O setor de fertilizantes e o futuro de mil trabalhadores desfeito

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A sensação é de estar em uma peça do teatro do absurdo

Por Pedro Carrano | Foto: Gibran Mendes

Foi bastante duro visitar o acampamento dos trabalhadores na frente da Fafen Fertilizantes, em Araucária, região metropolitana de Curitiba, que já alcança mais de duas semanas.

O sentimento inicial é de revolta do ponto de vista da empatia humana. Amigos, companheiros, sindicalistas de uma das categorias mais solidárias com os outros trabalhadores estão vendo seus empregos se esfacelar em poucos dias.

Do ponto de vista da Economia Política, a sensação é de estar em uma peça do teatro do absurdo, versão Bolsonaro e Guedes produções. É um despropósito do governo federal simplesmente fechar um setor que garante ao Brasil produção própria de fertilizantes nitrogenados, insumo essencial para a produção no campo. Em pouco tempo, o governo está passando para a frente as unidades de Camaçari (BA), Laranjeiras (SE) e abandonando a planta paranaense.

Uma estrutura produtiva e segura ao meio-ambiente. Um setor da economia na qual o Brasil possui as matérias-primas, a infraestrutura e um corpo de operários especializado. Tudo isso agora é deixado de lado. Este é o Brasil acima de tudo (e de todos) de Bolsonaro.

Mais de 400 trabalhadores especializados e cerca de 600 terceirizados, de acordo com os cálculos do sindicato, vão para a rua. O acampamento tem reunido trabalhadores e suas famílias extremamente preocupados com o futuro, ou com a ausência de certeza sobre ele.

Muitos passaram já este começo de ano na frente dos portões da empresa, sujeitos ao risco uma vez que a unidade não foi totalmente paralisada e apresenta graves ameaças de acidentes.

Ali estavam sindicalistas em greve, em mais uma luta. Conhecemos esse grupo de trabalhadores desde os tempos quando a empresa era controlada pela transnacional Bunge, que jogava às alturas o preço dos fertilizantes. Depois, por volta de 2012, sob controle da mineradora Vale, lutaram contra as famosas práticas antissindicais da empresa. O período Petrobras também apresenta inúmeros problemas, mas a luta dos sindicatos sempre foi manter a empresa investindo e gerando empregos, política que passou a mudar com o golpe de Temer (2016) e sua política de “desinvestimento” que ganha força com Bolsonaro.

O país, com isso, tem mais um sinal de que está indo rápido para um projeto de desindustrialização, falta de produção própria, reduzindo-se a importador de insumos. O documento “Estado empresário”, produzido pelo Ministério da Economia no mês de janeiro, deixa nítido qual é o projeto ultraneoliberal do governo: venda de 300 ativos do governo previstos para 2020, desmonte por dentro das principais empresas públicas, a palavra bonita de “abertura de mercados”, que significa a perda de nossa capacidade produtiva – na aviação, na distribuição de gás, na produção de fertilizantes.

Um Brasil que presta continência às empresas e ao governo dos Estados Unidos.

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