Famílias das ocupações por moradia de Curitiba saem da invisibilidade

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Representantes de diversas entidades visitam ocupações e participam de assembleia de moradores

Por Paula Zarth Padilha
Fotos: Joka Madruga
Terra Sem Males

Na tarde do último sábado, 01 de outubro, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto do Paraná (MTST-PR) acompanhou representantes de diversas entidades ligadas aos movimentos sociais numa visita guiada à nova ocupação Dona Cida, formada na região da Cidade Industrial há duas semanas por cerca de 200 famílias. A Dona Cida agora é parte do Complexo Hugo Chavez, que reúne cerca de 1.500 famílias junto às ocupações Tiradentes (2015), 29 de Março (2015) e Nova Primavera (2012), na mesma região.

Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males
Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males

“Buscamos a democracia verdadeira no trabalho de base popular, que nos apaixona, que nos envolve. Temos a transformação da sociedade como objetivo de vida”, declarou Paulo, um dos coordenadores do MTST Paraná ao lado da Sylvia, do Fernando e do Chrysantho. Também estavam ao lado deles alguns dos coordenadores das ocupações: Carlinhos, Marilza, Lilian e Manoel.

Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males
Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males

Além de mais de 50 pessoas entre estudantes de Direito da Universidade Federal do Paraná, estudantes de Medicina da Faculdade Evangélica, a frente Advogados pela Democracia e representantes de diversas entidades de apoio aos movimentos sociais, como a Terra de Direitos, estiveram no local com a promotora de justiça Aline Bilek Bahr e o engenheiro civil Julio Costaldello de Almeida, representantes da Promotoria de Justiça de Habitação e Urbanismo de Curitiba, órgão vinculado ao Ministério Público do Estado do Paraná.

“Uma das atribuições da promotoria é a busca da regularização fundiária urbana, pelo direito fundamental e constitucional das pessoas à moradia. E lá no gabinete da promotoria de justiça eu me sinto muito distante da realidade. Eu faço a intervenção com os órgãos públicos, com os moradores, mas eu não sei da realidade na terra, no local. Eu quis vir pessoalmente passa sentir a luta e o sofrimento”, disse ao Terra Sem Males a promotora Aline Bahr, do MP.

Promotora Aline Bilek Bahr. Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males
Promotora Aline Bilek Bahr. Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males

Após a caminhada, que começou na Ocupação Tiradentes, as famílias que ainda substituem seus barracos de lona por madeira na Ocupação Dona Cida, receberam os visitantes com uma assembleia de moradores.

De acordo com Fernando Marcelino, do MTST, nessas duas semanas de ocupação do terreno, cerca de oito assembleias já foram realizadas, mas o movimento ainda não começou a triagem para saber a quantidade de crianças nos barracos, quem está empregado ou desempregado. Só se sabe que a lista de espera é tão grande que alcança a quantidade de famílias que conseguiu ficar no local: mais de 200.

A ocupação Dona Cida ainda não tem instalação de água e luz mas já está parecida com um conjunto habitacional: cercada de gente, adultos e crianças, empenhados em melhorar os barracos.

O sábado também coincidiu com mais uma investida de um oficial de justiça, que munido de papeis e de seu documento institucional, foi recebido pela promotora Aline. Ele esclareceu que só foi verificar o local, que não se tratava de uma ação de despejo. Uma reunião mediada pela Cohab no dia 26 de setembro, com os proprietários do terreno, evitou temporariamente a retirada das famílias.

Promotora Aline Bilek Bahr conversa com o Oficial de Justiça (camisa xadrez). Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males
Promotora Aline Bilek Bahr conversa com o Oficial de Justiça (camisa xadrez). Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males

Todas as pessoas abordadas pelo Terra Sem Males para que contassem sua história nas ocupações relataram que o motivo de saírem do conforto de uma casa para arriscar tudo levantando um barraco de lona é a impossibilidade de pagar aluguel. Independente de valor: R$ 450, R$ 500, essas pessoas não conseguem pagar.

“A gente tem direito à moradia digna. É muito fácil argumentar oportunismo, como se a gente tivesse condição financeira de comprar uma casa, um terreno, ou de pagar aluguel”, desabafou Manoel, que é um dos coordenadores da ocupação Tiradentes e acompanhou a expedição.

Encontramos Lindomar de Oliveira, de 24 anos, utilizando pallets para a confecção de um piso de madeira em um barraco já erguido. Ele contou que trabalha como vendedor de balas nos semáforos e veio para a ocupação Dona Cida com a mulher e dois filhos pequenos, que todos já dormem lá antes mesmo de conseguir fazer melhorias embaixo do teto que ergueu com as próprias mãos e ajuda de familiares.

Lindomar de Oliveira em frente à sua morada. Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males
Lindomar de Oliveira em frente à sua morada. Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males

Eles vieram de uma casa no Tatuquara, onde não deram mais conta de pagar os R$ 450 de aluguel. A única renda fixa é o valor do Bolsa Família, além do que ganham vendendo bala. Segundo Lindomar, a renda familiar beira os R$ 500.

Ao fundo o lixão da Essencis. Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males
Ao fundo o lixão da Essencis. Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males

A luta dos moradores nas ocupações da CIC também tem um inimigo comum: o uso do local próximo de moradias (já estabelecidas, como a Vila Sabará) por um lixão, o aterro sanitário da cidade de Curitiba, uma atribuição delegada à empresa Essencis.

O Terra Sem Males apoia e dá visibilidade à luta por moradia.

Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males
Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males
Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males
Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males
Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males
Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males
Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males
Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males

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