Isso vai passar. Mas e daí?

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por Thea Tavares | Foto: Joka Madruga

Um mal invisível, um vírus que causa problemas respiratórios, justo ele, veio frear em tempo recorde alguns avanços anticivilizatórios em curso no Planeta. Marcadores posicionados nos grandes centros urbanos do mundo e satélites de observação são capazes de atestar que a qualidade do ar contraditoriamente “melhorou” a partir das medidas de isolamento domiciliar e de distanciamento social que foram adotadas para evitar a propagação desenfreada da COVID-19 e o colapso dos sistemas de saúde. Não fosse o risco de se contrair a doença do coronavírus, o ar poderia ser considerado até mais “respirável” nessas localidades.

Não chega a ser irônico a gente ler nas notícias internacionais análises que evidenciam que retirar carros das ruas e colocar as pessoas dentro de suas casas tornam possível cumprir as metas de redução da emissão de gases de efeito estufa na atmosfera (para tentar estabilizar o aquecimento global a no máximo 2°C), o que é um dos principais fatores associados à mudança climática na Terra? Ou alcançar outros tantos objetivos de sustentabilidade preconizados pela Organização das Nações Unidas (ONU), pautados em tratados internacionais e protocolos de intenção assinados pelos países do mundo todo, o que antes a gente não conseguia fazer ou se negava a tentar perseguir? Um vírus microscópico, de fácil contágio e rápida propagação veio nos dizer: vocês podem mudar, fazer diferente, vocês podem inverter prioridades, vocês podem ressignificar.

Mas nada do que está mudando conceitos e despertando para a revisão de comportamentos lá fora tem efeito aqui no Brasil. Pela primeira vez, me vejo sofrendo do complexo de vira-lata que sempre critiquei na atrasada elite brasileira ou nos agentes disseminadores de suas ideias. O coronavírus não freia a ganância dos madeireiros que se aproveitam da desatenção mundial para, longe dos nossos olhos enclausurados, desmatarem ainda mais a floresta e numa velocidade catastrófica. Nem aplaca a violência e o abandono de povos indígenas e comunidades tradicionais isoladas. Sem contar as velhas mazelas sociais que derivam das nossas convencionais desigualdades e discriminações. Prova de que ainda não se aprendeu o suficiente com essa hecatombe.

Diferentemente da imbecilidade do governo plantonista, o mundo todo aproveita para se reinventar. Estamos percebendo que muitas tarefas e serviços podem ser feitos de casa, basta conseguir organizar o tempo, distribuir funções e compartilhar responsabilidades na família. Nada que não soubéssemos, suspeitássemos ou não ouvíssemos um grupo crescente de mentes abertas alertarem e darem murros em pontas de faca para nos convencer. O isolamento ensinou como num passe de mágica!  Para algumas outras tarefas e serviços e a fim de evitar os desgastes físico e mental do trabalhador em deslocamentos que consomem horas da sua saúde na ida e volta ao local de trabalho, pode-se repensar e dar conta dessa lida não só de casa, mas de coworkings que fiquem mais próximos de suas residências e para os quais as pessoas possam se deslocar a pé ou de bicicleta, de patinetes etc. Com isso, sobra-se tempo para o lazer, para o aprendizado e para desfrutar da convivência familiar.

Nada disso é novidade. Todo mundo já ouviu falar dessas possibilidades em algum momento, sem dar a devida importância a elas, sem associá-las de fato ao bem estar das pessoas e à redução da poluição para que possamos respirar melhor. Mas diante do medo de morrermos sufocados, asfixiados, esses conceitos fazem todo o sentido. Como caiu a ficha geral com relação à teoria de Keynes sobre o papel do estado em tempos de depressão para reaquecer a economia e assegurar direitos sociais básicos. Não sou da área e abordo apenas superficialmente o tema. Mas, junto com a derrocada da sacrossantidade do sistema capitalista (baseado em lucro, propriedade privada dos meios de produção, acumulação, mercados competitivos, livre iniciativa, trabalho assalariado, entre outras premissas), qualquer leigo, mesmo que tenha tomado bomba nas disciplinas correlatas do ensino médio, consegue hoje relativizar instintivamente a teoria da autorregulação da economia.

Nem subornando com um frasco de álcool gel nas mãos será possível encontrar um único empresário que reclame de dar uma bicadinha nas tetas do estado neste momento em que o toque de recolher é o “salve-se quem puder”. A PEC 10/20, aquela do tal orçamento de guerra, que o diga! O empregado, por sua vez, como sempre, fica entre a cruz e a espada. O desemprego não mais bate, como já meteu o pé na porta e derrubou-a. Se não for o socorro emergencial público, a fome fará mais estragos entre a população pobre que o ataque do coronavírus; Aliás, antes mesmo dessa pandemia enterrar nossa sociedade em vala comum. A lição que aprendemos com tamanha dor é: sem o empregado e sem o consumidor, lascou-se tudo!

Toda essa discussão é complexa e polêmica. E extremamente irônica! Recentemente, matérias da Folha de São Paulo mostraram pesquisas feitas nos Estados Unidos que compararam imagens de satélites da China entre janeiro e fevereiro deste ano (fevereiro foi o pico do coronavírus por lá), especialmente sobre a região que representa o epicentro da disseminação da doença causada pelo vírus, a fim de observar a diferença na concentração de poluentes nesses dois meses. Com base nos dados da Organização Mundial da Saúde – OMS, sabe-se que a poluição do ar está diretamente associada à causa de sete milhões de mortes por ano no mundo. O pesquisador da Universidade de Stanford chegou a um cálculo pelo qual estima que 50 mil chineses foram salvos de morrer por problemas respiratórios decorrentes da poluição do ar quando passaram a ficar em casa, em comparação com as mais de 3.200 mortes pelo coronavírus na China, ou seja, a poluição mata mais que a COVID-19. Isso ainda, é bom considerar, se descontada a subnotificação, que não se enxerga, e pela análise dos números absolutos dos registros oficiais.

Óbvio de que essa matemática perversa também não é algo a se comemorar, porque junto com tal situação vêm os problemas sociais e econômicos, a perda de empregos, de salários, dos meios de sobrevivência, a fome e a miséria, além dos fatores emocionais decorrentes da gravidade dessa tragédia e dos traumas legados dela, comparáveis aos tormentos de um ex-combatente de guerra. Mas dá margem a se pensar no que virá depois e o que temos de fazer para sermos diferentes no futuro, resilientes e aprendermos com as duras lições dessa pandemia. Como diz um meme que gira muito pelas redes sociais: não quero que tudo volte ao normal, porque o normal é que era o problema.

E, voltando o olhar para o Brasil… Ai, que preguiça! Para dizer o mínimo. Se estamos atrasados na corrida do enfrentamento, quem dirá na humilde e hercúlea tarefa da reconstrução. Governos de diversos países já convocaram seus cidadãos para abandonarem esse Titanic. E a gente faz o quê? Queremos ser só os valorosos músicos da orquestra do navio à espera de que alguém capte nossa mensagem de S.O.S. ou não? Eis a questão!

“Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde
O seu despertar”.

(Rosa dos Ventos – Chico Buarque)

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