O mar turbulento e o desespero

Compartilhe esta notícia.

A saída é a organização popular, mas dentro das condições do país após o golpe de 2016

Por Pedro Carrano | Foto: Gibran Mendes

A esquerda neste período vive a dificuldade de se posicionar a partir da urgência de resposta aos ataques de Bolsonaro e sua tentativa de expandir seu projeto fascista.

Ao mesmo tempo, se vê também diante de uma reorganização e recomposição de sua base social que é de médio a longo prazo, não é uma tarefa fácil. A reversão de uma correlação de forças desfavorável não se resolverá com um processo apenas de convocatória.

A saída é a organização popular, mas dentro das condições do país após o golpe de 2016.

É fato que devemos reforçar os calendários e as ações das organizações populares. O dia 8 de março, Dia Internacional das Mulheres, tende a ser uma resposta importante nas ruas a um governo que precariza cada vez mais a condição de vida das trabalhadoras.

Logo temos o dia 14 de março – dois anos do assassinato de Marielle Franco –, e finalmente a greve do 18 de março é uma resposta à tentativa do governo de avançar rumo ao autoritarismo, ao desmonte da estrutura produtiva nacional, à piora das condições de vida dos trabalhadores, aos ataques contra a educação e caminhada do país para a condição de uma ilha voltada à exportação de commodities sem produção de conhecimento etc.

O caminho é o mais doloroso. O da construção da organização popular. Afinal, o fascismo não se combate com ações individuais como a de Cid Gomes, exaltada ou repudiada nas redes. Embora individualmente ninguém deva aceitar o fascismo. Ações simbólicas podem ser importantes. Mas é sempre necessário para a militância social avaliar o cenário, coletivamente, verificar o papel de cada ação e ferramenta de luta, deixar de lado o voluntarismo, a bravata, a fala radical nas alturas enquanto a construção prática inexiste. É preciso entender que o fundamental é a construção da luta de massas. Passar a uma militância com vínculo popular, com resultado organizativo, com passo a passo, com proteção e alternativa econômica para o povo e para os trabalhadores que se inserem na luta.

As condições de vida do povo se degradam, mas segue havendo unidade neste momento entre as diferentes frações da burguesia em torno do programa de reformas aplicado no Brasil. A estrutura do governo segue forte, apesar das fissuras. A opção é pela dependência completa de nossa economia.

Escrevo este texto no mesmo momento em que 400 postos de trabalho e um setor inteiro de produção de fertilizantes são fechados em Araucária, no Paraná.

O que acredito que ficou pendente do período anterior e devemos construir com toda a força:

1. Retomar o trabalho de base, sobretudo o sindical, numa perspectiva não corporativista, aberta a reconhecer as fragilidades e mudar os métodos de ação; aberta a novos sujeitos que os sindicatos muitas vezes decidiram não organizar. Há modificações sérias na organização do trabalho, ataques e um processo de desindustrialização do país, queda no número de greves desde 2016, com o fantasma do desemprego. A convocatória para o dia 18 é fundamental, mas devemos lançar ações para complementar apenas o chamado do caminhão de som.

Em Curitiba, me recordo que o sindicato dos servidores municipais, num dado momento, desistiu de organizar uma categoria importante como a guarda municipal, que apenas se tornou mais reacionária; os jornalistas nunca conseguiram dialogar bem com os cinegrafistas etc. Falo de onde passei. Cada sindicato tem pendente uma questão com os setores precarizados de seus ramos.

2. Criar redes de comunicação popular com todas as ferramentas – jornal impresso, rádio-web, redes sociais de forma organizada etc. E, por que não, auxiliando mais as comunidades a ter sua voz e veículos de comunicação? Reforçar e preparar as redes de comunicação populares.

3. Devemos valorizar a cultura, desta vez definitivamente como parte integrante da resistência. Os que seguem menosprezando a literatura, o teatro, as ações culturais, caso do carnaval, usando um brutal senso comum ao chamar de “ciranda” não se deram conta do papel ideológico na luta de classes, do componente central que a luta por corações e mentes ganhou desde o golpe contra Dilma, em 2016.

4. Ações de solidariedade. O vínculo entre trabalhadores da base sindical cada vez mais restrita e nos locais de moradia e bairros populares, cada vez mais amplos. Nos falta essa ponte. Ações de solidariedade como as que aconteceram entre o Movimento de Trabalhadores por Direitos e os petroleiros distribuindo gás mais barato à população foram importantes.

O atual momento angustia. Fomos visitar os camaradas trabalhadores da Fafen Fertilizantes, pessoas das mais lutadoras e generosas. A dor de perder cerca de 1000 empregos em um único golpe. Eles seguem lutando, como todos nós devemos seguir. Os tempos são de angústia, mas não exigem desespero.

Exigem organização paciente, prioridades, a reconstrução de uma estratégia dos de baixo. O mar é turbulento e remar nele exige sabedoria.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *