Lula, Fidel, Moro e as versões

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Por Manoel Ramires
Terra Sem Males
 
De fato, o fato é o que menos importa em nossa contemporaneidade. Vivemos de opinar e interpretar o mundo conforme nosso gosto e desgosto, fugindo de ponderações isentas. Estamos na era das versões sobre aquilo que temos aversão, da defesa do não recomendado, do ataque ao indefeso. Sendo assim, ganha quem tiver mais poder de barganha. É o estatuto da pós-verdade.
 
E o fato da semana é: o Palmeiras ganha mais um título nacional. Para seus torcedores, o nono em sua história. Os palestrinos incluem torneios e copas que foram reconhecidos pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Fato é que adversários debocham da contagem, citando que nem todos os clubes participaram dessas copas, inclusive questionando o duplo título em 1967. De fato, treplicam os palmeirenses, que os campeonatos mudaram seu formato e modelo ao longo de décadas e que isso não apaga uma história de conquistas. Assim como não retira das mãos do palmeirenses a suspeita de que em alguns jogos o alviverde foi beneficiado. Na conta final, isso é mais uma versão de quem não conseguiu superar em pontos o novo campeão.
 
A quantidade de números e a escolha das palavras não pertencem apenas ao futebol. Elas ganham ápice na política, quando cada fato ganha explicação conforme o interesse de quem o expõe. É um verdadeiro truco onde se dá bem quem tem mais capacidade de blefar enquanto as cartas não estão à amostra. Esse é o caso da queda do ministro Geddel Vieira. Ele armou a cama de gato para Marcelo Calero, ex-ministro da Cultura, que cobriu o pica fumo do baiano e seu espigão em Salvador. Temer até que tentou amarrar o jogo, uma vez que a sua parceira, a grande mídia, tratou o tráfico de influência apenas como um blefe e não como o que de fato era: que Geddel tinha feito maço e olhado a última carta do monte. Todavia, Calero foi pra mão de três, chamou seis e Geddel não aguentou quando algumas cartas foram colocadas na mesa no depoimento à Polícia Federal. O fato é: Geddel usou seu cargo para influenciar em negócios particulares. Também é fato que Michel Temer sabia e agora tenta dizer que não é bem assim, que eram interesses republicanos que mediava. Aceita o argumento quem quiser.
 
Novos fatos na semana que se passou também mostraram que apenas convicção não é suficiente para condenar ninguém. Quer dizer, a “intuição” tem condenado muita gente e honra por aí, mas não tem tido força para colocar atrás das grades o grande alvo da Operação Lava Jato. E convicção por convicção, acredito que se Lula estivesse preso, o juiz Sérgio Moro encerraria os trabalhos em dezembro, como pretendia em abril de 2016. Contudo, a semana foi trágica para o príncipe da República de Curitiba. Sorte sua que o fato foi minimizado pela imprensa brasileira. Mesmo assim, Moro teve que engolir em onze depoimentos de acusação de que o ex-presidente não é dono de tríplex ou sequer foi envolvido com provas na corrupção na Petrobras. De empreiteiro a ex-político, ninguém sustentou a tese do Ministério Público Federal de que Lula era o grão mestre da corrupção no Brasil.
 
Por outro lado, novos fatos confirmam o envolvimento de tucanos. O “santo”, que sempre foi Geraldo Alckmin, enfim ganha sua oferenda no listão da Odebrecht. Outro homenageado, como não podia faltar, é Aécio Neves. Aquele que recebia propina – de acordo com a Odebrecht – via seu publicitário de campanha. De fato, é curioso como o mineiro está em diversas linhas de investigação, mas até hoje não prestou um único depoimento.
 
Longe do Brasil, mas com elo próximo, o falecimento de Fidel Castro aos 90 anos é onde podemos ver o fato sendo retorcido conforme a versão muda de boca. Para a esquerda, um líder revolucionário; para a direita, um ditador. Para imprensa mundial, o presidente que atravessou presidentes americanos, embargo econômico, guerra fria, zerando analfabetismo, exportando médicos e curando câncer, para a imprensa brasileira, um líder sanguinário, responsável pela morte de milhares e perseguição de inimigos. Imprensa essa que, curiosamente, não condena democracias quando essas explodem bombas atômicas, patrocinam golpes armados ou jurídicos, quando criam prisões como Guantánamo ou são adeptos do terrorismo de Estado. O fato é: de um lado ao outro, a humanidade deve sempre se adaptar aos interesses de uma sociedade.
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