FOTOS: Vozes da violência em Kasai, no Congo

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Em depoimentos prestados a Médicos Sem Fronteiras (MSF), moradores de Kasai contam como tiveram que fugir de casa quando seus vilarejos foram atacados por milicianos ou viraram palco de confrontos entre milicianos e os militares, quando a violência eclodiu em agosto de 2016. Muitos perderam filhos, maridos e mulheres, e viveram meses na floresta com pouca comida e sem nenhum acesso à assistência médica. Confira abaixo os relatos e as fotos de Marta Soszynska.

Pascal Balananai, enfermeiro, 32 anos
Coordena o departamento de admissões no centro de saúde de Mukendi, em Tshikapa. É da cidade de Luebo, mas está há anos em Tshikapa e trabalha em Mukendi desde o início do ano.
“Alguns dos pais que chegam com os filhos ao centro ambulatorial de nutrição terapêutica são daqui, de Tshikapa, mas a maioria é de pessoas deslocadas pela violência que vêm de lugares diferentes, como Muyeyi ou Ngombe. Perderam familiares e entes queridos, e seus filhos estão desnutridos. Como não há acampamentos de deslocados internos, alguns vivem na igreja, outros vivem com parentes ou alugam quartos. Antes do conflito, também havia crianças desnutridas em Kasai, mas na época as pessoas tinham recursos para enfrentar a situação. Há pessoas que ficaram muito tempo escondidas na floresta. Elas sofreram muito. Há pessoas que vêm de muito longe para este programa. Às vezes os pais não nos contam que a criança já está doente, com diarreia, o que agrava a situação. Nosso trabalho é muito importante para a comunidade.”
Mashanga, mulher deslocada, 58 anos
Mashanga com Mulumba, seu neto de 11 meses. Eles visitaram o centro ambulatorial de nutrição terapêutica apoiado por MSF no centro de saúde de Mukendi, na cidade de Tshikapa.
“Somos do vilarejo de Senge, próximo à cidade de Muyeyi. O povoado era dedicado principalmente à mineração, e foi atacado em maio passado. Tudo aconteceu durante a noite. Os milicianos chegaram ao vilarejo e então entraram em nossa casa. Decapitaram o pai e a mãe desta criança. Não posso amamentá-lo, pois sou sua avó. Ele tinha poucos meses. Encontrei a criança viva depois do ataque. Ficamos três semanas escondidos em uma montanha. Foi muito difícil. Tivemos que atravessar muitos campos para chegar até aqui. Só tínhamos experimentado esse tipo de violência antes da independência. Agora estamos vivendo em uma igreja com outras dez pessoas que são de povoados como Kamako ou Kamonia. Não é fácil viver assim. Não tenho nada para fazer durante o dia agora. Estou sozinha com meu neto. Temos outros parentes dispersos por outros locais. Antes do conflito, a situação era tranquila: nos comunicávamos com pessoas que falavam outras línguas e havia casamentos entre pessoas de comunidades diferentes. Mas agora não é possível voltar à nossa cidade natal. Todas as casas foram destruídas.”
Kabeya Mamba Michel, vítima da violência, 30 anos
Está internado no centro de saúde de Diketemena, em Tshikapa. Sua mulher e filha estão com ele.
“Saímos do vilarejo de Senge depois de um ataque de milicianos e do exército. Nos refugiamos em uma floresta próxima e, depois de dois meses vivendo ali, a polícia disse que poderíamos voltar ao povoado, mas logo à noite alguns militares chegaram e dispararam contra nós. Chegamos até aqui passando pela floresta. Levamos três ou quatro dias. Passamos por todos os tipos de problemas: mosquitos, falta de alimento. Algumas crianças morreram. Eu era garimpeiro de diamantes. Em Senge, também havia agricultores e outras pessoas fazendo outros tipos de trabalho. Para minha família, neste momento não é possível voltar, por isso procuramos um quarto em Tshikapa. Conheço muitas pessoas – homens, mulheres e crianças – que foram assassinados. Não consigo contar quantos. Foram enterrados em fossas comuns, com 30 ou 40 pessoas juntas, em frente às suas próprias casas. Minha casa foi incendiada. Espero que possamos recuperar a paz. Nunca havia visto algo parecido em Kasai. Há muitas necessidades e, ainda, muitas pessoas escondidas. Estamos condenados à morte se profissionais humanitários não vierem até aqui. Antes do conflito, a convivência entre as pessoas era boa.”
Ntumba Kasomba, vítimas da violência, 31 anos
É do povoado de Senge, próximo a Kamonia. Seu braço esquerdo tem um ferimento antigo causado por uma machete e deverá ser amputado. Ela está no centro de saúde de Ditekemena em Tshikapa e tem um filho de dois anos e nove meses de idade.
“Um grupo de milicianos nos atacou depois de entrar em meu povoado. Nos refugiamos com nossa família em casa. Quando saímos, nos atacaram com machetes. Uma criança pequena sofreu muitos cortes e a outra morreu. Depois, me escondi. Não posso retornar ao meu povoado porque todas as casas foram queimadas e não sei o que poderia fazer ali. Minha madrasta e minha tia estão vivas. Cinco filhos meus morreram. Meu marido levou um tiro. Quase todos do vilarejo morreram. Somente um grupo de 50 a 100 pessoas sobreviveu. Os milicianos queriam expulsar da região todos que não fossem como eles. Tudo o que desejo é que a paz volte e que possa cuidar de meu filho, o único que está vivo. Meu marido era garimpeiro de diamantes e eu vendia farinha. Quando me recuperar, vou tentar voltar ao comércio.”
Bulu Kuetem, mulher deslocada, 69 anos
Vive agora em Tshikapa, perto do centro de saúde de Kamalenga.
“Somos de um povoado próximo a Kamonia. Alguns trabalham como garimpeiros de diamantes ou ouro. Meu marido levou um tiro e fugiu depois de ser atacado. Não sei está vivo ou não. Tenho quatro filhos e três netos. Agora estamos vivendo em uma igreja em Tshikapa. Chegamos aqui há quatro meses. Desde então, sempre estivemos aqui, no mesmo lugar. Vi pessoas fugindo. Tenho familiares aqui, como o pastor da igreja. Temos medo de voltar, apesar de a violência ter diminuído. Nossas casas estão destruídas. Antes do início da violência, as relações eram boas e havia casamentos mistos. Podíamos cultivar nossas terras, mas agora não tenho nenhuma atividade para fazer aqui. O que posso fazer? Sempre estamos aqui, no mesmo lugar, apenas nos movimentando. Tenho o suficiente para conseguir algum alimento. Em Kasai tudo estava calmo. Os milicianos atacaram as forças do Estado e por isso houve represálias. Não sei qual é a solução para essa crise. Quanto a mim, tenho que encontrar alimento todos os dias e me assegurar que ainda tenho onde me abrigar.”
Kanku Joseph, agricultor, 54 anos
Vive em Masanga Anaï, povoado atacado por milicianos.
“Voltei ao vilarejo há cinco meses. Enquanto estava na floresta, enfrentei problemas porque meus filhos adoeceram muito. Minha casa foi destruída. Vivo temporariamente na escola e reconstruí a casa durante uma semana. Levarei até dois meses para completá-la, porque não temos material adequado para este trabalho. Perdi meu irmão e meus quatro sobrinhos devido à violência. Meu neto também morreu. Também perdi muitos bens. Minha principal preocupação, neste momento, é voltar a ter um lar. Tenho a esperança de que tudo mude para melhor.”
Jean Paul Buana, enfermeiro, 50 anos
É a pessoa encarregada do centro de saúde da cidade de Mayi Munene, área rural da província de Kasai. Ele é de Kananga, mas está há dez anos em Mayi Munene.
“No mês de março, os milicianos chegaram e começaram a matar policiais e soldados. Os policiais morreram. Professores, pastores e enfermeiras foram as vítimas seguintes. Queimaram a casa do administrador, a escola. Os ataques mais graves ocorreram em abril. Saquearam todos os medicamentos do centro de saúde e logo incendiaram o resto do edifício. O centro cirúrgico, a corrente de frio para as vacinas, a farmácia, os consultórios e a recepção foram destruídos. Chorei quando cheguei ao edifício e vi tanta destruição. Não é certo fazer isso. Os milicianos ocuparam a cidade por aproximadamente dois meses. Decapitaram algumas pessoas e logo os militares os mataram.
Tínhamos 150 pacientes por mês aqui e este era o centro de saúde de referência para cerca de 128 mil pessoas da região. Costumávamos realizar cesarianas, tratamentos renais, laparotomias etc, mas de março a julho a atividade médica foi interrompida. Voltamos somente em julho, depois de os militares estarem aqui novamente. Neste momento, somos 12 funcionários, mas apenas seis estão trabalhando. O número de consultas é menor do que antes do conflito. Muitas pessoas ainda não retornaram. Ainda faltam medicamentos, materiais etc. Agora realizamos atividades de cura, mas a vacinação não é possível. Todas as sextas-feiras abrimos o centro ambulatorial de nutrição para os pacientes. Há cerca de 50 crianças no programa. As necessidades mais urgentes são de alimento e educação. Sementes e ferramentas agrícolas foram perdidas. A maioria da população local trabalhava no garimpo de diamantes. É muito difícil começar de novo: precisamos de mais ajuda humanitária. O mundo se esqueceu de Kasai.”
Kanku, mulher deslocada, 21 anos
Atualmente ela vive no vilarejo de Mayi Munene com seus dois filhos: Dani e Ale, de cinco e dois anos de idade. Ela traz o filho menor ao centro de nutrição terapêutica apoiado por MSF.
“Somos de Kamako, próximo à fronteira com Angola. Meu marido, garimpeiro de diamantes, foi assassinado ali. Estava lavando roupas no rio. A violência começou e decidimos ficar na floresta. Em um momento me separei de meu marido. Cada um dos nós levava um de nossos filhos, mas ele levou um tiro. Fiquei um mês escondida na floresta perto de Kamako. Logo fui para o povoado de Kamonia, onde fiquei mais um mês, e então passei três meses vivendo em uma igreja de Tshikapa. Em Tshikapa me informaram que minha irmã mais velha estava me procurando. Por isso vim a Mayi Munene, porque é onde ela vive. O mais difícil, para mim, foram as ameaças dos milicianos do grupo Bana Mura. Durante minha viagem, vi muitas pessoas morrendo. Vimos cadáveres, provavelmente mais de 100. Vivi emoções fortes às vezes; em outras ocasiões, tremia de medo. Hoje é muito difícil sobreviver com filhos e sem alimento. Só recebemos assistência humanitária. Não acho que seja possível voltar a Kamako. Perdi tudo o que tinha ali.”

Fonte: Médicos Sem Fronteiras

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