O Fumicultor

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Durante boa parte de minha infância, morávamos num terreno dividido com a Tia Frida. O acordo era de que, meus pais teriam direito de cultivar no lado de cima da estrada e a parte de baixo, era de uso exclusivo de Tia Frida (esta era a parte melhor e mais produtiva do terreno). Porém, a parte destinada aos meus pais, não era tão favorável ao cultivo devido à topografia ser muito acidentada (muito morro), sendo mais apropriado à reserva florestal. Tanto que, quando ainda trabalhava na madeireira, esta comprou a madeira, a qual foi retirada de forma sustentável.

Mas, antes de continuar esta narrativa, é necessário explicar como era a relação de uso estabelecida. No início da década de 1970, Tia Frida ficou viúva e por não ter filhos, resolveu doar o terreno ao meu pai que era seu afilhado mais velho para que cuidasse dela na sua velhice. O terreno era de meus pais, inclusive tinham a posse escriturada firmada em cartório. No entanto, o uso da área mais próxima da casa seria da tia e o acordo verbal era cumprido como se de papel passado fosse.

Tia Frida era uma senhora muito forte, com personalidade muito forte. Porém, de generosidade ímpar, mamãe sempre diz que o coração dela não cabia em seu peito, tamanho era seu amor por minha família. Se preciso fosse daria sua vida por mim e meus irmãos. De origem alemã, seguia firme em sua fé na igreja de Confissão Luterana. No entanto, frequentava a igreja católica da comunidade com muita assiduidade, dando-nos o exemplo do respeito à diversidade religiosa (este pode ser assunto para outra crônica). Gostava de usar vestidos floridos e lenços de ceda com estampa floral. Não gostava de carro e nem de sapatos, no máximo usava chinelos.

Era dia de finados, 02 de novembro de 1985. Tia Frida andava muito entristecida devido a saudade que sentia de mim e meus irmãos. Inclusive, ela sofria muito por ver o sofrimento de toda a família e por não ver grande futuro na situação de trabalhar de como meeiros longe de casa. Ela sentia que a família precisava ficar mais unida e aquelas condições afastava a todos, ou seja, cada um estava em um canto e os laços familiares estavam se rompendo. Por ser dia de finados, Tia Frida e minha mãe foram ao cemitério católico levar flores para os falecidos. Ao sair do cemitério, após um breve momento de silêncio, Tia Frida num de repente fala para minha mãe: “Generosa, eu não quero mais ver vocês vagando por aí. A partir do próximo ano vocês vem pra casa e vão plantar fumo na lavoura. Não quero mais plantar. Quero apenas o compromisso de ter lenha para o fogão”. Assim passávamos da condição de meeiros para plantadores de fumo em nossas próprias terras. Não havia qualquer estrutura para esta nova fase. Era necessário construir tudo, inclusive preparar a terra que até então era pouco explorada. Ou seja, começar do zero literalmente, porém, com um novo horizonte de futuro.

Comprar uma junta de boi, construir a estufa, destocar a capoeira, preparar a terra e partir para o plantio e cultivo do fumo. Logo então, após um período fora de casa a família estava novamente formada e trabalhando junto. Papai trabalhava na Prefeitura, Mamãe cuidava da casa e da filharada, trabalhava na roça e em casa, ou seja, tinha dupla jornada assim como a maioria das mulheres. Coisa bacana, era tudo que sonhava quando tivemos que decidir entre estudar e trabalhar de empregado na madeireira.

Durante os finais de semana era a atuação na comunidade, pois era o período de efervescência organizativa da comunidade. Estar na direção do Grupo de Jovens, na direção do Palmeirinha, da Catequese, Ministro da Eucaristia, do Sindicato e de iniciar a participação política no Município.

Algumas coisas sempre me incomodaram na produção de fumo, sendo que em alguns pontos hoje melhoraram, mas outros ainda permanecem. O primeiro elemento é a questão do uso de agrotóxicos. Embora hoje tenha mudado muito, com mais prevenção e equipamentos de uso, o que em nossa época não tinha. O uso destes produtos ainda é muito intenso, o que influencia de forma negativa na saúde dos agricultores e agricultoras que trabalham na atividade.

Outra questão, é a forma de domínio que as empresas mantem sobre os fumicultores que ainda hoje tem sobre os produtores e isto pouco mudou. É inadmissível que o produtor planta, colhe, organiza a produção e a empresa define a qualidade produzida e decide quanto vai pagar ao produtor. Jamais esquecerei quando eu e um conjunto de fumicultores tivemos que brigar (fisicamente), para que o classificador não quebrasse todos nós ou na manifestação dos fumicultores em Santa Cruz do Sul – RS onde tivemos que virar um caminhão para que a direção da Souza Cruz recebesse uma Comissão de fumicultores para discutir estes temas.

A Associação dos Fumicultores do Brasil – AFUBRA, era muito mais uma seguradora a serviço do Sindicato das Empresas – SINDI TABACO, do que uma representação real dos fumicultores. As únicas vezes em que víamos a associação, era quando um fiscal vinha fazer o levantamento das perdas da plantação quando o granizo estragava a produção ou a estufa pegava fogo.

A partir da implementação das novas tecnologias, muita coisa melhorou na produção. Não é mais necessário passar as noites em claro, nem amarrar as folhinhas uma a uma para a secagem. Ah, e quanto a preparação da terra para o plantio, também não é mais necessário ficar de cócoras o dia inteiro.

Na organização dos produtores/fumicultores pouco mudou desde aquela época. Das que conheço, somente uma experiência na região de Santa Cruz do Sul, que coordenada pelo Movimento dos Pequenos Agricultores – MPA, os fumicultores formaram uma Cooperativa que produzem e vendem coletivamente. Mas, no restante continua em sua grande maioria cada um por si.

Foi um período de grande aprendizado. Desde o trabalho e planejamento familiar, o reforço e a compreensão da necessidade do trabalho organizado, da maior participação no Sindicato dos Trabalhadores, organização dos fumicultores, entre outros tantos.

Neste período, através dos grupos de jovens, foi possível compreender o papel da assistência técnica no campo. Por meio dos técnicos da extinta Associação de Crédito e Assistência Rural de Santa Catarina – ACARESC, o Ênio e a Eva. Durante o período em que ficaram no município, nos ajudou a entender o papel devastador nas comunidades rurais a tal “revolução verde”, a qual mudou radicalmente a maneira de cultivo e o modo de produção dos agricultores e agricultoras.

Fruto dos investimentos em novas tecnologias, assistência técnica, capacitação, crédito tanto para o custeio, como para investimentos, nas últimas duas décadas a produção agrícola do município e da região sofreu muitas alterações positivas, principalmente na diversidade da produção. Mas, como ainda não temos uma política de preços mínimos, bem como, programas fundamentais para consolidar a diversidade da produção da agricultura familiar, tais como: o Programa de Compra Antecipada – PAA e o Programa Nacional de Alimentação Escolar – PNAE, os agricultores estão com menos investimentos governamentais. A cada ano, a cada safra, a segurança de boa parte dos agricultores da minha região ainda é o plantio de fumo.

Alguns grandes desafios estão lançados para que os agricultores tenham de fato uma alternativa real à produção de fumo. O primeiro e principal a meu ver, está no planejamento territorial, não apenas para a produção, mas principalmente para a comercialização e logística. Pois, não adianta produzir e não ter como vender ao final da safra. O segundo desafio, está na participação institucional das prefeituras municipais, que além de contribuir no auxílio e organização do planejamento o seu envolvimento nas políticas públicas como o PAA e o PNAE são fundamentais. O terceiro desafio, está na consolidação da Assistência técnica, como instrumento fundamental principalmente para o planejamento da produção da porteira pra fora da propriedade rural.

Sem dúvida, o desafio principal em ampliar a organização dos agricultores através do fortalecimento dos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais e outros movimentos camponeses são fundamentais para transformar o campo do Brasil. Este atuando como um dos principais protagonistas do desenvolvimento sustentável.

Por José Claudenor Vermohlen (Zeca), consultor.

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