LP crônicas musicais | Você se foi, mas triste não fiquei

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“É certo o amor imaginar?”, pergunta Otto, em seu novo álbum de inéditas chamado “Ottomatopeia”. Ele mesmo responde, em outra música do mesmo disco: “a dúvida não esclarece nada!”.

Confuso, sim! Mas só o tema, pois o novo trabalho do artista pernambucano usa da dúvida, da imaginação, do amor, como ferramenta pra um álbum certeiro; no padrão Otto de qualidade. Escute o disco aqui.

Dos considerados inovadores da Música Popular Brasileira, Otto se destaca pela capacidade de navegar entre o brega, o pop, o rock e, principalmente, pela brasilidade que transcende qualquer rótulo.

Dengue e Pupilo (Nação Zumbi) e Bactéria (ex-Mundo Livre S/A) assinam as parcerias, dando a famosa característica mangue beat. Aquela coisa da percussão e efeitos eletrônicos. É a mistura do primitivo com o moderno, uma das marcas dos ‘beats recifenses’.

Porém eu só escrevo isso aqui porque uma música me chamou bastante a atenção. Seu nome: “Meu dengo”. Eu carinhosamente modifiquei-a para “Meu dente”.

“Meu dengo” ou “meu dente” é uma composição da Roberta Miranda, que canta nessa nova versão como convidada. Essa música ficou na minha mente durante um momento muito tenso.

A história é a seguinte:

Depois de 17 anos perdi meu pivô, em definitivo. Sim, estou falando do meu dente frontal.

Não quero que se associe o disco novo do Otto com música de consultório odontológico, até porque não sei se isso é ponto positivo ou negativo. Mas essa parceria com a Roberta Miranda pariu esse “lindo” relato de “dor e sofrimento”.

Eu não sei o motivo, mas anestesia após anestesia, eu só lembrava da porra dessa música enquanto estava numa cadeira de dentista. Sugador na garganta. Luz no meio da cara. Barulho de broca. Mas… na minha cabeça era só “ai ai ai.. ui ui ui… vem cá meu dente”… e por aí vai…

Foi algo muito louco. Não é agradável ter alguém (no caso uma dentista) pendurada na sua cabeça fazendo um buraco no seu osso frontal pra parafusar um pino que será responsável por receber um novo dente.

Além disso, tem o trauma. A lembrança do fatídico dia do acidente que originou esse implante!

Lá estava eu, jogando futsal profissional, quando, ao subir pra cabecear uma bola, me choquei com o goleiro e apaguei. Que pancada! Só me recordo, ao acordar, da inesquecível sensação de passar a língua entre os dentes da frente e perceber que eles não estavam lá. Aquilo foi desesperador. “Fiquei banguela” – pensei na hora. E eu realmente estava.

Mas, entre sangue e dente reimplantado, sobrevivi. Foram nove pontos na cabeça, meio dente quebrado do lado esquerdo e um dente inteiro que voou da minha boca quando caí de cara no chão – o pivô direito.

Agora estou aqui com pontos na boca. Depois de horas numa cadeira de dentista. Com aquele parafuso fincado no osso. Primeiro o provisório para depois o implante do dente definitivo. Isso daqui alguns meses.

O fato é que perder um dente é algo diferente. Você fica imaginando que ele vai ficar ali pra sempre. O que não é verdade.

Lógico, seu dente não chega do nada e diz que vai embora. Não! É um processo demorado. É uma cansativa desestruturação, uma necrose, que merece todo o cuidado e respeito. Um rompimento literalmente na raiz, pois chega o momento que o corpo rejeita o dente e o manda embora… ele perde a força, fica sem vitamina.

É inevitável o corpo rejeitá-lo, faz parte do processo que termina agora com esse implante. E na minha cabeça só vem aquela danada daquela música…

“Vem cá, meu dengo

Ai! Ai! Ai! Ai! Ai!

Vem me fazer chamego

Ai! Ui! Ui!

Teu cheiro me enlouquece muito mais

Faz comigo

Ai! Ai! Ai! Ai! Ai!”…

Mas no meu caso… o dengo foi substituído por dente… e a música passou a fazer todo o sentido! Fez com que eu suportasse, com bom humor, toda uma tortura medieval em pleno 2017.

“O que entra por dentro e não sai

O que bole, remexe e quer mais

É o sangue que salta da veia

É o fogo do amor que incendeia

Vem cá, meu ‘dente’

Ai! Ui! Ui! Ai! Ai! Ai!”.

 

Por Regis Luís Cardoso
Fotografia : Kenza Said

LP – crônicas musicais
Terra Sem Males

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