LP – Crônicas musicais: O que será que o Redson diria sobre Mariana?

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Por Regis Luís Cardoso
LP – Crônicas musiciais
Terra Sem Males

 

“Eu ‘tava’ ouvindo Cólera no fone. Deixei a TV no mudo. Só vi que passava uma notícia sobre Mariana. Abri uma cerveja, nem deu tempo de tomar o primeiro gole e já tocou o telefone…”.

“Comigo foi meio parecido. Tem dias que ‘tô’ doido pra tomar uma cerveja. E bem na hora que eu ia sair… tocou o telefone”.

Os dois amigos se encontraram no Bar do Diabolô. Ambos tentavam entender o porquê de estarem ali e daquele telefonema estranho.

No boteco pequeno e fuleiro, com as marcas das incompletas reformas prometidas por Diabolô, uma pequena TV estava ligada.

Passava jornal… mostrava o indiciamento dos diretores da Samarco e do acordo que os estados de Minas e Espírito Santo assinaram com a empresa. Agora, com a criação de um fundo de R$ 20 bilhões, espera-se a recuperação do Rio Doce em 15 anos.

Então Diabolô simplesmente desligou a TV e tudo começou.

Na vitrola…

(…) Água e ar, vítimas de contaminação química

Você viu armas feitas com pedaços de nossos corpos

Você viu sua pele irmã a preço promocional na vitrine

Eles, não viram nada além do lucro

Eles, usam sua pele sentado sobre nossos pedaços,

Eles têm projetos milionários para exterminar todos nós (…)

 

Ele colocou o LP “Verde, não devaste!”, de 1989, do Cólera.

– Nesses últimos meses, depois que aconteceu a parada lá em Mariana, ouço Cólera com mais frequência – disse Diabolô.

– Então, coincidência ou não, também estava ouvindo eles antes de você me ligar. Aliás, que porra de telefonema foi aquele, véio?

“Hey, aqui é o Diabolô, venha conhecer meu bar!!!”

– Hahahaha… que lixo de mensagem!

– Hahahaha… eu gravei uma tele mensagem do bar e fiz o teste com vocês. Funcionou pelo jeito…

Depois de algumas cervejas um dos amigos pergunta:

– Viu Diabolô, e essa grana aí nessa caixa, você vai mandar pra Mariana?

No canto do balcão, encostado numa parede, havia uma caixa de papelão com algumas notas de real. Nela estava escrito: “Mariana”.

– Vai! Na verdade essa grana vai pra conta de um amigo que mora em Mariana. Aí lá eles se viram.

– Mas rola uma grana boa? – perguntou o outro amigo.

– Cara, aqui no bar não. Mas aí juntamos a grana de outros bares e assim vamos somando. Um bar… outro bar e mais outro… dá uma melhorada, né?

– Massa. Tem uma galera envolvida, então?

– Tem… tem sim.

Diabolô falava sobre seu grupo de amigos. São vários donos de boteco numa página de rede social. Após o que houve em Mariana, um dos membros que era de lá pediu ajuda financeira.

“Somando todo mundo deve dar uma grana legal”. Diabolô explicou aos seus eternos fregueses como funcionava o esquema.

Depois da conversa, cada um de seus amigos colocou trintão na caixa.

– Quem colabora ganha um chopp – entregou os copos aos amigos e continuou a conversa com uma de suas tradicionais perguntas:

– O que cada um de vocês tem a dizer sobre o que aconteceu em Mariana?

“Samarco fdp” – foi o que ambos responderam e logo beberam seus respectivos chopps.

– Esperava mais de vocês… – brincou Diabolô e já foi cantando a letra da música Verde que rolava naquele momento na vitrola.

 

Minha vida, sua vida

Nossas vidas dependem do verde

 

– hahahaha… boa! Cólera é foda. Depois desse vinil você pode escolher outro deles que eu não vou me importar.

– Nem eu!!! É bom ouvir esses caras.

Então Diabolô foi até a vitrola e colocou outro álbum:  “Pela Paz Em Todo Mundo”.

Os três cantaram o início da faixa “Medo”:

 

As vezes tenho medo

As vezes sinto minha mão

Presa pelo ar

E quando eu olho em volta

Encontro uma multidão

Presa pelo ar.

 

As vezes tenho raiva

As vezes sinto que a ilusão

Me faz recuar

Pois muita gente mente

Pois muita gente te dá a mão

Só pra empurrar.

 

Naquele momento só estavam os três no boteco. Diabolô começou a beber conhaque e os outros dois bebiam chopp. “Quem ficou… ficou… quem não ficou… já era!” – brincou o dono do bar, que olhou pros amigos e fez mais uma de suas perguntas:

– O que esse som pode fazer por você?

– Ah, sei lá… me deixa bem. Gosto de música pacifista! – bem na hora começou a tocar “Pela Paz”.

– Que bosta de resposta – interrompeu Diabolô.

– Ah, lembrei! É desse álbum a música “Humanidade”. Curto pra caralho esse som – disse o outro brother, berrando:

 

POR TODA HUMANIDADE

POR TODAS AS VIDAS EM GERAL

 

Depois de mais um tempo, Diabolô foi até a vitrola e puxou outro álbum: Deixe a Terra em Paz”*.

Ao voltar, soltou outra pergunta:

– Ein… o que será que o Redson diria sobre Mariana?

– Porra, que pergunta é essa? Como assim?

– Ah cara, vocês poderiam aproveitar que estão bêbados e tentar desenvolver a porra de um raciocínio. Isso ajudaria…

– Tá véio, o que você quer que eu diga? Quer que eu cante uma música deles?

– Você quer que nós cantemos pra você a capela? Que bizarro cara! – e caíram na gargalhada.

– Porra, tá difícil!! – desistiu Diabolô, virou mais uma dose de conhaque e foi encher outra.

– Só digo uma coisa pra vocês… – voltou já terminando mais um copo e com a garrafa na mão.

– Ih! Lá vem…

– Lá vem merda!!!

– Preciso ouvir esse som! Meus amigos, eis a fodástica “Deixe a Terra Em Paz!”

– Diabolô falava de uma música do último álbum de estúdio do Cólera antes da morte precoce de Redson (fundador, guitarrista e vocalista da banda):

 

Bicho gente está doente

Mata o mundo, mata gente

Parem as guerras

Deixe a Terra em paz!

 

– Cara, esse álbum é muito foda… é nesse aí que tem “De ET pra ET”?

– É esse mesmo. Pera aí, já vou colocar essa… – disse Diabolô.

– Eu não sei o que o Redson diria pra Mariana. Mas pro povo de Mariana ele diria isso: Forte e grande é você! – e os amigos repetiram várias vezes essa parte da música.

Depois de um tempo, Diabolô olhou os amigos e deu seu clássico sorriso embriagado. Parou em frente aos dois que estavam escorados no balcão e disse:

– Terminem de tomar esses copos e vazem que eu vou fechar o bar.

– Ah, você tá de brincadeira, né?

– Porra! Sério?

Mesmo com a indignação dos fregueses, completou:

– É isso mesmo, virem logo esses copos ae…

Os rapazes viraram seus goles. Diabolô fechou o bar. Colocou o vinil no encarte. Desligou o som…

Quando estava pra apagar as luzes, olhou pro seu telefone e lembrou da “tele mensagem”:

“Foi um bom trote” – pensou.

Guardou o dinheiro dos amigos de Mariana e sorriu! Deu mais um gole de conhaque e foi descansar. “Forte e grande é você… forte e grande é você” – cantarolou em direção ao seu repouso.

 

*Nota do Autor: o álbum “Deixe a Terra em Paz” não foi lançado em vinil. Pelo menos eu nunca vi ou ouvi falar. A utilização dele na vitrola do Diabolô faz parte da obra de ficção.

 

Diabolô é um velho conhecido da coluna LP (link 1 e 2).

 

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