HÁ CURA?

Colabore com o jornalismo independente, compartilhe.

Capa do disco "Cure for pain", da banda Morphine.
Capa do disco “Cure for pain”, da banda Morphine.

Hoje a Morphine está bem presente.

Tento assimilar o que ouvi ontem à noite.

“Mas eu já bati nela…” – disse o jovem.

Essa frase foi dita algumas vezes; em todas me pegou de surpresa.

“Como ele pode dizer isto desta forma? Com essa naturalidade?” – pensava comigo.

“Cara, o nariz dela é torto. Já dei uma porrada na cara dela” – mesmo contrariado por todos, inclusive pelo seu pai, que também tomava cerveja no boteco; o moleque parecia não se importar.

Agora penso: isso tem cura?

“Toda vez que nós discutimos ela vem e fala que minha mãe é uma prostituta. Cara… você não tem noção… ela fala de um jeito… que você não tem noção” – dizia numa espécie de justificativa bizarra para suas atitudes.

Mas dava pra perceber que nem ele sabia explicar o que estava fazendo.

Talvez a culpa importunava. Mas o jeito como ele falava sobre as merdas que faz, ainda mais depois de umas cachaças, o torna uma pessoa aparentemente incurável.

“Minha única preocupação é minha filha… porque eu não amo mais ela (sua esposa), nunca amei” – abaixa a cabeça, meio que cambaleia, olhos vermelhos da pinga e da fumaça, traga o cigarro com vontade. Depois volta seu olhar para o céu e solta toda fumaça que um jovem pulmão é capaz de soltar.

O fato é que ninguém estava preocupado com o que ele falava.

Nem eu.

Morphine gravou os álbuns Good (1992), Cure For Pain (1993), Yes (1995), Like Swimming (1997) e The Night (2000). A primeira vez que os escutei ainda era moleque, lá em Palotina, noroeste do Paraná. Lembro que um amigo me emprestou.

Naquela época era engraçado. Eu pegava os cd´s de amigos e gravava tudo em K7. Antes disso, tinha que pedir o toca cd do vizinho, pois eu não tinha o meu.

Era tudo primitivo, como o K7. Mas também refinado, como o Morphine; que também é sexy e obscuro. É mórbido… é sombrio… é confortante… é foda. É crime e paixão.

Mark Sandman, seu baixo com duas cordas e seu vocal grave; ao lado do saxofonista Dana Colley (que às vezes tocava com seu double sax); e o baterista Billy Conway, iniciaram o Morphine em 1989.

Uma pena que a vida da banda foi curta. Interrompida numa apresentação na cidade italiana de Palestrina, em 1999, quando Sandman teve um ataque cardíaco e morreu no palco, aos 46 anos.

E após pesquisar um pouco sobre a banda, depois de um longo tempo, descobri que foi lançado este ano lá na gringa um documentário dos caras chamado “Morphine – Journey of Dreams” – site do doc aqui.

Fiquei curioso, pois é sempre divertido conferir o que antigos membros e pessoas próximas à banda irão relembrar. Além de relatos de outros artistas, como os de Joe Strummer (The Clash – já falecido) e Henry Rollins (Black Flag e Rollins Band).

Hoje… confuso, já não sei se vou ver aquele jovem na TV, preso, após matar sua mulher. Não sei se ele irá cometer um crime brutal. Também não sei se sua mulher uma hora se vingará. Se o denunciará à polícia. Pode ser que ele volte pra casa descontrolado e se acidente de carro.

Realmente eu não sei.

Talvez por isso Morphine está na minha cabeça. Pois o que ficou de verdade foi uma grande incógnita. Se essa história terminará num final trágico ou numa triste despedida; como em Gone for good.

Agora estou aqui… com o vinil Cure for pain do Morphine em mãos. “Vou botar esse vinil pra rodar”… é só nisso que eu penso. Enquanto não há cura, meu remédio é Morphine.

 

*Someday there’ll be a cure for pain
 That’s the day I throw my drugs away

 

*Algum dia existirá a cura para a dor
 E neste dia eu jogarei meus remédios fora

 

Por Regis Luís Cardoso
LP – Crônicas Musicais
Terra Sem Males 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *