Marielle virou semente de resistência contra as opressões

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O Brasil amanheceu tomado pela comoção com a morte, no Rio de Janeiro, da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes, na noite de quarta-feira, 14 de março. Defensora dos direitos humanos dentro das favelas cariocas, Marielle utilizava sua representatividade na bancada da Câmara Municipal para reivindicar a existência de todas as pessoas atingidas pelo recorte de classe social, de gênero, de raça, da diversidade. Pois Marielle era tudo isso: mulher, negra, nascida em uma das favelas do complexo da Maré, mãe, mulher LBT.

O carro em que ela estava foi alvejado por nove tiros. Marielle foi atingida no rosto por ao menos quatro deles. Foi executada. Anderson foi alvejado por estar na diagonal de onde ela estava. Nada foi levado, na outra diagonal do carro sua assessora sobreviveu sem ser atingida pelas balas.

Essa narrativa da execução ao longo do dia mobilizou muita gente pelo país. Muita gente que foi para a rua reverberar as lutas de Marielle: que as vidas negras importam, que machistas, racistas e fascistas não passarão. Por muita gente que até então não tinha se dado conta que a intervenção militar no Rio de Janeiro trouxe mais violência. E mais medo.

Marielle denunciava o medo como porta voz dos moradores das favelas. Ela foi nomeada relatora para acompanhar a intervenção militar pela Câmara Municipal. Três dias antes de ser executada, Marielle denunciou ações violentas de militares contra moradores do Acari. E é nesse contexto que ela foi morta. E que o medo, que era sentido lá nas favelas, se espalhou pelo país. Mas esse medo ricocheteou no silenciamento de todos nós.

Entre as centenas e milhares de pessoas que foram às ruas, em diversas cidades do país, em vigília, em memória dessas duas mortes, eu estava lá. E vi muitas famílias, muitas mães com seus filhos nos braços, muitos homens, muitas mulheres, muitos casais homoafetivos, algumas lideranças compondo essa multidão. Mas o ato político não teve bandeiras. Foi construído com velas acesas, flores, cartazes de protesto e punhos cerrados.

Marielle virou semente. Germinando a resistência. Porque ninguém quer sentir medo. Nem a dor. Porque ela foi executada com tiros na cabeça. E não foi calada. Ela vive, a partir de agora, em cada um de nós. E a semente da defesa dos direitos humanos se tornou um grande ato de solidariedade. Marielle, presente. Anderson, presente.

Por Paula Zarth Padilha, da Praça Santos Andrade, escadarias do prédio histórico da UFPR, Curitiba.
Fotos: Gibran Mendes/Porém.net
Terra Sem Males

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