Opinião: Envelhecer não dói, pode ir sem medo

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A conheci numa tarde ensolarada e quente. Os braceletes prateados davam sonoridade a seu caminhar e uma voz mansa emanava de seu corpo franzino. Todos os seus gestos eram dotados de um mistério cujo poder eu só podia imaginar. Apaixonei-me por tudo que ela era: seus cabelos grisalhos, sua pele negra e enrugada, o som de sua voz e as palavras que dizia em uma língua vinda de longe e cuja sonoridade era pura magia. Fui à sua casa buscando consolo, refúgio, colo…

Algo que somente uma mãe com sua sabedoria poderiam dar. A mãe de santo, ou Oya, como dizem os iniciados nos mistérios do candomblé, é detentora dos saberes e mistérios do culto aos orixás.  Suas mãos tem o poder da cura, amenizam as dores do corpo e da alma. Seus gestos ensinam que, segundo cosmovisão africana, corpo e alma não se dividem, o corpo é um templo onde reside o orixá, é sagrado. Como também é sagrado o tempo e as marcas que ele vai deixando na gente.

Para as culturas tradicionais indígenas e africanas os velhos são grandes líderes. São eles os responsáveis por transmitir aos jovens os saberes e conhecimentos necessários para a vida. Em contrapartida nossa cultura ocidental não reconhece o ser humano como parte integrante da natureza. É como se nossos corpos fossem algo externo ao tempo ditado pela mãe terra.

Passamos a vida trabalhando e comprando num ritmo mecânico que nos faz esquecer quem somos e nega tudo aquilo que é mágico, que transcende a razão e que não cabe numa fórmula científica.  Nesse mundo, onde a tristeza parece às vezes uma epidemia sem cura, a velhice é vista muitas vezes como algo que deve ser negado. O envelhecimento parece ser vergonhoso, sobretudo para as mulheres. Os primeiros cabelos brancos nos desesperam e começamos uma luta contra o tempo para manter as aparências da juventude, como se nossos corpos fossem de plástico e não de matéria orgânica. 

Principalmente para as mulheres, é negado o direito de envelhecer em paz, de amar as marcas e transformações que o tempo deixa em seus corpos.  Porém, a figura mágica daquela mulher tão linda em sua velhice assumida me fizeram perceber que não há nada mais sagrado que nossos corpos e que o caminhar em direção ao envelhecimento, a despeito do que dizem por aí, é o ritmo próprio da natureza e negá-lo seria como negar a própria vida. Afinal, tudo que é vivo se transforma e envelhece, e não há nada mais mágico do que entregar-se ao grande mistério que é o tempo.

Por Anajá Santos

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