Ladislau deixa sua marca no Couto Pereira

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Conheço um professor de literatura que é uma figura. Lembrei-me dele nesse fim de semana, depois que o Atlético derrotou o Coritiba. Ele é coxa-branca fanático e, como eu sou atleticano, resolvi escrever uma mensagem de what´s ‘tirando uma onda’ do amigo.

Óbvio, ele aceitou a brincadeira numa boa. Além disso, me chamou pra tomar uma cerveja num boteco qualquer. Topei.

No boteco:

– Cara, a hora que você me escreveu, eu tinha acabado de sair de uma aula muito estranha.
– Sério? Como assim?

Então meu amigo tirou uma folha de caderno do bolso, nela tinha uma redação, e começou a explicar o que tinha acontecido.

***

Eu ministrava uma oficina literária pra apenas um aluno. Foi a primeira vez que tive apenas um solitário ouvinte. Logo depois das primeiras atividades, ele, que se apresentou como Ladislau, solicitou a minha presença.

Deixei o meu café na mesa, levantei da cadeira e fui até meu único aluno. “Pois não?” – eu disse. “Cara… você pediu pra eu começar uma história sobre qualquer assunto, mas tá difícil de colocar no papel!” – disse Ladislau. “Não consigo pensar em nada!” – completou.

Ofereci um café pra ele, que aceitou. Deixei um copo com Ladislau, puxei uma cadeira e sentei. Aí sugeri que pensássemos em algo que ele gostasse. Perguntei o que ele tinha feito de interessante um dia antes da nossa oficina: “Fiz o que eu faço sempre, fui assistir um jogo” – disse Ladislau. “Que jogo?” – questionei. “Atletiba. Óbvio. Rolou lá no pinga mijo. Furacão na cabeça! Com o sub 23, ainda por cima”.

Ladislau então passou a tirar sarro do Coritiba…

Enquanto eu tomava um gole de café, sugeri que ele escrevesse sobre algum acontecimento que envolvesse o Atletiba, algo inusitado, banal, rotineiro, que pode acontecer com qualquer um.

“Entendi” – disse ele. “Sabe que hoje cedo aconteceu algo bem doido comigo. Foi uma coisa meio estranha. Meio desagradável. Mas que eu ri muito!” – completou Ladislau.

Fiquei feliz. Expliquei que lembranças assim são coisas legais pra se escrever.

***

– Tá, meu querido, mas aonde você quer chegar com essa história?
– Calma, cara. A grande verdade é que Ladislau só precisava encontrar sua alma na escrita. Lembra aquela música do Aggrolites… Countryman Fiddle? Então…

I need more soul with my music.
I got to have to have reggae reggae music.
I don’t need no countryman fiddle.
I need a real cool sound.

Meu amigo então cantou o refrão da música da banda de ska norte americana.

– Tô ligado. Faltava alma no negócio – respondi.
– Então… é isso… ele precisava encontrar seu reggae. Seu texto. Sua literatura.
– Legal…
– É, mais ou menos.

Percebi, depois dessas palavras, que o professor tinha mais coisas pra dizer. Ele pegou a folha da redação do ‘nosso amigo desconhecido’ e passou a explicar tudo com mais detalhes.

***

Ladislau começou sua redação assim:

“Hoje eu acordei contente. Aliás, eu e toda nação atleticana. Até porque, foi mais um dia de festa no Couto Pereira. A molecada do sub 23 do meu furacão destruiu o Coritiba lá no pinga-mijo”.

Depois, Ladislau disse que no dia após a partida, ou seja, hoje, ‘coincidentemente’, foi ver um apartamento pra morar. A localização? Exatamente na região do Alto da Glória.

“Não estava muito interessado, pela localização, porém fui lá ver, pra desencargo de consciência. Sabe como é… um apartamento perto do Couto Pereira, não sei se gostaria de morar…”, escreveu Ladislau.

Aí o cara começou a explicar que quando entrou no prédio, indo procurar o apartamento, sentiu uma cólica! Uma dor de barriga!

“Sabe quando parece que tudo tá mexendo? Uns roncos estranhos… pô… comecei a suar frio” – essa era a linguagem que ele usava.

Ladislau descreveu que foi difícil até pra conseguir abrir a porta do apartamento 303. Além disso, o prédio, com quatro andares, não tinha elevador.

“Imagine você, subir uns andares concentrado pra não cagar nas calças? Bem devagar e controlando a respiração? Ainda bem que consegui evitar o pior. Abri o apartamento e corri para o banheiro. Por sorte achei rápido, já na primeira porta. Aquela cagada foi demais!” – descreveu Ladislau.

O pior foi o cara explicar que ficou sem papel higiênico. Óbvio! Estava num apartamento colocado pra locação, não é? É lógico que a porra do imóvel, que não tinha nem mobília, não teria papel higiênico.

Imagine essa cena:

“Olhei pras minhas meias. Achei melhor não usá-las, pois iria ficar de sapato e sem meia. Eu não gosto de usar sapato sem meia. Então, não teve jeito, apelei pra cueca”.

Porra… o cara apelou pra cueca! Puta que o pariu!

“Quando puxei a descarga, também não tinha água. Mas aí foi só ‘ligar’ o registro que funcionou na boa. Outra coisa: não achei uma lixeira no AP e não dava pra deixar a cueca lá, né? Imagine só… outra pessoa ir visitar o apartamento e encontrar uma cueca toda cagada jogada em algum canto?” – Ladislau.

Depois ele me explicou que teve que sair do prédio com a cueca toda dobradinha, pra não sujar sua roupa. Bizarro, né? Mas a coisa não para por aí… tem mais…

Outra problema é que Ladislau não encontrou lixeira na rua. Aí foi pela calçada, em direção ao seu carro.

Bicho, olha o que o miserável escreve aqui:

“Eu tive uma luz! Sem mais nem menos… nem sei o motivo… olhei pra continuação da rua e vi o Couto Pereira! Cara… não sei o que me deu… já comecei a rir antes de entrar no carro. Fui em direção ao chiqueirão, sorrindo, olhei tudo aquilo, lembrei-me de mais um Atletiba, mais uma vitória, e, sem pensar direito, simplesmente desci o vidro da porta do carro, reduzi a velocidade, peguei minha cueca suja e fiz um lindo lançamento”.

Você acredita que esse filha da puta jogou uma cueca suja de merda em frente ao Couto Pereira? E ele disse que “foi lindo!”? É isso mesmo?

Esse Ladislau ainda descreveu que observou a cueca “voar lentamente, se abrir, flutuar e espalhar ‘minha marca’ na calçada do Couto”.

Puta merda. Essa aula foi uma desgraça pra mim.

“Foi muito engraçado. Nunca tinha acontecido isso comigo. De calafrios e cólicas até risos infinitos após lançar minha cueca cagada no Couto Pereira”.

***

Meu amigo respirou um pouco, sem saber o que dizer, olhou pra folha de redação de Ladislau e confessou:

– Apesar desse infortúnio contra a nação coxa-branca, só de ver o Ladislau concentrado, escrevendo freneticamente, com prazer, querendo ‘destruir’ o papel, foi bem bacana.
– Olha aí… eu particularmente, mesmo sem conhecer o escritor, aprovo sua literatura. Ladislau, aparentemente, tem futuro.
– Ah… não fode…
– Porra, o cara jogou uma cueca suja em frente ao Couto Pereira! Isso é histórico!
– Ah… vá se foder…

Meu amigo pegou o papel da redação do Ladislau, tirou sua caneta com o símbolo do Coritiba do bolso e escreveu com raiva…

“Ladislau, um escritor de merda”.

Por Regis Luís Cardoso
LP – Crônicas musicais
Foto: Capa do segundo álbum do The Aggrolites lançado em 2006
Terra Sem Males

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