Estiagem no sul agrava condição de vida em meio à pandemia do COVID-19

Colabore com o jornalismo independente, compartilhe.

por MAB Rio Grande do Sul | Foto: Padre Eugênio João Hartmann

Além da pandemia do COVID 19, o sul do Brasil, especialmente o Rio Grande do Sul, vem enfrentando outro sério problema: a estiagem, que se estende desde dezembro de 2019, gerando grandes prejuízos para a agropecuária estadual. As perdas são enormes em várias culturas e a falta de água ameaça também a produção animal e o abastecimento nas cidades. 

Segundo Rui Valença, coordenador geral da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar do Rio Grande do Sul (Fetraf-RS/CUT), durante o que chama de primeira fase da seca, houve uma quebra de 60% a 80% nas lavouras de soja, onde os agricultores colheram até 15 sacas por hectare. Na produção de milho, as perdas são de 30% a 40%, refletindo numa baixa qualidade da silagem produzida entre dezembro e janeiro deste ano. 

Na chamada segunda fase da estiagem, a fase atual, estima-se uma perda de 100% nas lavouras do milho safrinha, muito utilizado para a produção de silagem. Somado a isso, além da quebra na produção de grãos, começa a faltar água para a sedentação animal, impactando diretamente a produção de leite, frangos e suínos, ao ponto de as empresas integradoras não estarem alojando novos animais. 

Para enfrentar a crise hídrica no estado do Rio Grande do Sul, somada ao cenário nacional de pandemia, as entidades de classe e movimentos sociais estão propondo ações de  enfrentamento à estiagem. A FETRAF apresentou um plano da agricultura familiar, que se trata de conjunto de reivindicações aos governos estadual e federal, visando dar o devido suporte aos agricultores e agricultoras. Outra proposta é o Plano Safra Emergencial, pautado pelo Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) desde o final de março deste ano, que vem recebendo contribuições de outros movimentos e organizações sociais populares, incluindo o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). 

Segundo os dirigentes do MPA, o Plano Safra Emergencial tem como objetivo a produção e abastecimento de alimentos, com um “investimento de R$ 50 bilhões ao longo de 14 meses, visando a formação de estoques de alimentos, ações de reforço no abastecimento de água e o incentivo à geração de empregos no campo e na cidade.” A proposta vem para contribuir na redução dos impactos e superação da pandemia de Covid-19, de forma coletiva, unindo esforços do campo e da cidade. 

Para Luiz Dalla Costa, da Coordenação Nacional do MAB, “apesar da má distribuição de terras no Brasil, a agricultura familiar e camponesa é responsável por cerca de 70% dos alimentos que chegam à mesa do povo. Para criar um Plano Safra Emergencial, no contexto da pandemia, em que pode haver uma crise de abastecimento de alimentos à população urbana, é fundamental uma ação articulada e organizada a partir daqueles que de fato trabalham e produzem alimentos nesse país”. Ele argumenta ainda que “é justo reivindicar junto às autoridades os recursos necessários para a produção desses alimentos e a viabilização dos canais de distribuição para que cheguem até todas as famílias do meio urbano”. 

Falta água no campo e na cidade

No Rio Grande do Sul, muitos centros urbanos também estão sofrendo com a falta de água, como é o caso do Bairro Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre, e de outras cidades no interior do estado. Na região Altos da Serra, no território atingido pela Usina Hidrelétrica de Machadinho, há relatos de produtores que estão vendendo o gado por não terem água e alimento para os animais. 

Situação semelhante ocorre na região do Alto Uruguai, atingida pela Hidrelétrica de Itá. Nesta região foi necessário um intenso processo de negociação junto à empresa dona da barragem, a ENGIE, para que os agricultores pudessem acessar a água do lago para consumo animal. A Bacia do Rio Uruguai, uma das principais do estado, apresenta uma drástica redução no nível dos seus cursos d’água, em alguns pontos sendo possível fazer a travessia do Rio Uruguai a pé. A crise hídrica reflete também na geração hidrelétrica, como é o caso das Usinas de Foz do Chapecó e Itá, esta com 20% de sua capacidade reduzida. Já as Usinas de Machadinho e Passo Fundo suspenderam a geração de energia, devido ao baixo nível dos reservatórios. 

A estiagem além fronteiras

A Província de Misiones, na Argentina, também está sendo afetada pela seca. De acordo com Leandro Sanches, da Central de Trabajadores de la Argentina (CTA-Misiones), em matéria publicada no site Infober Diario Digital, no último dia 4 de abril, a população de Puerto Iguazú está enfrentando problemas de abastecimento devido à seca e ao fechamento das barragens brasileiras. A UHE Baixo Iguaçu, localizada na Bacia do Rio Iguaçu, no Paraná, é uma obra polêmica pela remoção massiva dos moradores locais, pelo impacto econômico e ambiental que está causando em Misiones, modificando o comportamento do rio e das cataratas. Neste momento de pandemia, em que a água é ainda mais necessária para os devidos cuidados de higiene, ela segue sendo tratada como mercadoria, sem atender às necessidades do povo.

Clique aqui para ler mais notícias sobre os ATINGIDOS POR BARRAGENS.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *