MST inaugura em Curitiba centro de formação e cultura na Vigília Lula Livre

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Espaço batizado em homenagem a Marielle Franco, vereadora assassinada há seis meses no Rio de Janeiro, oferece alojamento, alimentação e cursos para militantes

Os atos diários de resistência contra a prisão do ex-presidente Lula com a Vigília Lula Livre, que completa nesta terça-feira, 25 de setembro, 172 dias, ganharam uma adesão de fôlego: o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), numa parceria com o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, instalou ao lado da vigília um espaço para cursos de formação itinerantes do movimento.

O Espaço “Marielle Vive!”, de formação e cultura foi inaugurado no dia 04 de setembro, com a presença dos pais de Marielle, para realização de atividades paralelas à Vigília Lula Livre, que tem horário para começar e para terminar, com exibição de filmes e debates, o Cine Lula Livre, que já foi realizado duas noites de sextas-feiras: primeiro com o lançamento de “Dedo na Ferida”, com a presença do cineasta Silvio Tendler, e depois com o lançamento do documentário “Agrofloresta é mais”, que conta a experiência do acampamento José Lutzenberg, de Antonina, litoral do Paraná, e também teve a presença do diretor Beto Novaes, professor da UFRJ.

As exibições noturnas estão suspensas nas últimas duas semanas, pois o espaço Marielle hospeda desde 11 de setembro o “Curso básico de Formação de Militantes Lula Livre – Região Sul”, ofertado pelo MST aos novos acampados nas ocupações de terra do movimento. São 64 trabalhadores sem-terra que estão em imersão para aprender teorias sobre gênero, consciência de classe, política, enfrentamento ao capitalismo, mobilização, agroecologia. As aulas são ministradas por professores parceiros da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF).

“Como este curso, de formação de base da militância, temos outras cinco turmas que acontecem em nível nacional. Escolhemos Curitiba por estar num momento de luta, de enfrentamento, e a Vigília nos permite combinar aqui a formação com o momento de luta, de solidariedade ao companheiro Lula”, contextualiza Geraldo Gasparin, da coordenação nacional do MST e professor da ENFF, que está em Curitiba para dar aulas de “Processos de formação de consciência”.

A aula de segunda-feira, 23 de setembro, reuniu homens e mulheres, de diferentes idades, de acampamentos e assentamentos dos três estados do Sul, a maioria localizados aqui no Paraná, para falar sobre gênero, feminismo, machismo e as interfaces desses temas nos aspectos políticos dentro do movimento e religiosos, que afetam a rotina dos camponeses.

A professora Rosmeri Witcel, também da ENFF e assentada no Rio Grande do Sul, esclarecia aos trabalhadores rurais que o feminismo é necessário no movimento, porque as feministas combatem situações de vida cotidiana que são impostas pelo sistema capitalista, que reconhece também a mulher como propriedade privada, assim como a terra, e que esse é o enfrentamento central do MST: contra a propriedade privada da terra.

“É importante falar que o movimento sem terra, desde que ele surge, uma das primeiras preocupações foi a formação política e ideológica. O curso traz a militância que assume coordenações e que precisa de elementos teóricos para tocar a luta e a prática lá no acampamento”, afirma Rosmeri.

“Chegou a primavera e estamos colorindo nossa revolução”

A manhã de segunda-feira, 23 de setembro, 171º dia de resistência da Vigília Lula Livre, atualmente instalada no terreno em frente à Sede da Polícia Federal, em Curitiba, onde o ex-presidente Lula é mantido preso desde 07 de abril, começou com sol forte.

Dentro do Espaço Marielle, os militantes, alunos do curso de formação, ensaiavam em coro a música que cantariam logo mais, numa curta marcha, até a Vigília, para o Bom Dia, Lula. Eles eram orientados por Priscila de Oliveira, jovem assentada em Arapongas, do setor de formação do MST, e por Marinho, acampado. Com voz de cantora, Priscila explicava que a música durante a marcha deveria ser entoada mais alta, para que Lula ouvisse. Durante o trajeto, o MST cantava “o povo chegou, força Lula, bom dia, presidente”. Já na Vigília, naquela manhã, foi explicado que a coordenação do dia era de responsabilidade do MST, do Bom Dia, passando pelo Boa Tarde, até o Boa Noite.

Uma mística foi realizada antes do “Bom Dia presidente Lula”, verbalizado diariamente 13 vezes pelos apoiadores de Lula, às 9h00 da manhã. Enquanto o MST cantava, uma longa faixa era torneada por tinta spray, com os dizeres “Trabalhador é Haddad”, uma referência ao candidato de Lula e do PT à presidência, levado à cabeça de chapa no último prazo definido pela justiça, quando Lula foi impedido de continuar sua campanha de dentro da prisão, de onde liderava todas as pesquisas.

Rosmeri, que logo mais assumiria o espinhoso debate sobre gênero no curso de formação, foi quem puxou o Bom Dia na Vigília. Fazendo uma alusão ao intenso inverno curitibano e à semana que finalmente esquentou, com o início da primavera, declarou: “Chegou a primavera e estamos colorindo nossa revolução”.

Às segundas-feiras também marcam o dia de visita do candidato Haddad ao ex-presidente Lula. Ele entra às 10h, sai 12h e fala com a imprensa local durante coletiva. E por isso, logo cedo, já haviam fotógrafos e repórteres cinematográficos por lá, que se tornaram uma multidão de jornalistas à espera de Haddad ao meio dia. Na coletiva do dia que o MST coordenou a Vigília, Haddad também anunciou o enfoque de seu programa de governo na alimentação saudável, com a proposta de ampliação do programa de aquisição de alimentos orgânicos da agricultura familiar para subsidiar as merendas escolares.

Doação de mudas de Araucárias

O MST compõe a organização e coordenação da Vigília desde seu início, junto a sindicatos de trabalhadores, centrais e outros movimentos sociais, como o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o Levante Popular da Juventude, artistas populares e partidos políticos de esquerda, que regularmente organizam caravanas para fortalecer a vigília em apoio à Lula.

O Movimento dos Sem-Terra inaugurou por lá o reflorestamento das margens de um rio, como forma de contrapartida à sociedade e de modificar o ambiente que ocupam desde 07 de abril. Com o Espaço Marielle Vive, foi instalado também um viveiro de araucárias, árvore-símbolo do Paraná, e uma muda foi plantada para cada dia de resistência. “Como já são 171 dias, agora paramos de plantar por lá, mas cada visitante que vem até a Vigília pode levar sua araucária e plantar onde quiser”, explica Adriana Oliveira, da coordenação estadual do MST.

As plantas e mudas são manuseadas por um militante, vestido com um colete vermelho das brigadas do MST e com imagem de Lula estampada. Para ele, cada araucária plantada, antes presa a um pequeno cone de lona, representa Lula Livre.

Neste local, ao lado da “sala de aula”, será forjada a imagem de Ernesto Che Guevara na noite da próxima quarta-feira, 26 de setembro, quando sua filha, Aleida Guevara, visita a Vigília Lula Livre, plantará uma araucária e participará desse ato simbólico no Espaço Marielle Vive.

Che terá sua imagem ao lado da de Marielle, de Marx, de Chaves e de outros símbolos de luta e resistência internacionalista e viverá num espaço de compartilhamento de lutas, de sonhos, de formação, música e de comida saudável para todos e todas que por lá circularem.

 

Por Paula Zarth Padilha, texto e foto
Acesse a edição completa no site da Federação dos Trabalhadores em Empresas de Crédito do Paraná

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