Narrativa de (mais uma) ocupação da Câmara

Compartilhe esta notícia.

A cidade amanheceu com a Câmara de Curitiba lotada de policiais no entorno desde a madrugada.

O comando da PM não divulgou números de início, mas o contingente policial alcançou centenas.

Servidores passaram a madrugada em vigília, apesar do frio, da umidade, do discurso oficial de que sindicalistas são burocratas ou privilegiados. Lá estavam eles novamente, mais uma vez.

Porém, pela manhã, ainda eram poucos servidores.

Tudo indicava então que a votação aconteceria mesmo às 9 horas, conforme a ordem do dia na Câmara, dentro do regime de urgência do pacote de ajuste fiscal imposto pelo prefeito Rafael Greca.

Esta crônica se refere aos incidentes do dia 20 de junho na Câmara de Curitiba. Não consegui publicá-la por falta de tempo. Mas o que era um esboço na verdade se reatualiza com a votação programada para a segunda-feira, 26 de junho. Tudo novo de novo, como diz uma música repetida no caminhão de som dos sindicatos.

Ainda no dia 20 passado, em pouco tempo, a praça Eufrásio Correia, em frente à Câmara, foi ganhando corpo.

Professoras, servidoras e coletes dos diferentes ramos do funcionalismo eram vistos por ali. Mais de 15 profissões e um funcionalismo de 30 mil servidores, que pagam a cota diária de sacrifício para a cidade, serão os primeiros impactados pelas medidas do dito “Plano de Recuperação de Curitiba”.

Revoltados com a situação, servidores se concentravam na frente das barreiras policiais, aos gritos de “retira, retira, retira o pacotaço!”. A sincronia era de uma torcida organizada. O número de pessoas juntas começava a impressionar.

Questionavam também por que estavam sendo recebidos desta maneira numa casa que, como se diz, é a “casa do povo”.

Com a experiência da aprovação na base do tratoraço, método inovador lançado por Beto Richa, no dia 29 de abril de 2015, servidores já não confiam e passam a pressionar os vereadores. A qualquer momento, sabem, eles podem tentar driblar a vigilância popular, esconder-se em algum anexo ou banheiro do prédio, e votar os quatro projetos do pacotaço.

Por volta das 10 horas, a massa de servidores concentrada na frente das escadarias da Câmara pressionou e ocupou a casa.

Uma tragédia poderia ter acontecido. Pelo menos três pessoas foram levadas de ambulância, com quatro feridos oficialmente, sem contar outros machucados com cacetadas, enforcamentos ou intoxicados pelo spray de pimenta.

Nas redes sociais e em alguns veículos de comunicação, prevalece a análise como se funcionalismo e prefeitura representassem forças que se equivalem. “Os dois não querem negociar”, dizem, ignorando que a primeira reunião da gestão com o sindicato municipal ocorreu no dia 28 de março. Um dia depois, o pacotaço era enviado à Câmara de Vereadores. Não houve tempo para qualquer debate a sério. Greca ainda disse um sonoro “não” a 162 pautas dos servidores – parte delas sem qualquer impacto econômico. O uso desmedido de força policial e a desconstrução na mídia dos servidores mostram que não é possível achar que se trata apenas de uma intransigência “dos dois lados”. Inclusive os servidores têm apresentado medidas alternativas para que terceirizadas, proprietários de imóveis abandonados e grandes empresas sejam taxados mais do que o trabalhador comum.

Voltando à memória do dia 20 de junho, o momento mais triste, na percepção deste narrador, foi quando, nas escadarias, na hora do almoço, a polícia forçou a saída dos manifestantes que se concentravam ali para acompanhar o desdobramento da ocupação.

Num jogo de empurra-empurra, uma guerra barulhenta e tensa de nervos, quando os manifestantes jogavam flores brancas e policiais, em gentil retribuição, borrifavam a espuma branca de pimenta nos olhos, a PM ganhou o cabo de guerra e servidores foram forçados escadaria abaixo. Jornalistas estavam no meio do fervo. Como já aconteceu no 29 de abril, sentindo a injustiça no lombo daquela gente e fazendo parte dela.

Poucos momentos conseguem essa unidade tão ampla, de sentido e empatia.

Algumas pessoas estavam no limite, do cansaço e da falta de respiração.

“Se vereadores tiverem bom senso, devolvem os projetos para o executivo”, criticou a professora Josete (PT), quem trocou farpas com o líder do prefeito na Câmara, Pier Petruziello. Ele estava visivelmente à beira do desespero. Um dos vereadores da oposição, por sua vez, estava alarmado com a obediência quase servil dos vereadores da situação.

Não havia bom senso, havia irritação, vereadores acuados e medrosos, irritados com cada declaração dos líderes sindicais sobre o óbvio: falta de diálogo, truculência, ausência de democracia.

No começo da tarde, a votação foi suspensa e será votada na segunda-feira, mas Greca e vereadores afirmam que também não será retirada da agenda da casa.

Estamos em uma espiral sem fim. Um impasse sério.

O prefeito já avisou que não volta atrás.

Dizem que traumas na vida têm que ser enfrentados. O dia 29 de abril talvez seja um desses que persiste na memória coletiva.

Porém, repetir aquele episódio vai ter consequências desastrosas.

Por Pedro Carrano
Foto: Manoel Ramires
Mate, café e letras – crônicas latinoamericanas
Terra Sem Males

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *