O espectro da imbecilidade

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Por Fernando Lopez*

Numa dessas conversas que deveriam ser evitadas, no insuportável “grupo da família”, alguém defendeu a forma como a Argentina vem enfrentando a pandemia, com um total de 815 mortos contra 42.000 por aqui, até ontem.

Um concunhado bolsonarista argumentou contra, dizendo que isso pouco importa, porque lá (na Argentina) eles são comunistas.

Temos 50 vezes mais mortos, mas pelo menos não somos comunistas…

Daí fiquei pensando nessa doença, que faz a pessoa aceitar tudo de ruim, contanto que o comunismo não “vença”.

Como é cômodo ter um argumento assim, pronto, que vale para tudo, justifica qualquer coisa e ainda serve de xingamento, desqualificação e condenação. “Ele é comunista!”. Fim da conversa. Venceu o debate.

Eu não costumo fazer uso de respostas como “vai ler, vai estudar”, acho fraco, meio muleta argumentativa, mas dá vontade.

O desconhecimento sobre o comunismo só não é maior que o uso indevido do termo. Pense numa palavra mal usada e abusada.

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Já faz tempo que o capital vem construindo essa imagem negativa do comunismo, investindo pesado na desinformação sobre o assunto, para afastar as críticas às suas contradições. Capitalismo não admite críticas. É coisa sagrada, criada por Deus, não aceita oposição.

O comunismo, uma utopia, um conceito de reestruturação social e econômica que visa acabar com a exploração do homem pelo homem, se tornou sinônimo de violência contra valores mais sagrados da sociedade de consumo.

Daí que nesse cenário de pandemia, incerteza e morte, qualquer ação de enfrentamento da crise que seja visto como prejudicial aos interesses do capital é rotulado de comunismo, de planos de dominação comunista.

Los hermanos agiram com responsabilidade e inteligência e conseguiram evitar a morte de dezenas de milhares de pessoas? Sim, mas isso pouco importa. São comunistas…

Cuba está próxima de zerar a fatura do vírus? Comunista!!!

O país com com menos mortes e melhores resultados nessa guerra sanitária? O comunista Vietnã. Deus me livre!

O que, tomar vacina contra o coronavírus, desenvolvida na China comunista? Jamais!

O comunismo se tornou o inimigo número um dos imbecís e o principal aliado dos espertos que precisam de uma estória pra manter o rebanho na linha.

Ele basta, assegura, justifica o injustificável. Tudo se perdoa se for feito em nome de combatê-lo.

Bolsonaro é xucro, ignorante, violento, incompetente, corrupto, ligado a milicianos assassinos, não respeita a Constituição, nega a ciência, está levando o país ao colapso, mas pelo menos não é comunista.

Vamos morrer entubados, sem emprego e sem futuro, mas nossa bandeira jamais será vermelha.

E assim vão enfrentado a pandemia como se ainda valesse a guerra fria.

Seguem assombrados por um espectro que rondou a Europa à quase 200 anos e que ainda hoje apavora os ignorantes.

Tem mais medo do comunismo imaginário do que do vírus real, assassino, que tratam como uma gripezinha.

Seria engraçado, se não fosse tão trágico.

*Fernando Lopez é militante das causas populares, idealizador do Social Lista e colunista do Terra Sem Males.

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