FINAL – FUTEBOL SEM TEMPERO, MAS O PAÍS TEM GOSTO

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FINAL

::Capítulo X – Tiros ao vento!  

O barulho da porta dos fundos deixa Cat Blake ainda mais doida. Ela efetua uns disparos em direção aos fundos do depósito e é neste momento que eu, mesmo com dificuldade, consigo dar uma cabeçada na cara dela. Espero ela baixar a guarda, após os tiros, e acerto em cheio a cara dela.

Depois grito pra confirmar se é minha ‘nega veia’ que tá pela área. Aí a porta se abre e minha mulher chega pra me desamarrar. Já com minha pistola, olho pra Cat Blake no chão, ela parece tentar, meio que lutando pra acordar, falar algo, mas quando vejo ela mexer a boca, descarrego minha 765 na cara da maldita.

Agora ninguém saberá do meu lance com a falecida. Após os tiros, minha esposa chega e dá uns chutes nela, com raiva, com prazer, pra vingar Tim e Tião. O sangue jorra. Olho pra ela, dou um sinal de positivo e vou até o quintal nos fundos do bar.

Logo no começo dos nossos negócios, Tião sempre falava das lembranças que tinha do interior de São Paulo, das épocas em que cortava cana com sua família. E pra lembrar as origens, ele pediu pra plantar um pequeno canavial nos fundos do bar. Lá, enterrada, estava nossa fortuna.

– Aqui, meu amor, vem ver!

Usei uma pá pra tirar um pouco de terra que escondia um caixão enterrado no meio da vegetação. Quebrei a tranca e vi aqueles sacos pretos. Sabia que ali tinha uma boa quantidade de cocaína e dinheiro.

Então eu e minha mulher pegamos o táxi do Bigode e fomos pra casa. Sinceramente, com tanta grana, droga, contato e documentos; posso afirmar que tenho mais anos de vida do que imaginava quando saí de casa ‘pela última vez’.

Volto mais forte, com o dia clareando. Olho pra minha nega, ela tá radiante, selvagem e com olhar ambicioso. Fizemos o melhor amor das nossas vidas.

Sigo em frente. Minhas feridas são marcas da vitória e sei que o jogo não pode parar.

A bola rola e a fila anda, agora sou patrão e minha mulher está comigo nos negócios. Lembro-me do diário de Tim, quando ele escreveu que vivia cada dia como se fosse o último, é assim que seguimos.

Os jogos continuam, só mudam os jogadores. O objetivo é o mesmo: gastar.

Gastar a bola, gostar o nariz, gastar o salário, gastar o lucro, gastar o que não se tem, pedir emprestado, se endividar, matar ou morrer.

Depois de tudo, o que mais me deixou fodido foi encontrar naquela papelada do Tião o documento de posse do tríplex do Guarujá! A verdade é só uma: o apartamento nunca foi do Lula.

Encontrei também naquela papelada muito pagamento de propina pra juiz, desembargador e a galera do colarinho branco.

Tudo isso me deixou muito puto. Só de registro de pagamentos à polícia deu uma boa planilha fúnebre. Tive que queimar arquivo.

E se antes Tim era quem fazia o trabalho sujo, naquela noite, quando minha mulher matou Bigode, ela se encontrou.

Agora minha nega é também minha matadora. Desprendida de afeto pelo sistema e com muito amor por nossa Vila.

Pode vir nos visitar, aqui não toca o hino nacional antes das partidas de futebol, mas é minha mulher que dá tiros para o alto.

Aqui nós somos a lei e exigimos respeito.

 

Por Jornaldo.

Leia Penúltimo Capítulo.

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