O BRANCO E O NEGRO DOS OLHOS – CHAJUL E COTZAL DEZ ANOS ATRÁS

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Abaixo, recolhi um trecho do livro “As Barricadas de Oaxaca”, que reúne meus diários de viagem, reportagens e apontamentos pela América Latina. O livro tem capítulos sobre a Assembleia Popular dos Povos de Oaxaca (México); minha experiência de cinco meses vivendo em Chiapas (também no México); um capítulo sobre as lutas nos Andes. Mas o trecho abaixo é do capítulo sobre a América Central. No chamado triângulo ixil, região da Guatemala quase na fronteira com Chiapas, o narrador traz o seu estranhamento ao se deparar com uma região de guerras, memória e cultura indígena.

10 de novembro de 2005 – Chajul (Guatemala).

Novos olhares curiosos pela manhã, crianças correndo nas ruas e gritando para esse ser singular que anda por aqui. Alguns arriscam palavras em inglês, a ver se me comovem. Enfrento calçadas íngremes, de pedra, terra e lodo, respondendo às perguntas das pessoas, incrédulas:

– Qué buscas?

– Nada, solo caminando.

As casas de barro e adobe, misturadas sempre de forma desordenada e caótica com materiais pré-fabricados, importados, talvez. Poucos telhados de zinco. As telhas de barro todas negras. No centro de tudo está a desconfiança de um povo que sofreu com as barbáries dos 36 anos de massacre contra os indígenas promovidos pelo sempre Estado. Nebaj, Chajul e Cotzal foram campos de extermínio. Os acordos de paz vão completar 10 anos, mas a mim me parece sintomático que as crianças sejam tão rudes com os estrangeiros. As mulheres, igual. Hoje caminhei tanto, até o ponto onde a água da montanha parece ser canalizada para a comunidade e enche um tanque coletivo para a lavagem de roupa – tanques coletivos, nas ruas, espaço tão comum na Guatemala. Perguntei às mulheres como funcionava o filtro, se a água vinha da montanha. Porém só recebi como resposta um: “- Quem lhe mandou aqui? Você trabalha com água?”, além, é claro, das tradicionais palavras no seu idioma e da ironia comigo. Mesmo assim, essa dura cinematografia de Chajul, esse pacto de silêncio das pessoas, aos poucos foi desaparecendo para mim. Pela manhã um casal me convidou para entrar na sua casa e conversar, espantadíssimos com esse sujeito que não casa e não trabalha e não ganha dinheiro; oferecem café, narram um pouco de sua vida, na sala de casa. De tarde um educador comunitário me interpelou e caímos numa conversa, rodeados de crianças com quem mais tarde jogamos futebol, dando passagem a uma senhora carregando lenhas ou às camponesas voltando a cavalo para a vila. Em Chajul até agora o jogo entre o viajante e a cidade/território não foi desvendado. Os vestidos das mulheres e suas cores não seguem um só padrão fixo. As portas das casas estão abertas, às vezes posso ouvir uma jovem cantando em ixil, às vezes uma senhora lavando seus longos cabelos, às vezes um porco dormindo distraidamente na varanda, meninas levando massa de milho na cabeça. Agora estou dormindo na casa de uma senhora de nome difícil. Seu marido “está levando a palavra de Jesus nosso senhor” a outras aldeias, como ela contou. Durmo no quarto do filho, na parte de fora, ele que há quatro anos está na capital. Estou junto com a criação de coelhos e as teias de aranhas. E a lâmina de som e de vento que passa no val da parede de madeira. A generosidade da senhora era “para mostrar que nós evangélicos ajudamos o outro”, ela me disse, ainda na estrada, quando topamos. Ainda por cima avisou para eu me cuidar dos bandidos. No final da noite, não se preocupou em conversar comigo. Eu apenas podia ver a fogueira acesa no centro da sua sala, no chão de terra, onde os meninos se amontoavam.

11 de novembro de 2005 – Cotzal.

San Juan Cotzal não tem a mesma uniformidade de Chajul, talvez não renderia um filme como as duas cidades anteriores. Callejear (caminhar) por aqui sempre pega as pessoas desprevenidas, uma vez que o seu espaço privado se estende também para o jardim da casa, aberto ao mundo. Antes de deixar a friorenta Chajul, sentado no pátio de uma associação agrícola, esperando o ônibus, presenciei mulheres com um balde de grãos de milho na cabeça e barganhando seu preço com o coiote (atravessador). Com o conteúdo de cada um dos baldes, ele enchia um saco maior que deve ser levado ao mercado. As mulheres queriam vender seu milho a 5 quetzales e o coiote aceitou por 4,75.

Caminhar por Cotzal me confronta com o belo e com o sujo: garrafas, latas, restos de mercadoria atirados por toda a parte, em um ambiente que até pouco tempo atrás deveria ser idílico. Em Chajul isto acontecia pelos caminhos da cidade, cortados por casas, córregos, cascatas, e lixo. Mas eu oscilo em tudo o que penso, não tenho certeza como as da indígena Rigoberta Menchú. Ela diz que traz a luta no coração. Sim, porque traz a exploração, a morte, o veneno ocidental na sua pele e por isso tem claramente o seu inimigo qual é, qual a sua luta. Rigoberta insiste que as comunidades não revelam todos os seus segredos e mantém a cultura como forma de resistência. Isso me fez pensar muito em Chiapas e o que antes foi julgado como falta de cultura, agora vejo que o silêncio pode esconder coisas que nem sabemos. De acordo com a narrativa de Rigoberta, a força dos povos indígenas está no modo coletivo de organizar a vida e a produção. O sagrado, o ritual, permeia a maioria das relações, seja com a terra, seja com os filhos. Eu ouço a voz dos maias desesperados com a perda de cultura promovida pelos mestiços exploradores e pelos latifundiários das fazendas do litoral. Antes os indígenas viviam 120 anos, a base de ervas, milho e feijão. Agora entendo o hábito dos descendentes maias de cultivar milho e feijão basicamente. Em primeiro lugar, durante anos eles ficaram com as piores terras deixadas pelo patrão. O pouco tempo e a falta de condições para cultivá-las seria o fator seguinte. Os ixiles da Guatemala tinham apenas um mês para trabalhar sua terra e no resto do ano a trabalhar no litoral em grandes propriedades. Ao preço de esperar que a plantação fosse boa e que a terra se preparasse, num processo de às vezes oito anos. Assim como em Chiapas, eles também saíam desse trabalho endividados com o dono da fazenda, obrigados que são a comprar comida, remédios, e bebidas.

Por Pedro Carrano
Crônicas de Sexta
Terra Sem Males

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