Ética dos boletos

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Por Fernando Lopez*

Brasil, como pseudo-nação, está evitando assumir o que é mais que óbvio: as vidas dos trabalhadores brasileiros valem menos que os interesses do comércio, do mercado financeiro, do que restou da indústria e muito menos que dos companheiros de outras terras.

É realmente desagradável ter que admitir, por total impossibilidade de negar, que somos apenas um amontoado de pessoas colocadas pelo destino em um território gigante, sem projeto, sem visão de construção de um futuro comum. Somos apenas parte da reserva de mão de obra. Substituíveis e precificados.

A morte do trabalhador estrangeiro nos comove profundamente. Somos todos Bob, Mike or Joe, mas quando quem morre é Roberto, Miguel ou João, fazer o quê, tem aqueles boletos pra pagar.

O tal economicismo, reduzir tudo à sua dimensão econômica, parece ser traço comum dessa personalidade nacional mal formada.

Não admitimos abertamente por preço na vida do trabalhador, mas que pomos, pomos. Basta ver os cálculos feitos pelos governantes, que pesam quantas famílias em luto são aceitáveis para não terem que desagradar donos de shopping center ou academias de ginástica.

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Não me entendam mal. Eu, como a maioria, preciso ganhar o pão diariamente, e a impossibilidade de fazê-lo, ditada pela pandemia, cria uma situação que está se tornando insuportável; mas aqui falo das grandes decisões, do big picture, como dizem alguns.

O que irrita e entristece é ver que estamos fazendo o debate errado, pesando prós e contras de se retomar as atividades, quando o único debate aceitável, do ponto de vista moral, ético e por que não dizer econômico é como manter um programa de renda mínima suficiente, para todos e todas que precisem, para que possamos ficar em casa, pelo tempo que for necessário, até que essa praga vá embora.

É simplesmente imoral colocar em um prato da balança a vida de trabalhadores brasileiros e brasileiras e no outro a preservação de pessoas jurídicas.

Estamos sendo, como sempre, pautados pelo capital, que insiste na possibilidade de expor o trabalhador ao vírus, em nome da proteção do emprego. Em outras palavras, estamos admitindo que a exploração do proletário, que vende sua vida, saúde e força de trabalho hoje pelo direito de trabalhar novamente amanhã, é a norma por aqui, em níveis que remontam ao começo da revolução industrial.

Não me iludo que essa característica básica do capitalismo irá mudar ou minimamente diminuir por conta dessa experiência traumática que estamos vivendo, mas pelo menos deveríamos assumir publicamente nosso fracasso como civilização.

Seria mais honesto continuarmos chorando a morte de italianos, franceses e americanos, sem fingir que os nossos tem a mesma importância.

A gente é menos gente que eles. A gente tem boletos pra pagar.

*Fernando Lopez é militante das causas populares, idealizador do Social Lista e colunista do Terra Sem Males.

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