Estudantes ocupam reitoria da UFPR, em Curitiba, em defesa de terceirizados

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Trabalhadores do RU tiveram sobrecarga de trabalho após mudança contratual e acabaram demitidos

Desde as 11h30 desta terça-feira, 10 de abril, o prédio da Reitoria da Universidade Federal do Paraná (UFPR) está ocupado por cerca de 25 estudantes da instituição, que se organizam na Frente de Apoio à Luta das Trabalhadoras e Trabalhadores Terceirizados (FALTT).

Antes da ocupação do prédio, foi realizado em ato no pátio em frente ao Restaurante Universitário (RU) para denunciar a demissão de 12 trabalhadores terceirizados. Os funcionários que foram demitidos participaram de uma greve em 2017. “Eu estou aqui pela minha demissão sem justificativa”, afirmou M., auxiliar de cozinha.

Foto: Annelize Tozetto/Terra Sem Males

Outra funcionária terceirizada demitida, que ocupava o prédio junto aos estudantes, relata que foi contratada como auxiliar de cozinha, mas denuncia que exercia a função de cozinheira, sem ter o salário readequado, e afirma que sofreu humilhações com a sobrecarga de trabalho. “Uma pessoa tinha que fazer o trabalho por cinco. A gente começava a trabalhar às 6h da manhã e só podia almoçar depois que fechava o buffet, lá por 13h40”, afirma C.

O RU é mantido pela UFPR através de empresas terceirizadas e no último processo licitatório houve uma alteração contratual que resultou na diminuição do número de funcionários exigidos para o cumprimento do contrato. A empresa Blumenauense assumiu em 2017 a produção de comida e a ex-funcionária C. denuncia que os trabalhadores foram mantidos, nesse período, de forma precária para que a empresa soubesse como era feito o trabalho e em seguida, descartados com a demissão. “Eu perguntei para a funcionária do RH o motivo de eu estar sendo demitida e ela respondeu que era por pequenas coisas mas a gente sabe que é pelo fato de eu ter participado da greve no ano passado”, relatou.

Estudantes ocupam a Reitoria e pedem que funcionários demitidos do Restaurante Universitário sejam readmitidos – Créditos: Annelize Tozetto / Terra Sem Males

Um dos estudantes da FALTT, que terá sua identidade preservada e será aqui identificado como G.D., relatou já de dentro do prédio ocupado as motivações da mobilização, que está vinculada à alteração contratual que reduziu o número de funcionários e à sobrecarga de trabalho. Com a mudança de contrato em 2017 e a nova empresa, o número de trabalhadores para produzir a comida fornecida no RU foi reduzido. “Na região central tinha que ter 70 trabalhadores. No novo contrato, foi feita uma modificação em que dizia que deveria ter ‘número suficiente’. Óbvio que reduziram ao máximo o número de trabalhadores”, afirma G.D.

Anteriormente eram 250 funcionários e havia mais uma empresa responsável pela limpeza, separadamente. Com a modificação na modalidade de contrato, teve redução para 190 funcionários, resultando em intensificação do volume de trabalho. “Eles têm um açougueiro para cortar 700 quilos de carne e antes eram três”, afirma o estudante. Com a sobrecarga, há relatos de abalo emocional desses trabalhadores e de acidentes resultantes da sobrecarga, como queimaduras de segundo grau e quedas. Não há nenhuma abertura de Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) por esses acidentes, porque os trabalhadores têm medo, estão desassistidos e a empresa não dá suporte. “A empresa faz esses trabalhadores assinarem declaração afirmando que a culpa é deles”, denuncia.

A Frente de Estudantes atua em defesa dos terceirizados acusando falta de atuação do sindicato da categoria. “A gente entende que são demissões políticas e que a responsabilidade é da empresa terceirizada mas também da universidade, que joga o corpo fora”, diz o estudante.

Foto: Annelize Tozetto/Terra Sem Males

Os estudantes ocuparam o antigo Departamento de Serviços Gerais, onde passam todos os contratos de funcionários, e foram trancados lá dentro, por fora, após a saída de alguns funcionários do prédio e outros terem ficado para trás. A Polícia Militar foi acionada por uma servidora e chegou a isolar todo o quadrante em volta da reitoria.

Foto: Annelize Tozetto/Terra Sem Males

Relato da ocupação
A fotojornalista Annelize Tozetto acompanhou pelo Terra Sem Males a ocupação da reitoria e relata que após uma manifestação com faixas em frente ao RU, os cerca de 25 estudantes se dirigiram à porta da reitoria e que para passar uma das funcionárias reclamou de ser atingida pela porta e revidou com agressão aos estudantes, gerando confusão.

Foto: Annelize Tozetto/Terra Sem Males

A ocupação se consolidou e os funcionários se retiraram até o momento que a porta foi fechada por fora. Ao perceber que a porta estava fechada, a jornalista foi até lá tentar sair e foi hostilizada por uma funcionária, que duvidou que ela estivesse a serviço, mesmo que Annelize afirmasse estar realizando cobertura jornalística no local. Annelize foi, então, gravar as entrevistas sobre as motivações da ocupação e não acompanhou o processo de negociação para a porta ser reaberta, mas reitera que foi fechada por fora. Quando voltou ao local, a passagem estava liberada e as viaturas da PM já estavam para o lado de fora. A partir desse momento, a quadra foi isolada.

Os estudantes permanecem dentro da reitoria e afirmam que o objetivo da ocupação é a reintegração desses funcionários. O Coletivo de Advogados e Advogadas pela Democracia (CAAD) anunciou que irá prestar atendimento jurídico aos estudantes que ocupam o prédio da Universidade.

Fotos e reportagem: Annelize Tozetto
Edição de texto: Paula Zarth Padilha
Terra Sem Males

2 comentários em “Estudantes ocupam reitoria da UFPR, em Curitiba, em defesa de terceirizados

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