O BRANCO E O NEGRO DOS OLHOS – PARTE II

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Um mosaico de contos curtos latino-americanos, narrativas recolhidas no México, América Central e Andes.

(Cañar, Equador)

Migrantes

“E como eu palmilhasse uma estrada de Minas, pedregosa”, Carlos Drummond de Andrade

“Andei pra chegar tão longe, e daqui de longe eu olhei pra trás e foi como ver distante eu atravessando os meus temporais”, Lenine

Ele havia tomado um ônibus ainda na Califórnia, descendo a rodovia Panamericana sempre rumo ao sul. Entre cochilos, balanços, noites em hotéis vagabundos e serenos, enfim Ele reconhece a parte dos Andes que é dada ao seu país. Pouco abaixo da linha do Equador fica o lugar procurado em sonhos estranhos, ou talvez fosse um simples impulso que o trouxesse de volta. Ou nada disso. Chegando perto da província de Cañar, Ele tinha esquecido que as montanhas são azuis e os rios são verdes e tudo é um tanto inverso e daltônico. O país dos contrários. Ali nem sempre faz sol, mas isso não quer dizer que as pessoas sejam tristes. Recorda a frase que o cientista Humboldt disse sobre o Equador, e que o avô parafraseava:

“Os equatorianos são raros e únicos, dormem tranquilos entre vulcões, dormem pobres entre tanta riqueza e ficam alegres ouvindo música triste”.

De repente o país começa a tornar-se um enigma. Em Nova Iorque, onde trabalhou oito anos, a vida era marcial, menos densa, uma rua de mão única, como é a vida de um estrangeiro. Mas agora existem mais coisas a não se compreender nessa terra reconquistada por Ele, como por que dizem que o povo cañari, originário da província, nunca foi dominado pelos incas, se a língua falada por Ele e pelos irmãos é o quíchua do antigo império de Cusco – não é derrotado quem fala a língua do outro?

Ele está dentro do ônibus. Pensa e não pensa nisso tudo, equilibrando desejos de regresso e de abandono, esboçando já a primeira saudade do inferno de onde saía, na direção de um endereço que nunca precisou de número, entre poucos caminhos de gente, entre curvas sinuosas, e vacas que não formam nenhum gado.

Numa descida, reconhece o cego Ismael ainda vivo, andando com seus dois buracos vazios entre a testa e o apito na boca silvando pra que não seja atropelado.

Ele chega ao seu vale e vê um sem número de casas novas, grandes, todas iguais, quase como nos Estados Unidos, erguidas com os dólares enviados por caras como Ele. Não sabia qual casa era a sua, e nem achou estranho as construções daquele tamanho feitas pra guardar milho, galinhas e porcos nos quartos. As crianças entram em alvoroço porque de longe não sabem qual dos pais está de volta. O vilarejo hoje é dos anciãos, das crianças e das mulheres e todos correm. Ele é qualquer um deles e está adentrando a cerca do vilarejo. Por um instante vacila e não sabe com qual nome se apresentar. É difícil, teve de inventar muitos no caminho.

Em casa, finalmente vai ver o chapéu paja-toquilla pendurado na parede nova, mas a memória já não sabe e é difícil imaginar que Ele vestiria as roupas tradicionais, que deitaria na rede, que olharia as estrelas, como bom cañari que ama a divindade lunar, e que não ficaria inquieto, pensando nos amores, nas pessoas e nos lances de sorte que (quase?) mudaram seu destino.

Por Pedro Carrano
Crônicas de Sexta
Terra Sem Males

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