade. Nós organizamos conferências educacionais e formulamos um caderno com uma proposta de um programa de transição para qualificação da escola pública, ampliação de direitos de professores e funcionários, condições de trabalho, mas também do tema mais pedagógico. Hoje nós estamos com uma escola pública muito precarizada, colocando dificuldade enorme no ensino e aprendizagem.

Porque nós já viemos de um governo que está no quinto ano de mandato onde tem uma ausência da formação continuada de professores e funcionários, existe uma ausência de políticas voltadas para a juventude, no sentido de que a juventude compreenda a importância da escola, a importância do conhecimento.

Como você avalia a postura do governo estadual com relação à educação?

Nós não temos políticas de incentivo por parte do governo. É claro que num enfrentamento imenso como a gente fez, e no desdobramento desde enfrentamento, a política governamental é de estado policialesco. É um olhar muito punitivo, de vigilância o tempo todo. O Estado precisa estar presente no dia a dia da escola, mas como um indutor de processos de superação das dificuldades, e não com o olhar punitivo desse período pós greve.

E o uso da exposição dos salários dos servidores no auge da greve?

O governo fez um processo de criminalização de salários, criando um mal estar muito grande. Quando o próprio governador, ao invés de valorizar, compara salários de professores com prefeitos, já denuncia que o chefe de estado tem um olhar que considera quem merece um bom salário: é a classe política. E o servidor não pode ter salário nem próximo da classe política. Ele tem uma cabeça escravocrata. É a cultura colonialista da Casa Grande. O alto escalão merece bons salários. E professores e educadores ficam precarizados. Isso é muito ruim porque coloca uma dificuldade coletiva enorme.

No entanto dá pra afirmar que a categoria está muito mobilizada. As próprias greves produziram também uma defesa da escola por parte da sociedade, a própria juventude também, a ausência da escola no período de greve, essa contradição colocou a importância da escola.

Professor Hermes no ato contra Beto Richa na Boca Maldita. Foto: Joka Madruga
Professor Hermes no ato contra Beto Richa na Boca Maldita. Foto: Joka Madruga

Você acredita que a reflexão entre os estudantes, o retorno à sala de aula teve diferença? Como você sente o clima?

É possível afirmar que houve uma mudança muito importante da concepção de escola por parte inclusive da própria sociedade paranaense. A sociedade, mesmo aquela que não tem ligação direta com a escola pública, porque não tem filhos na escola pública, passou a ter um olhar da importância que a escola tem para a sociedade. E nesse contexto nós estamos avaliando um processo de muita interação da juventude, dos adolescentes com os professores. A própria violência que ocorreu durante a greve, especialmente no dia 29 de abril, colocou um sentimento de que é preciso que haja uma prática mais solidária, com mais diálogo entre os segmentos que compõem a escola, inclusive as mães, os pais e os próprios estudantes que estão no dia a dia.

Sobre o massacre do dia 29 de abril. Vocês esperavam o uso da violência?

O caminhão da cavalaria, aquelas dezenas de cães desde três dias antes do episódio, o número alto de policiais, inclusive do interior, e a presença de helicópteros, já era uma afronta nesse contexto. Nós estávamos muito preocupados com o desfecho da votação do projeto (projeto de lei que alterou a previdência dos servidores públicos estaduais), por isso que desde 25 de abril, quando houve a assembleia da APP em Londrina que deliberou a greve, lá mesmo ficamos sabendo que tinha o interdito proibitório, a gente já pressentiu que havia muita possibilidade de confronto. Quando houve o episódio do dia 28 de madrugada, que os caminhões de som foram confiscados pela polícia em frente à assembleia, e pela manhã do dia 28 houve já um confronto do movimento com as forças de repressão na rotatória, nós tínhamos a preocupação da violência.

Com esses indícios e o medo da violência, como a situação foi mediada nos bastidores?

Os deputados da oposição nos alertavam porque eles viram muito aparato policial dentro da Assembleia Legislativa do Paraná. Fora os cães, tinha muito armamento, foi por isso que nós acionamos a secretaria nacional de direitos humanos, acionamos os senadores do paraná, vieram dois senadores do Paraná para tentar mediar o conflito, a Gleisi e o Requião, abriram mão de toda a agenda nacional por um apelo que nós fizemos. Devido à nossa preocupação com o desfecho da votação do projeto que retirou direitos previdenciários.

Por isso que a gente teve Ministro de Direitos Humanos ligando para a Casa Civil do Estado, mediando, pedindo que o projeto fosse adiado. Ministério Público, OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), todos pedindo que o governo suspendesse a votação do projeto, que ganhasse tempo para fazer mais debates, porque havia o medo da violência. Nós fizemos de tudo com esses apelos às autoridades. O comandante da operação policial tinha um posicionamento crítico de como a situação estava sendo conduzida e foi substituído. Esse é um balanço que se tem daquele dia.

Trabalhadores vão ocupar novamente as ruas do Centro Cívico, em Curitiba. Foto: Joka Madruga.
Trabalhadores da educação ocuparam as ruas do Centro Cívico, em Curitiba. Foto: Joka Madruga.

Como a APP vê a denúncia de improbidade administrativa contra Beto Richa após investigação do Ministério Público do Paraná?

Nós primeiro reconhecemos que o Ministério Público do Paraná trabalhou intensamente com centenas de depoimentos e materiais, formou um dossiê importante do episódio de 29 de abril, fez uma denúncia contra o governador Beto Richa e contra o deputado federal Fernando Francischini, que era o secretário de segurança pública na época, e também denunciou mais quatro coronéis da Polícia Militar nessa linha da repressão mesmo. Mas nós temos o sentimento de que tinha duas outras autoridades importantes nesse contexto: o presidente da Assembleia Legislativa do Paraná, deputado Ademar Traiano, e o secretário da Casa Civil, Eduardo Sciarra. Traino teve um posicionamento muito autoritário, inclusive desrespeitando decisões judiciais sobre a participação de servidores nas sessões da Alep. Eduardo Sciarra também se envolveu. O próprio relatório do MP aponta que o gabinete da casa civil era o QG (quartel general) de guerra do governador. Não foi uma guerra porque não estávamos armados. Foi um massacre que eles planejaram com uma força estrondosa de Estado, então o chefe da Casa Civil e o presidente da Assembleia Legislativa cumpriram papel de protagonista. A gente entende que eles deveriam ser denunciados, mas não foram. Embora todo mundo concorde que o principal responsável foi o governador Beto Richa. E que o delegado Francischini representa essa doutrina violenta da bancada da bala. A gente entende que é um desserviço, são homens, são lideranças talhadas para um estado de polícia.

Como vocês estão acompanhando essa ação do Ministério Público?

Nesse sentido agora iremos acompanhar as entidades que receberam as denúncias, estaremos vigilantes, faremos incursões junto às autoridades judiciárias para acompanhar os desdobramentos. Além da ação do MP, na UFPR os juristas produziram em maio um importante julgamento com efeito simbólico cultural, acadêmico e político que condenou Beto Richa ao impeachment. Nós vamos acompanhar os desdobramentos e a sociedade tem questionado, entendendo que é impossível que ninguém seja responsabilizado por um governo ser extremamente violento.

Quais são seus maiores desafios como presidente da APP Sindicato?

A gente sempre procurou fazer um trabalho bastante coletivo na direção do sindicato, embora nós tenhamos uma cultura muito presidencialista. Eu avalio que isso não descaracteriza a importância das individualidades, do esforço pessoal de cada um se tornar um dirigente, mas por mais qualificado que seja o indivíduo ele necessariamente precisa de um contexto coletivo para poder tocar as tarefas mais amplas. Então nesse sentido eu tenho procurado fazer um trabalho com uma direção estadual que é um grupo bastante comprometido, bastante qualificado, uma composição plural de forças políticas, com metodologias, com diferenças. A gente tem procurado ter uma compreensão da importância da defesa dos direitos da nossa categoria, são professores e também são funcionários de escola. E também numa compreensão que estamos num período muito intenso de resistência que nos coloca numa necessidade muito forte de buscar consensos, buscar unidade dentro da categoria.

Temos procurado manter diálogo forte, inclusive com as composições e correntes da direção do sindicato que se organizam também no interior da categoria e que produzem construções também que são importantes. Nesse sentido a gente tem procurado consolidar uma compreensão de trajetórias histórica de muita organização, de muita unidade, para poder enfrentar o período ainda longo que se apresenta no projeto neoliberal de retirada de direitos. Então isso nos coloca numa necessidade dessa organização mais coletiva e unitária.

Tropa de choque avança contra os trabalhadores do estado. Foto: Joka Madruga
Tropa de choque avança contra os trabalhadores do estado. Foto: Joka Madruga

Qual seu histórico como professor antes de chegar à presidência da APP?

Minha trajetória foi a vida no campo, eu cresci na roça, fui alfabetizado em escola multiserial rural, foi um aprendizado muito importante, eu aprendi sobre os desafios da educação, já começou por ali. Eu me alfabetizei de 1ª a 4ª série normal, com 10 anos eu já tinha concluído. Mas aí eu tive que ficar dois anos sem estudar porque era um sítio longe de escola que oferecia o chamado ginásio da época. Depois disso eu fui militar do exército e durante o tempo de militar eu fiz a faculdade de Educação Física na cidade de Arapongas. Concluindo a faculdade e saindo do Exército no ano de 1991 eu fui trabalhar no Mato Grosso como professor de educação física e lá atuei em outras disciplinas também por ausência de colegas formados em determinadas áreas. A experiência no Mato Grosso foi bem importante. Foi um ano que teve duas greves, em 1991, e eu chegando lá logo me sindicalizei. Quando veio a segunda greve eu já fui para o comando de greve. Saí da minha cidade e fui para Cuiabá ajudar no comando estadual de greve e aprendi bastante sobre a luta sindical com a direção do Sintep, que é o sindicato dos professores e funcionários de escola do Mato Grosso. Depois voltei ao Paraná e já nos anos 1990 comecei a atuar na educação pública do Paraná em Apucarana, e também fiz a faculdade de Pedagogia nos anos 1990, em Jandaia do Sul, então eu tenho padrão de educação física e padrão de pedagogo na rede estadual. De 1999 a 2002 fui para a direção do Núcleo Sindical da APP de Apucarana. Foi um período importante na vida sindical, eu fui diretor de escola e veio uma greve importante no governo Lerner, no ano 2000, que eu ajudei a construir o comando de greve regional, eu participei da greve, foi um período interessante. Depois já em 2002 eu fui convidado para compor a chapa da APP que foi eleita e vim e apoiei por quatro anos a APP Sindicato em Curitiba, na direção estadual. Depois eu fui convidado para ser assessor do deputado federal Dr Rosinha e acabei fazendo trabalho com ele durante quatro anos e retornei na APP Sindicato na direção estadual a partir de 2009 pra cá. Há um ano estou na presidência da APP Sindicato.

Você estava no dia 30 de agosto de 1988? Que recordação que você tem desse episódio?

Eu acompanhei o período das greves, tanto de 1988 quanto de 1990, ano da greve mais longa da história da APP, de 96 dias, todas no período do Álvaro, como o irmão mais velho de estudante. Eu acompanhava a vida escolar dos meus irmãos mais novos, lá em Apucarana, e houve a greve. Mas naquela época eu era militar do Exército. É claro que a gente acompanhou assustado a repercussão que teve o 30 de agosto, porque embora não tivesse essa mídia toda de hoje em dia, naquela época era um período constitucional difícil, aquele episódio foi dois meses antes de promulgar a Constituição de 1988 que trouxe o estado democrático de direito, então ainda era uma transição do estado da ditadura civil militar para a promulgação da Constituição atual que viria dois meses depois do episódio.

Então houve muito confisco de materiais jornalístico, o governo ainda tinha práticas muito fortes de controle como ainda procura ter, claro que no contexto de agora os próprios instrumentos de comunicação, o próprio participante acaba se tornando agente de produção da notícia e que colocou um volume mais amplo.

Como você espera que sejam os próximos anos?

Nós entendemos que haverá ainda um largo período de resistência a esse governo, que está mergulhado na doutrina de choque, de gestão, de ajuste fiscal que penaliza toda a população paranaense. A população vem pagando preço altíssimo especialmente nas tarifas controladas pelo governo estadual.

Nós temos um debate muito forte de esforço de categoria. Nós precisamos fazer trabalho qualificado. E a sociedade precisa vir conosco, não só pela educação, mas pela saúde, segurança pública, que o estado do Paraná vem precarizando todas elas. É uma luta de resistência, de não retrocesso.

Por Paula Zarth Padilha e Joka Madruga
Terra Sem Males

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