O BRANCO E O NEGRO DOS OLHOS – PARTE I

Compartilhe esta notícia.

Um mosaico de contos curtos latino-americanos, narrativas recolhidas no México, América Central e Andes.

(Chiapas, México)

 Instante 

A rede de Hector sacoleja apenas com a visão de Ramiro chegando à vizinhança e com a lembrança daquele dia.

Naquele dia Ramiro pediu pra Hector uma ajuda com o trabalho na plantação. Não tinha dinheiro pra pagá-lo, mas a qualquer hora chamaria o amigo para um pozol, a bebida de milho de todas as manhãs.

Os dois levantaram cedo, bem antes que o meio-dia pesasse e desse o trabalho por terminado. Cortaram caminho pelo milharal, entre as trilhas imperfeitas da Selva Lacandona, em Chiapas.

Eles eram apenas sandália e calção curto. Nunca havia acontecido nada, mas sem grandes pretensões uma cobra mordeu a canela de Hector. Numa fração de segundos os dois se olharam, embora já soubessem. Ramiro sacou o facão da cintura. Hector ainda gritou que não, na verdade mais por desafogo, antes de ver Ramiro dar um golpe seco e separar a perna envenenada do resto do corpo do amigo.

Três silêncios

Eles vivem em casas iguais de madeira e telhado de zinco. Agora viajam juntos pendurados numa caminhonete de transporte de gente. São três, todos indígenas falantes de tzeltal, mais de 30 anos e mais de três filhos. Isso é o que à primeira vista é possível saber desses camponeses vizinhos de uma mesma região, porque ninguém diz ou pergunta algo no silêncio sepulcral do trajeto.

Talvez eles até saibam. Mas por enquanto o primeiro não pode contar que é base zapatista e participou do levante armado de 1994. O segundo não pode dizer que há anos recebeu apoio do governo pra criar um grupo paramilitar e expulsar zapatistas dessas terras. E o outro não pode dizer que é soldado do exército mexicano, ainda que o tio tenha morrido combatendo as forças do exército oficial ao lado dos zapatistas – um tio que ele admirava muito.

Cegueira

Ao norte de um continente submerso eles se triplicam. Na cidade de San Cristóbal de Las Casas carregam uma caixinha amarrada no peito, como um homem do realejo, só que seu objetivo é vender tesouras produzidas na China, canetas do Vietnã, camisas produzidas nas fábricas maquiladoras estadunidenses instaladas no Caribe.

Eles não sabem. Eles não imaginam de onde vem essa Babel de mercadorias que preenche a sua caixinha. Não sabem das 18 horas de trabalho nas maquiladoras, dos centavos de dólares pagos por dia no Vietnã. Da política e das transnacionais. Eles apenas atravessam esquinas sem roteiro. E, desse modo, eles nos dão a impressão de ter, nesse teatro moderno das cidades, o papel de carregar e colocar à venda nossa própria cegueira.

Pai

O pai sempre esteve em todos os lugares, na conversa com os amigos, nos sonhos e fora deles, nas madrugadas sem sono. No sol, na nuvem, nos morros.

Ele nasceu com isso: a lembrança do pai que morreu na guerra de 1994, do mau governo contra os povos. Conhecido, o pai. Os amigos sabiam e todos sabiam e era quase como se ele fosse o filho do pai que morreu combatendo. O pai o companheiro que não voltou. E assim viveu a mãe, e assim as irmãs e assim viveram eles todos lembrando. Eles lembravam vivendo.

Só que o pai não morreu na guerra. “Foi o Estado mexicano que o botou na cadeia e criou uma história”, diz a folha desgastada do jornal, que passa pipocando pelas mãos incrédulas de todos.

A mãe sempre levou nas costas os filhos e as lenhas. A irmã sempre andou devagar. Faz sol faz nuvem faz vento e faz raio na penugem das montanhas. Um pássaro quetzal se atravessa no caminho distraído. A folha do jornal está contando que há anos o pai foi muito torturado, mas que está vivo.

 Cão

 Em La Realidad, os cães caminham pela estrada equilibrando os dois pêndulos, vida e a morte, no abismo entre a pele e os ossos.

Os galos são mais saudáveis que os caninos, onde o calor reforça o nome da comunidade e só não incomoda as crianças.

O estrangeiro se impressionou com o estado lastimável de um dos cães e perguntou a uma senhora indígena:

– Vocês não veem que este cachorro está com fome?

– Sim, pois – respondeu a velha.

– Este cachorro está velho e doente.

– Verdade.

– Então por que não o matam de uma vez se sabem que vai morrer?

– Pois eu estou velha, doente e tenho fome. Você acha que deviam me matar?

 

Por Pedro Carrano
Crônicas de Sexta
Terra Sem Males

 

anuncio-tsm-posts

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *