O rosto extinto de Curitiba

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Por Pedro Carrano
Terra Sem Males

Nos arredores da Curitiba moderna vivem algumas pessoas para quem o tempo já parou de passar há muito tempo.  

Elas estão sentadas, às vezes em casais, na sacada de casa de madeira, tomando um chimarrão às três da tarde. Olham os carros nas avenidas cada vez mais lotadas, na Anita Garibaldi, no Barreirinha, ou no bairro Capão Raso.

Por incrível que pareça, Curitiba ainda é deles.

Às vezes dá a impressão de que formam a cara mais verdadeira de Curitiba, os velhos da província, em casas que ainda mantêm algum resto de mata, onde convivem ainda com gambás e pássaros – um ou outro cavalo perdido na paisagem.

Velhos catadores de pinhão, como o que a nossa reportagem conheceu no parque Barreirinha, quando recebeu a denúncia de que o parque estaria abandonado. Depois, verificamos que durante a tarde em dia de semana não há ninguém lá dentro.

O portão fica entreaberto. O parque era um silêncio morto. Nenhum funcionário, nenhum corredor, nenhum casal de jovens adolescentes perdidos por ali. Só encontramos um senhor para confirmar que o parque se mantinha em horário de visitas.

Com a coluna arqueada, o velho seguiu a sua saga de catar pinhão a pinhão, naquela tarde gelada e azul típica de Curitiba. Indiferente a tudo, inclusive à nossa presença, alheio ao mundo e sem qualquer preocupação com as notícias do mundo, esses velhos do pinhão seguem a sua vida.

E essa espécie de extinção individual e coletiva que eles representam, no seu jeito de ser, incomoda mais os que ficam do que aqueles que já estão partindo desse mundo.

E levando uma parte dele. 

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