Jornalismo Resiste | A hipocrisia do Feliz Dia, mulher

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Por Paula Zarth Padilha*

Hoje é terça-feira, 18 de fevereiro, e mais uma vez assumi a ingrata, porém visceral tarefa, de rascunhar um posicionamento à altura do que estou me referindo como vômitos misóginos e machistas do Presidente da República, Jair Bolsonaro, direcionados à uma única mulher, a premiada jornalista da Folha de S. Paulo, Patrícia Campos Mello, e que atinge a todas nós, mulheres, e deveria ser ruminado por toda a população para despertar uma reação com um só foco: escancarar o absurdo.

Mas tarefa ainda mais ingrata que ser sindicalista é ser sindicalista na categoria dos profissionais jornalistas.

Além de estar pessoalmente e coletivamente com a dignidade atravessada, de ter que se submeter a reagir dizendo não, mulher jornalista não apura notícias trocando informações por sexo com a fonte (isso é mesmo necessário?), também ocorre de ler, vez ou outra, MAS E A FOLHA? Algo semelhante ocorre com aqueles memes, esses sim piada, MAS E O PT?

Camaradas da classe trabalhadora, camaradas mulheres da classe trabalhadora, que travam enfrentamentos históricos contra os retrocessos e por melhores condições de trabalho, é hora de baixar a guarda. De que importa o que a empresa de mídia Folha de S.Paulo, cujos proprietários possuem outros interesses comerciais e são também patrões, pensa sobre a conjuntura econômica, no contexto em que o Presidente da República Jair Bolsonaro declara, para quem quiser ouvir, que uma TRABALHADORA JORNALISTA, no exercício da sua profissão, queria trocar um furo por um furo?

O jornalismo está num protagonismo conjuntural que vem sendo sinalizado há tempos. A guerra contra-hegemônica da informação é também cercada de inconsistências. Como jornalista sindical já reivindiquei incontáveis vezes que os colegas sindicalistas deveriam ouvir profissionais jornalistas para construir a pauta em defesa de uma comunicação adequada, pautada pela função social do jornalismo. Isso não é feito nem no quintal de casa.

É lamentável ter que ler palavras de dirigentes sindicais tergiversando sobre a gravidade deste ataque, contra todas nós mulheres, pelo motivo da vítima trabalhar num veículo de imprensa com interesses comerciais. Estaremos juntas nas trincheiras? Eu estarei lá. 

Paula Zarth Padilha é jornalista em Curitiba, diretora da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) e do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná (SindijorPR). Atuou como editora, repórter e cronista para o Terra Sem Males de 2015 a 2018 e escreve a coluna Jornalismo Resiste quinzenalmente, especial para o Terra Sem Males.

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