MARIELLE VIVE!

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Marielle é gigante. Assim, no presente – mesmo tendo sido executada na noite de 14 de março de 2018. Gigante porque é mulher negra que move estruturas – mesmo não estando mais presente fisicamente entre nós. Ontem, 20 de março, quando completou uma semana de sua morte e da morte de Anderson Pedro, milhares de pessoas foram às ruas: no Rio, em São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, João Pessoa, Salvador, entre muitas outras.

Em Curitiba, nos reunimos novamente na Praça Santos Andrade, palco tradicional de muitas manifestações. Um pouco antes das 19h, horário marcado para o ato “Marielle Vive” começar, uma chuva torrencial caiu sob a cidade. Era como se o céu desse um sinal dizendo que também lamentava a perda dessa voz negra, feminista, favelada, bissexual, socialista, filiada ao PSOL, que lutava pelos direitos humanos, que era contra a intervenção militar.

Mesmo tendo início dentro do hall da Universidade Federal do Paraná já que estávamos em um número reduzido de pessoas, a manifestação logo foi para frente das escadarias da UFPR. “Se é na rua que nos matam, é na rua que vão ouvir nossa dor, a nossa voz”, disse o movimento negro.

As falas aconteceram então sob uma garoa fina. Nas falas, a dor de quem compartilhava partido, de movimento, de quem é LGBT – a companheira de Marielle foi invisibilizada durante muitos dias na narrativa midiática. Nas falas, a dores de quem é negra e negro e que está faz muito tendo seu direito à segurança violado. Vivemos em um país onde as mulheres negras são as que mais sofrem, as que mais morrem e perdem os seus, as que ganham pior. Uma companheira com a voz entrecortada pela emoção e com lágrimas nos olhos gritou : “Vidas Negras Importam”. Foi amparada depois.

Por que a morte de Marielle comove?

A morte brutal de Marielle Franco comoveu a milhares de pessoas no Brasil e no Mundo. Vereadora eleita pelo PSOL e a quinta mais votada da cidade do Rio de Janeiro, Marielle recebeu homenagens de movimento feminista “Por todas nós” em Portugal, de Katy Perry no show pelo Brasil, de Viola Davis. Foi notícia também no New York Times.

A repercussão internacional da morte da Mari, me lembrou muito quando Malala, a menina paquistanesa que lutava pela educação das mulheres em seu país, recebeu três tiros de um homem quando voltava da escola. Uma execução, assim como Marielle. Malala, contudo, sobreviveu.

Marielle não. Marielle sequer teve chance. Quiseram que ela se calasse. E por um momento realmente todos nós ficamos calados, sem reação, sem ar, sem saber para onde ir. Mas mesmo na dor, entre lágrimas, é preciso dizer que os tiros não foram capazes de calar a voz e o sonho de Marielle. Porque Marielle é semente. Como disse o pastor Henrique Viera no ato do Rio de Janeiro, “os negros não vão mais voltar para a senzala, as LGBTs não vai mais voltar para o armário, as mulheres não vão mais voltar para a submissão.” Queremos um mundo em que acabará o genocídio da população negra e pobre, um mundo que as mulheres vencerão o machismo e um mundo onde é justo e bom toda a forma de amor.

A morte de Marielle emociona porque de muitas formas e maneiras nos reconhecemos em Marielle, no projeto político que ela acreditava e nas causas ela defendia. Nos sentimos próximas mesmo morando a muitos quilômetros de distância porque aquele sorriso era imenso – até mesmo nas dificuldades. Marielle sabia endurecer sem que perder a ternura. Sabia acolher e impulsionar.

Precisamos falar de Marielle

Cria da Maré, Marielle fez curso preparatório pré-vestibular popular e passou em Ciências Sociais na PUC-RJ, universidade que cursou com bolsa integral. Depois, se tornou mestre em Administração Pública, pela Universidade Federal Fluminense, com a dissertação “UPP: a redução da favela a três letras”.

O cursinho e a morte de uma amiga, vítima bala perdida em um troca de tiros com polícia e traficantes no Complexo da Maré, fez com que ela começasse a militar na pauta de Direitos Humanos. Durante sua trajetória, trabalhou em organizações da sociedade civil como a Brasil Foundation e o Centro de Ações Solidárias da Maré (CEASM). Coordenou a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (ALERJ), ao lado de Marcelo Freixo (PSOL/RJ).

Foi mãe aos 19 anos de uma menina – fato que se em um primeiro momento a colocou nas estatísticas de mãe jovem e solteira, ajudou a se construir ao longo do tempo como lutadora pelos direitos das mulheres e debater esse tema nas favelas.

Marielle acreditava que era preciso ocupar a política para que as desigualdades que nos rodeiam diminuísse. E Marielle acreditava porque sabia que quando ocupamos os espaços movemos as estruturas da sociedade. Claro que sabemos que, como ela mesma dizia, “a vida é dura bebê. A vida é dura”. Sabemos que nem sempre vai ser fácil, que muitas vezes vão querer roubar a nossa voz e nosso protagonismo na história. Entretanto luto também é verbo e continuaremos por Marielle porque Nós que somos porque ela é.

Texto e fotos por Annelize Tozetto, fotojornalista e especialista em jornalismo literário. Faz parte do Coletivo de Jornalistas Nísia Floresta, colabora com a Revista Vírus e é integrante do Terra Sem Males.

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