Marcha das mulheres reúne mais de cinco mil e entra para a história de Curitiba

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Por Mariana Franco Ramos
Terra Sem Males

 

Histórico. Mais de cinco mil pessoas se reuniram ontem na marcha mundial do 8 de março, Dia Internacional de Luta das Mulheres, em Curitiba, para dizer não à violência, ao machismo e ao retrocesso na garantia de direitos. O ato unificado começou por volta das 17 horas, na Praça Santos Andrade, no centro, de onde as participantes seguiram até a Boca Maldita, fazendo sete paradas. Em cada uma delas, representantes de movimentos feministas diversos, como negras, LBTIs e secundaristas, pegaram os microfones e se posicionaram sobre assuntos que vão desde a baixa representatividade em espaços políticos, até o racismo, passando pela negligência institucional.

A mobilização fez parte de uma greve mundial e militante, que tomou corpo após ativistas norte-americanas como Angela Davis e Nancy Fraser publicarem um manifesto no jornal “The Guardian” denunciando a violência masculina e pedindo respeito aos direitos sexuais e reprodutivos. Com dizeres como “Se nosso trabalho não vale, produzam sem nós”, o texto defendia que a marcha contra o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, realizada em 21 de janeiro, em Washington, reunindo mais de 500 mil, fosse apenas o início de uma nova onda pela igualdade de gênero.

No Brasil, o momento atual, pós-impeachment, ou golpe, da primeira presidenta eleita, Dilma Rousseff (PT), e de crise econômica, acabou conferindo um contorno político às ações. Questões como as reformas da previdência e do ensino médio e a extinção da secretaria extraordinária da mulher de Curitiba, pelo prefeito Rafael Greca (PMN), foram lembradas. Do alto do caminhão de som, era possível ouvir os gritos de “fora Temer”, “fora Greca” e “fora Richa”, além de outros tradicionais dos movimentos de mulheres, como “se cuida seu machista, a América Latina vai ser toda feminista” e “companheira me ajuda, que eu não posso andar só. Eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor’.

 

Depoimentos: a marcha pelas mulheres

“As mulheres e o movimento feminista têm sido a linha de frente na resistência contra o avanço das políticas conservadoras. No Brasil, emergiu a Primavera Feminista em 2015 contra o PL 5069 e o Cunha. Na Argentina, as mulheres se levantaram por #NiUnaMenos. Na Polônia, uma greve de mulheres parou o país contra a lei que bane o aborto. Na terra do Tio Sam, as mulheres realizaram uma grande marcha contra Trump e suas políticas misóginas e xenofóbicas. E, na ‘República de Curitiba’, mostramos a força das mulheres que lutam e sonham com um outro mundo, livre do machismo e do patriarcado. Um ato unificado, composto por diversas mulheres, trabalhadoras, jovens, secundaristas, estudantes, trans, lésbicas, bissexuais, negras, cis, todas juntas numa só voz: não aceitaremos nem uma a menos! Aposentadoria fica, Temer sai!”

Larissa Rahmeier do Movimento RUA – Juventude Anticapitalista

“O ato foi um dos maiores e mais bonitos já registrados na capital paranaense. Foi lindo encontrar companheiras militantes, colegas de profissão, e ver estudantes, integrantes de partidos políticos diversos e participantes dos diferentes movimentos unidas em torno de uma só causa. Apesar de não conseguir parar por completo na data, dei um jeito de sair mais cedo do trabalho para acompanhar a movimentação.As redações dos veículos de comunicação, sejam eles da mídia hegemônica ou independente, reproduzem muito do machismo que vivenciamos todos os dias nas ruas. Somos maioria nas rádios, televisões e jornais, mas ainda vemos mais homens exercendo cargos de chefia, ocupando espaços nos conselhos editoriais, dando opinião em colunas ou blogs de destaque ou sendo ouvidos como fonte de informação. Como resultado, percebemos uma série de reportagens que culpabilizam as vítimas, que romantizam a violência, chamando feminicídio de crime passional, por exemplo, e que alimentam a cultura do estupro. Acreditamos, no Nísia e no SindijorPR, que a comunicação é sim um direito humano e que, juntas e juntos, podemos mudar essa realidade”.

Mariana Franco Ramos, jornalista, membro do Coletivo de Jornalistas Feministas Nísia Floresta e diretora do Sindicado dos Jornalistas Profissionais do Paraná (SindijorPR)

“Podia ser somente uma coisa de feminista, mas foi muito mais. Podia ser somente coisa de jovem empolgada, mas foi além. Podia ser somente coisa de militante de esquerda, mas foi ainda maior. A pluralidade marcou a Marcha. Além das já lutadoras cotidianas da pauta das mulheres, era possível ver famílias inteiras, grupos de estudantes, grupos de idosas, mulheres que chegavam sozinhas, mulheres que quebravam seus próprios preconceitos. Vendo a multidão que crescia, eu por vezes duvidava estar em Curitiba, uma capital tão conservadora, parando o trânsito em horário de rush pra gritar “Chega!”. Todas tão diferentes, mas tão iguais no desejo de que não aceitamos mais o silêncio e as agressões, que não aceitaremos nenhum direito a menos, de que não aceitamos mais morrer pelas mãos do patriarcado. Foi lindo, emocionante, histórico e, sobretudo, inspirador. Vamos pra cima, mulherada!”

Waleiska Fernandes, jornalista e militante da #partidA Curitiba

 

“O 8 de março em Curitiba deste ano foi extremamente lindo, representativo, com diversas vozes. Era uma emoção diferente a cada ato (foram 7). É impressionante como quando temos a unidade na esquerda conseguimos fazer algo fantástico. Foram várias mulheres de várias organizações. Tivemos cerca de 15 encontros para organizar o evento.
Na data conseguimos cumprir o objetivo de ocupar as ruas de uma das cidades mais fascistas do Brasil em milhares e dar visibilidade à nossa luta. Assim como ocupamos o INSS durante a tarde contra a reforma previdenciária que nos atinge muito mais do que os homens.
No 08 deixamos claro para o mundo que não queremos mais viver em uma sociedade que nos mata, espanca e estupra todos os dias. Uma sociedade patriarcal, machista, racista e lbtifóbica. Queremos respeito e direitos. Queremos o mínimo: termos o poder sobre nossos corpos. Essa luta é internacional. Que no próximo ano tenhamos ainda mais cidades do país com atividades. Só iremos parar quando tivermos nem uma a menos.”

Ana Spreizner, do movimento CWB Resiste
“A construção desse 8 de março foi histórica e só poderia dar neste resultado, cinco mil mulheres nas ruas. O oito de março mais bonito que Curitiba já viu, foram mais de 40 movimentos de mulheres e feministas em uma unidade que só as mulheres são capazes de fazer. Desde o período pré golpe, as manifestações de rua têm sido lideradas pelas mulheres, contra o PL5069, contra os retrocessos da bancada evangélica, assim como as agendas contra o golpe. Na primavera do ano passado as secundaristas foram as lideranças nas ocupações estudantis. O sentimento de ontem foi de orgulho dessas guerreiras todas, dos movimentos mais antigos a coletivos universitários e secundaristas, principalmente da nossa capacidade de deixar as diferenças de lado e construir a marcha mais bonita que Curitiba já viu. Se cuida seu machista a América Latina vai ser toda feminista!”

Anaterra Viana, jornalista, membro do Fórum Popular de Mulheres  e dá Secretaria Geral do Conselho dos Direitos da Mulher de Curitiba

 

Foto: Leandro Taques

Edição: Paula Zarth Padilha

 

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