O HOMEM EM FRENTE À VITRINE

Compartilhe esta notícia.

Quando ele observou José pela primeira vez, imaginou uma história mais longa do que o andarilho de fato carregava nos seus cabelos brancos, barba volumosa e suja. Claro, ele não chegou a ser mais um fotógrafo atraído pela imagem de pés descalços batendo no chão com certo ritmo e um pouco de impaciência. Ele era fotógrafo profissional e apenas o retrato de um mendigo já não parecia mais vender tanto.

Só que José chamava a atenção, detido em frente à vitrine de uma loja de brinquedos produzidos na China. No mínimo, ele teria garantida a imagem do dia no jornal para o qual trabalhava naquela semana. José olhava para os brinquedos reluzentes e no olhar do fotógrafo surgia o cálculo de quilômetros debaixo de estradas que José, brasileiro, deve ter atravessado, a pó e chuva, também vivenciando sóis de final de tarde inacessíveis para pessoas comuns.

A verdade é que o homem que manipulava as lentes idealizou uma sensação de liberdade ao imaginar a vida de José. E isso resultou no texto de introdução à foto inscrita em concursos dos quais participou com aquele perfil de traços únicos.

Por razões que sempre estão fora do alcance, a foto ganhou um concurso e logo as redes sociais. Teve milhares de compartilhamentos e o nome dele, que não era necessariamente um desconhecido na área, ganhou notoriedade. Jesus, com toda a força que sua mãe resolveu lhe batizar, agora era um fotógrafo cujo trabalho finalmente ganhou repercussão.

O rosto barbudo retratado de lado, contemplando com certo divertimento aqueles brinquedos inacessíveis, foram uma lição de sensibilidade edificante, alertando as pessoas sobre os riscos do consumo e para o que de fato é essencial nesta vida.

Os olhos de José captados pela imagem invertida de Jesus não pediam pena ou indicavam qualquer drama. José contemplava aqueles joguinhos de cor púrpura, aquelas baboseiras reluzentes de plástico. Mas os prêmios não paravam de chegar, o que forçou o repórter a transformar o trabalho como um ponto de partida para um ensaio maior sobre os andarilhos da cidade. “Migrantes”, ele nominou a exposição. Passou alguns dias em trânsito na rodovia no entorno da capital registrando e conversando com algumas dessas pessoas que, abandonando tudo, viviam em movimento e no desapego supremo, na lição de Cristo vivida na pele. Camelos que se recusaram a passar no fundo da agulha. O próprio nome de Jesus ajudava no contato e na empatia com os caminhantes.

Ele tornou-se amigo de moradores de ruas e estradas. Alguns então tiveram exposição na mídia e localização inclusive por parte dos familiares. Isso à exceção de José, que nunca mais foi encontrado por ele e nem por ninguém. Tantas narrativas juntas surgiram na primeira exposição e o que inquietava Jesus era a falta de contato justamente com o andarilho da primeira foto, que desencadeou todo o êxito e os trabalhos seguintes. Não sabia sequer se o nome do homem em frente à vitrine chamava-se mesmo José, como havia escrito na legenda do trabalho.

A inquietação de Jesus aumentou mais ainda com uma mensagem nas redes sociais, meses depois, pedindo ao fotógrafo, em determinado dia e hora, um encontro com o “homem da vitrine”, no mesmo endereço e loja onde havia feito a imagem de tanto sucesso. A mensagem de início parecia um vírus, mas fundo não deixava dúvida do que o fotógrafo deveria fazer.

Jesus assim arrumou uma brecha na pauta de tarefas do dia e postou-se na marquise em frente à loja. Cansou de esperar e começou a ver naquilo tudo uma grande idiotice. Estava atrasado para a próxima pauta, recebendo os respingos e molhando as canelas naquela tarde de chuva. Mas um funcionário da loja, hesitante, foi se aproximando do fotógrafo.

– Desculpa.

– Sim.

– O senhor se chama Jesus?

– Sou eu.

– Mesmo?

– Sim, é meu nome.

– Dá licença?

– Claro.

– Um senhor de barba deixou este bilhete aqui na loja. É para o senhor.

– Valeu.

– Dá licença.

 Na verdade, era um papel amassado, com letras garrafais e uma pequena mancha de terra. Na mensagem, não havia nada de mais, e daí ficou evidente que o fotógrafo não encontraria o fotografado. A mensagem do tal José pedia apenas a Jesus que cumprisse o que a foto realmente estava dizendo no instante quando foi feita. O mensageiro entendia a repercussão da imagem, mas se o fotógrafo pudesse deixar um brinquedo qualquer pago para ele naquela loja, o andarilho estaria agradecido.

Isso porque naquela tarde do registro fotográfico, uma neta do velho havia nascido e ele queria presenteá-la.

A mensagem ainda terminava com a assinatura de José. Só que escrita com aspas.

Conto de Pedro Carrano
Crônicas de Sexta
Terra Sem Males

anuncio-tsm-posts

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *