Nariz

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Por *Wilson Ramos Filho (Xixo)

Circula nas redes sociais informações sobre quem financiou o manifesto Juntos pela Democracia e pela Vida. Não me parece ser o mais relevante.

Eu torci o nariz quando vi o #juntos. Convidado, preferi não aderir. Mas no meu caso foi por birra. Se não aceito sequer integrar bancas compostas por outros examinadores que tenham apoiado o golpe ou compartilhar mesa em congressos jurídicos com professores que não escondem terem votado em Bolsonaro, não faria sentido me “juntar” a uma gente estranha em um manifesto que me pareceu vazio, genérico e sem plataforma. Foi por chatice minha, portanto.

Muitos camaradas aderiram. Compreendo as razões deles e delas. Admiro-lhes a capacidade de, ao invés de torcer, trancar o nariz aceitando ladear com muitos dos que apoiaram a LavaJato, destruíram os direitos sociais e contribuíram para a falência institucional. Digo isso sem qualquer ironia. Admiro-os, de verdade. Eu não consigo. Sou esquisito.

O assunto rendeu. Lula decidiu também não aderir. E foi muito criticado por certos segmentos sociais, inclusive por parte da esquerda. Teve a intuição de não embarcar no primeiro ônibus que passava. Sugeriu cautela. Os antipetistas se excitaram. Muitos desancaram a legenda e seu presidente de honra. Lembrei-me do conto de Gogol, O Nariz, que com vida própria palpiteia, em absurdo precursor do surrealismo, e resolvi dar meus pitacos.

Lula tinha informações sobre o que a iniciativa eventualmente esconde? Creio que não. Valeu-se de sua intuição. Esta, como se sabe, nada tem de sobrenatural. As intuições são racionais, muito embora muitas vezes não conseguimos explicá-las. Todos já passamos por situações em que intuímos algo e, depois, verificamos que escapamos de “roubadas”. Uma tia minha se referia a tais situações com um simplório “me apitou um negócio” para justificar sua escolha por fazer ou por deixar de fazer algo. Seguia seu faro (olha o nariz aí de novo).

Lula sempre foi intuitivo. Percebe cedo o que os outros tardam em identificar. Deve ter um apito como o da minha tia ou um olfato político mais apurado.

Não é o meu caso. Não aderi por birra, por chatice e porque sou esquisito.

Sigo defendendo o que denomino de “estratégia tandem”, aquela bicicleta para várias pessoas. Precisamos nos juntar, todos pedalando coordenadamente, para obtermos um melhor resultado no combate ao fascismo e à maneira bolsonara de existir em sociedade. Mas no meu tandem não cabe todo mundo.

No campinho de futebol perto de casa, na infância, bem que tentei me escalar para o meio-campo. Não me deixaram. Não tinha talento. Também não pude ser zagueiro, daqueles que despacham a bola para onde está virado o nariz. Restou-me a posição de atacante, camisa nove, nem sempre com razoável eficiência. Depois que a idade e os meniscos privaram o esporte bretão de minhas inconstâncias, nariz de folha, gogoliano, meto-me em debates como este sem a ele ter sido chamado, respeitando e louvando os esforços dos que fazem o necessário meio de campo. São fundamentais.

*Wilson Ramos Filho (Xixo), doutor em direito, professor na UFPR, pesquisador no Instituto Defesa da Classe Trabalhadora.

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