Mate, café e letras | Crônica sobre terrenos vazios

Colabore com o jornalismo independente, compartilhe.

O mar de capacetes da PM despejou três mil famílias, no mês de novembro de 2008, na região sul da capital. Nove anos depois, o gado pasta tranquilamente no terreno

Por Pedro Carrano

Eu não sei quanto a vocês, mas a mim me dói e ofende cada terreno abandonado que vejo no caminho do centro até o bairro.

Cada espaço vazio me lembra que há certamente milhares de pessoas, apenas em Curitiba, precisando de moradia digna, e o número de imóveis destinados à especulação imobiliária está na mesma quantia, isso apenas na região central, na chamada “cidade A”, anterior à fronteira da Linha Verde.
Do outro lado dessa fronteira invisível, fica o lugar de fala sem fala e dormitório precário reservado para a maioria das famílias.

Cada espaço de muros quebrados, mato alto e alguns grafites borrados é a vitória visível do valor de troca sobre a necessidade das pessoas e o valor de uso. É o gol de placa da especulação imobiliária e financeira em cima da função social da propriedade. É o drible de nossa condição dependente, no país onde os salários mal alcançam para custear necessidades básicas, caso da moradia. É a manutenção do patamar de preço alto do aluguel, cão guloso devorando o salário.

Em alguns lugares sem história escrita, conhecemos as marcas do despojo. Do despejo. Ela pode ser individual e coletiva, como é o caso do terreno do Novo Mundo onde dona Enoeni foi despejada a mando da prefeitura de Rafael Greca, mandato ainda da sua primeira gestão, executado pelo ex-prefeito e “doutô” Luciano Ducci, em 2012.

Ou quando o mar de capacetes e cacetetes da PM despejou com violência seis mil pessoas, no dia 23 de outubro de 2008, na rua João Dembinski, no bairro do Fazendinha, na região sul da república de Curitiba. Passei, no dia em que finalizo esta crônica, na frente do terreno e me deparei com um gado simpático pastando, no lugar onde, nove anos depois, nada foi feito e a “propriedade” tão reivindicada nos discursos, não foi transformada em coisa nenhuma.

Se a exploração do local de trabalho muitas vezes se camufla, invisível, o imóvel abandonado é a cara aparente e feia do despojo da propriedade privada e do capital.

Sim haveria lugar para todo mundo nesse mundão incrível, mas o espaço é de bem poucos e isso delimita a vida.

Confira vídeo feito na época do despejo da ocupação do Fazendinha

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *