Natal kung fu não será na casa do Haddad

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Eu não sou o Slavoj Zizek, mas hoje vou citar o Kung Fu Panda. É que tem uma fala num dos filmes dele que é de grande sabedoria. Ou não, pode ser que seja só coisa da minha cabeça – da minha cabeça em ano de eleição, diga-se. Acontece assim: depois do panda com a voz daquele cara da Grande Família ficar dividido entre passar o natal entre o pai dele e uns caras bambas lá do kung fu, ele decide dar o bolo nos últimos, apesar de toda uma quebra de protocolo. Aí ele chega lá no restaurante do pai e o pai, depois de ter feito todo um drama ao ver que o filho realmente lhe daria o cano numa espécie de tradição familiar natalina, veio com uns papos na frequência “Pô, filhão, não queria que você ficasse mal”. Ou “Eu não queria te criar problemas lá com os hômi”, algo assim. “Não queria te ver constrangido”. E o que o Kung Fu Panda sabiamente responde? “Sossega, pai. Essa época é pra essas coisas mesmo”.

Moral da história: meio que não tem. É só uma constatação de que o natal, excluída a parte dos valores cristãos que realmente pregam a paz, a aceitação das diferenças e a caridade, tudo isso que todos os outros setores da vida em sociedade pregam ao contrário, enfim, o natal, mesmo, é pra sofrer. O natal como feriadão, é a ele que me refiro. É preciso dizer que brigas de família são realmente comuns nessa época, em diversas proporções. Pode parecer apenas uma piada ruim, mas é verdade que, no natal do país que desistiu de sediar a conferência da ONU sobre clima, sempre vai ter climão – se você for dizer isso durante a ceia, exijo ser citado como referência, aliás. Nós já estivemos nos acostumando. De qualquer maneira, convenhamos, existe a comida.

E é aí, falando em comida, que voltamos ao Kung Fu Panda. Zizek comparou Silvio Berlusconi a ele, em um de seus objetos paginados com letras impressas dentro, “Primeiro como tragédia, depois como farsa”. Esse título é uma interpretação marxista de uma ideia de Hegel, que diz mais ou menos que todos os grandes fatos e todos os grandes personagens da história mundial aparecem, ou são encenados, digamos, duas vezes. Isso de a história se repetir primeiro como tragédia, depois como farsa, caberia perfeitamente se vivêssemos numa sociedade que, sei lá, fosse governada (não literalmente, já que poucos sabem fazer isso) por um tipo míope (não no sentido ocular) que exalta períodos violentos da nossa trajetória (não só no sentido do tiro, porrada e bomba, mas também no da miséria e da invisibilidade social). Como quem diz que naquele tempo é que era bom, e tal. Seria necessário fazer um apelo bizarro à etimologia pra dizer que um sujeito assim na verdade não é fascista, ou que ele não é tão ruim assim, ou que é só marketing da parte dele: haveria que se contar com a vacuidade do indivíduo. No mais, sinto muito, a farsa pode ser PIOR do que a tragédia.

Mas, enfim, como não é esse o caso, e como divago, voltemos a Berlusconi e ao panda. Diz Zizek que, pra se entender o pseudo-rock star italiano sem banda e travestido de estadista que come meleca do nariz, haveria que se sacar algo sobre

(…) o talento de zombar estupidamente de si mesmo. Kung Fu Panda, o hit dos desenhos animados em 2008, dá as coordenadas básicas do funcionamento da ideologia contemporânea. O gordo panda sonha em se tornar um guerreiro sagrado do kung fu, quando, por pura sorte (atrás da qual, é claro, se esconde a mão do destino), é escolhido para ser o herói que salvará a cidade, é bem-sucedido… No entanto, no decorrer do filme, esse espiritualismo pseudo-oriental é minado o tempo todo por um senso de humor cínico e vulgar. A surpresa é que essa autozombaria contínua em nada interfere na eficiência do espiritualismo oriental; em última análise, o filme leva a sério o alvo das piadas intermináveis. O mesmo acontece numa das minhas anedotas prediletas sobre Niels Bohr: surpreso por ver uma ferradura pendurada na porta da casa de campo do físico, um colega cientista que o visitava exclamou que não compartilhava da crença supersticiosa de que as ferraduras afastavam os maus espíritos; Bohr retrucou: “Também não acredito. Deixo aí porque me disseram que funciona mesmo quando não acreditamos”. É assim que a ideologia funciona hoje: ninguém leva a sério a democracia ou a justiça, todos temos consciência de sua natureza corrupta, mas participamos delas, exibimos nossa crença nelas, porque supomos que funcionam mesmo quando não acreditamos nelas. É por isso que Berlusconi é nosso grande Kung Fu Panda. Talvez nesse caso a velha piada dos irmãos Marx (“Este homem parece um idiota corrupto, age como um idiota corrupto, mas não se engane: ele é um idiota corrupto”) atinja seu limite: embora Berlusconi seja o que parece, ainda assim essa aparência é enganosa.

Ora, eu tenho certeza de que já vi por aí outros caras assim. Como o Berlusconi, eu quero dizer. E olha só: o Zizek escreveu isso há mais de 10 anos. Como o feriadão do natal é pra sofrer, deixo vocês com essa pílula de sabedoria depressiva atualíssima, transcrita acima, mas que transcrevo de novo, porque, sádico, realmente quero que vocês leiam: “É assim que a ideologia funciona hoje: ninguém leva a sério a democracia ou a justiça, todos temos consciência de sua natureza corrupta, mas participamos delas, exibimos nossa crença nelas, porque supomos que funcionam mesmo quando não acreditamos nelas”.

Feliz natal.

Vou passar o feriado numa cidade em que 1.579% da população devem ter acreditado que certo candidato à presidência distribuía pras escolas de São Paulo mamadeiras com pinto no bocal. A uva passa na farofa não vai fazer nem cócega.

Por Bruno Brasil, jornalista curitibano radicado no Rio de Janeiro, escreve para o Terra Sem Males na coluna “entre aspas”
Foto: Joka Madruga

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