Inauguração de igreja em comunidade do MST reúne bispos e padres, no Paraná

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Localizado no município de Barbosa Ferraz, o acampamento é uma das mais de 70 áreas ameaçadas de despejo no estado.

Por Setor de Comunicação e Cultura do MST-PR  | Fotos: Wellington Lenon e Ednubia Ghisi

A comunidade do acampamento Irmã Dorothy, de Barbosa Ferraz, centro-norte do Paraná, festejou a inauguração da capela Nossa Senhora do Rocio com missa e churrasco, nesta sexta-feira (11). Depois de dois anos de trabalho comunitário, a capela abriu as portas aos fiéis locais e ficou pequena para receber as centenas de visitantes do próprio município e de cidades vizinhas.

Dois bispos e quatro padres realizaram a primeira missa na capela: Dom Anuar Battisti, Arcebispo de Maringá; Dom Bruno Elizeu Versari, Bispo da Diocese de Campo Mourão; Padre Roberto Cesar de Oliveira, da Paróquia Nossa Senhora das Graças, de Barbosa Ferraz; Padre José Carlos Kraus, da Paróquia São Judas Tadeu, de Quinta do Sol; e padre Francisco Dantas, da  Paróquia Nossa Senhora das Candeias, de Engenheiro Beltrão.

A expressiva participação dos religiosos reforça a solidariedade da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e da igreja católica com as famílias de agricultores e agricultoras Sem Terra ameaçados de despejo no Paraná. As 35 famílias do acampamento Irmã Dorothy então entre as mais de 7 mil que vivem nessa situação de angústia pelo risco de perderem seu local de moradia e de trabalho.

O desejo dos Bispos é de que as situações de conflito sejam resolvidas “de forma justa e digna, sem violência, para que as famílias tenham possam ter um espaço para ganhar o pão com o suor do próprio rosto”, disse Dom Anuar Battisti, durante a cerimônia de inauguração da capela.

“Ninguém quer passar a vida toda ganhando cesta básica, mas quer ganhar o pão com dignidade. E o que dignifica o ser humano é o trabalho. E o trabalho hoje nasce da terra, do chão, de onde sai o alimento, a vida para a família e para a cidade. Deste chão é que está saindo o alimento”, defendeu o bispo.

O religioso também lembrou os esforços dos bispos do Paraná em buscar o diálogo com o governador Ratinho Junior (PSD), para que as famílias possam seguir produzindo e vivendo nas áreas. Sete comunidades já foram despejadas desde que Ratinho está à frente do governo. “O Movimento Sem Terra no Paraná é um movimento exemplar, porque sempre agiu na paz, na harmonia, no diálogo, no entendimento. E é isso que nós queremos. É isso que o governador também quer”, disse.

Dom Bruno Elizeu Versari frisou a função social e também do poder público e fazer cumprir o que está na Constituição brasileira: “Não tem nem sentido eu ter uma propriedade que não esteja produzindo. E tem o papel do governo que é de ordenar isso. É uma pena que o governo não assume, senão já teria resolvido tudo isso, de forma mais fácil do que a sociedade imagina, porque o governo tem a possibilidade de fazer isso, mas a impressão que passa é de que não tem vontade ou interesse em realizar”.

Os bispos presentearam a comunidade com uma pequena imagem da padroeira da capela. “É um direito de todos, um pedaço de chão para viver com dignidade. Por isso nós queremos pedir a Deus, por meio de nossa senhora do Rocio, que ilumine os juízes e o governo do Paraná”, abençoou Dom Anuar.

“Nós estamos aqui e temos uma grande esperança de que com todas as bênçãos que estão sendo derramadas sobre nós aqui hoje, com toda essa força, nós temos fé e certeza de que com nós aqui não vai acontecer o que aconteceu no Pinhão, que com 25 anos de comunidade estabelecida tiveram suas casas destruídas, sem dó nem piedade, e não tiveram compaixão nem da igreja”, disse Martina Unterberger, integrante da direção estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), se referindo ao despejo de 20 famílias no município de Pinhão, em dezembro de 2017.

Trabalho em mutirão

O Padre Roberto Cezar atua na Paróquia de Barbosa Ferraz há 8 anos, e desde então trabalha com a comunidade Irmã Dorothy. “Nesse tempo, nós pudemos viver a alegria de ver catequistas, as nossa crianças aqui da comunidade celebrando os sacramentos, recebendo a eucaristia, muitos já crismados, até casamentos. E hoje nós temos a alegria de chegar aqui a esse momento auge dessa vida de comunidade, quando eles, por suas iniciativas, decidiram construir uma capelinha”.

Apesar de ter incentivado a construção da igreja, o Padre reforça que a obra é fruto do esforço das famílias: “Foi a comunidade, que através dos recursos, das doações, do esforço comunitário e do trabalho em mutirão, que conseguiu fazer esse trabalho de construir uma capelinha em menos de dois anos”.

Apoio da sociedade

A festa de inauguração da igreja contou com a presença do Reitor da Unespar de Campo Mourão, Antônio Carlos Aleixo, do vice-prefeito de Barbosa Ferraz, Roni Lucindo Filho, de integrantes da APP Sindicato e do Sindicato dos Bancários do Paraná e de estudantes universitários.

O deputado estadual Professor Lemos (PT) também participou da cerimônia: “Eu já estive aqui em Audiência Pública na Câmara de Vereadores há alguns anos atrás e a população inteira é a favor da criação de um assentamento nessa área para a produção de alimentos, como vem produzindo, e produzindo vida em abundância. Mais uma vez estamos aqui prestando a nossa solidariedade e pedindo às autoridades que podem decidir sobre essa área, tanto o poder judiciário, quanto o governador Ratinho Junior que ouça essa população que clama por justiça”, disse o parlamentar.

Histórico da comunidade

O acampamento Irmã Dorothy está localizado a seis quilômetros da área urbana de Barbosa Ferraz, em uma área tem 415 hectares da fazenda São Paulo. A área estava abandonada e com gado bovino com surto de febre aftosa.

A ocupação ocorreu em 2005 por agricultores e agricultoras integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Em 2008, as famílias chegaram a ser despejadas, mas reocuparam as terras.

Até 2015, o Incra manifestava o interesse em comprar a fazenda, porém o órgão não se manifestou posteriormente para resolução do conflito. A produção local garante a subsistência das famílias, que também comercializam o excedente. Entre os item produzidos estão feijão, hortaliças, frutas, leite e carne.

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