Orangotango (da série “Vintão”)

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Por Pedro Carrano
Terra Sem Males

Meu trabalho não é difícil, até agora nunca tive problemas. É só acenar pro dono do carro, dizer quando o motorista tem que torcer a direção e ser um pouco simpático. Puxar um pouco o saco. Sei que sou olhado como um orangotango de zoológico, exótico e solitário. No fim, só preciso dizer “bem cuidado, patrão!” – piadas e comentários sobre o tempo são batidos. Mas pega bem elogiar o adesivo em defesa do Sergio Moro.

Meu ponto fica na frente de uma igreja. Durante a semana não trabalho por aqui, estou fora. Querem me converter. Me salvar. E quem disse que eu quero ser salvo? Sou barco sem rumo. Tem uma história por aí que fala de um guardador que mata pessoas. Corta seus pés. E só ele pode fazer isso? A história dos bons é ilusória como a dos monstros. Pensam que a gente acredita em tudo.

Nas noites de casamento os convidados vão estacionando os carros. Ficam preocupados. O carro deles deve ter alma de certo. Tenho pena dos piás, pensando que agradam a mamãe com terno, gel e sapato. Ninguém ri, acho que rir também é pecado. E aí é tchau e benção. Até outro dia se Deus quiser, o próximo fim de semana traz outros carros.

Nunca tive vergonha. Mas na hora quase saí correndo. Ela também, quando desceu do carro, deixou cair a bolsa, ficou paralisada, e as crianças tiveram que sair pelo lado do marido. O marido não entendia por que eu não tirava os olhos da mulher dele, perguntou se eu queria o pagamento antes da festa, pra logo me perguntar, em tom de ameaça, o que eu estava olhando. Mas com aquele terno lustroso, ele não ia ter coragem de me bater, a sujeira me protegia.

Ela tremia inteira. Eu tinha noção que estava sendo comparado com o cara de cinco anos atrás. Agora, a barba grossa, os cabelos sebosos, uma crosta de sujeira nos pés de quem ia guardar o seu Renault, o mesmo cara com quem planejou viver pela eternidade afora. Que era dos nossos sonhos de muito trabalho e estabilidade financeira? E o são bernardo que ia cuidar da nossa casa? O passado estava vivo, e eu esperava vintão do seu marido.

O cara nem sabe quantos segredos eu guardo. O filho a puxou pelo braço. Olhou com nojo pra mim. Ela saiu do transe e não se voltou pra trás. Talvez. Ou passou medo imaginando que eu entrasse pela porta da igreja, com a garrafa nas mãos, arrastando minhas boas e surdas palavras na condição de mendigo. E se eu entrasse sem roupa, pra mostrar a tatuagem idêntica que nós dois temos na virilha? Na verdade, fiquei no meio da rua, bobo, se me atropelassem nem sentia.

Teríamos sido felizes. Não fosse o seu passado, e outra: o amor mostra todo o esgoto que sou feito. Nele se esconde um réptil de coração pronto pra queimar no sol. Larguei você, voltei pro lodo. O que você sentiu vendo que agora eu é quem estou comendo o tal pãozinho do diabo? E teu marido, ele sabe das nossas noites loucas? Uma lembrança é moeda de cotação alta, minha cara. Quem dança esta noite como uma mariposa em volta da luz sou eu. Talvez você. Semana que vem são outros carros. Um novo maço de notas e moedas nesse meu bolso rasgado.

(Texto publicado pela primeira vez em 2002)

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