O homem que se lançou no túnel do metrô de São Paulo

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Por Pedro Carrano, texto e foto

Isso aqui é uma loucura, cara, fica um dia aqui pra você ver!, Me disse o funcionário do metrô de São Paulo, enquanto tentava conter o fluxo gigante de pessoas que se concentrava. As linhas estavam paradas. As escadas rolantes tiveram que ser desligadas para não haver algum acidente.

Eu não tinha necessariamente pressa naquele horário, então fiquei observando o amontoado de gente, esperando as coisas se acalmarem. Muitas ali estavam obstinadas em fazer selfies no meio daquela situação. Me interessei pela conversa que esse segurança do metrô puxava.

Que aconteceu meu?

Uma pessoa caminhando no túnel perto do ponto Vila Madalena. Tudo parado. Todo dia tem um caso assim. Não aguento mais, cara.

São tempos de muitas encruzilhadas, muitos fragmentos de caminhos, a maioria deles incertos, escorregadios. São tempos que pesam sobre os nossos ombros mesmo se não nos damos conta disso. A imagem daquele sujeito se lançando pelo túnel sem luz, talvez sem certeza, esperando o que poderiam ser os últimos segundos antes do apito, mexeu comigo, mexeu comigo. De tão impactado por aquela imagem, acho que nem cheguei a perguntar o que teria acontecido. Logo os trens seguiram seu caminho, a pista estava aberta de novo, isso acontece toda semana, dizem os relatos.

Foi inevitável pra mim. Como não comparar a imagem forte de alguém entrando desacreditado num túnel com a falta de perspectiva e de sentido de futuro que tem se acumulado brutalmente desde o golpe de 2016? Os problemas estruturais da sociedade brasileira antes estavam longe de ser resolvidos. Mas havia um patamar para a frente, uma caminhada adiante e o futuro pedia mais, não menos direitos sociais. Eu mesmo recordo que, em 2010, ano de descoberta do pré-sal, os e-mails pipocavam com anúncios de concursos na Petrobras. E agora, José?

Não conheço esse sujeito sem nome que se atirou no metrô de São Paulo por alguma razão. Não sei sua história e nem mesmo suas motivações. Agora estaria entre entre os cerca de cinco milhões de desacreditados para procurar trabalho? Entre os doze milhões de desempregados? Entre a massa gigantesca e cotidiana de informalizados? Entre os trabalhadores que alguma fábrica que fecha a porta com a queda na indústria, substituída pela importação de produtos?

Não sei. Não sei mesmo. Ao que parece, e quero acreditar nisso, o cara sobreviveu e encontrou, como todos nós, as saídas que sempre podem ser encontradas, mesmo nos momentos duros. Talvez alguém tenha puxado ele pela mão e o conduzido para fora daquele túnel de metrô.

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