Mate, café e letras | Histórias curtas, por Pedro Carrano

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pro José “Gancho” Maschio

Ultimamente, ando arriscando a escrita de contos curtos, uma cultura que tem no escritor da Guatemala, Augusto Monterroso, um mestre (“Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”).

Esse formato traz o desafio de impactar o leitor logo no primeiro round, mas sempre traz também o risco de cair na superficialidade e consumo rápido dos dias atuais. Até, por isso, é desafiador. Copio alguns textos recentes abaixo:

Caroço
As duas amigas foram visitar a aldeia Araçaí. Era um final de semana e, enquanto uma delas tinha apenas a curiosidade de estar naquela área de preservação e verde imenso, a outra amiga estudava na academia a cultura e o idioma guarani. Era ela mesma quem apresentava cada detalhe daquele ambiente conhecido e já pesquisado para a outra, até que sentiu de repente que falava sozinha. Olhou pro lado e a outra visitante, impactada, havia se transformado em flor, logo depois em fruto, até virar um caroço de fruto que penetrou a terra e de lá nunca mais, nunca mais, conseguiria se livrar ou cortar a raiz que crescia.

Medidas
João cego contava que sentia melhor o espaço da casa nos dias de tempestade colorindo os telhados. Mas preferia mesmo sair caminhando e se lançar na chuva, pra sentir melhor a dimensão do mundo.

Natal
Ramon velho. Velho e chato. Chato e solitário. Ramon dedicado à mecânica, na verdade ao Lava Car. Ficou chateado no dia 23. Percebeu que a véspera de Natal chegando. Não insistia pra seguir trabalhando. Ninguém nem deixava os carros nessa época. Ramon puto. Amigos longe. Alguns mortos, apesar de perto. Ao redor do bairro tudo vazio, fechado. Ramon sem parentes. Churrasco e cerveja só nas garagens pequenas, momento família dos donos de boteco, mas daí é foda aparecer no meio. Ramon de cara. Tenta algum contato. Mensagens nas listas de zap. Sem resposta. Ramon posta no facebook. Ramon tirando sarro. Nenhuma reação, poucos likes. Noite e virada pro 25 quase chegando, algumas luzes acesas no conjunto de Ramon, a televisão mais chata que nunca. O velho toma uma atitude. Entorna o vinho, coloca o capuz de Papai Noel, presente de amigo secreto. Ramon, com a sua barba, vai pra rua, atravessa a rápida do Portão, rumo ao bairro, desejando Feliz Natal pra todo mundo. Em pouco tempo, recebe atenção. Buzinaços. Alguns param. “Olha o Papai Noel de verdade!”. Brincam com Ramon. Xingam Ramon. Mandam Ramon praquele lugar. Jogam dinheiro. Alguns trocados. Um real no máximo. No próximo posto 24h vale algo. Passa pelo Pinheirinho. Passa por um samba na calçada de uma casa. Entra no rebolado. Outros param e oferecem um trago. Fazem uma selfie com o Papai Noel sem camisa. Ramon curte, aproveita, barba longa e branca, se diverte, Ramon existe, faz discurso empolado de Natal, entorna mais cerveja e a certa altura da avenida Ramon se desconcerta, é surpreendido por uma criança, numa das esquinas, sorriso sincero, o sorriso onde caberia o mundo das expectativas. Ramon puxado pelo bolso da bermuda: “E aí, Papal Noel, o senhor trouxe o meu pedido?”.

Por Pedro Carrano
Foto: Gibran Mendes
Terra Sem Males

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