Os monstros que amedrontam os ribeirinhos no rio Xingu

Colabore com o jornalismo independente, compartilhe.

Por Joka Madruga
Terra Sem Males

Existe uma série televisiva que documenta os monstros que vivem nos rios. São episódios sobre grandes peixes e répteis, que aterrorizam as comunidades nas margens dos grandes rios pelo mundo. No Brasil, mais especificamente no Rio Xingu, oeste do Pará, temos duas grandes monstruosidades que colocaram pavor nos povos da região. E se chamam Belo Monte e Belo Sun Mining Corp. Que não demonstram beleza ao explorarem a riqueza de um povo. Ainda mais sem dar uma indenização digna.

Na Volta Grande do Xingu, cerca de uns 50km de Altamira-PA e 12km abaixo da barragem, existem algumas vilas onde vivem mais de 500 famílias de pescadores, garimpeiros, indígenas e camponeses. São a Ilha da Fazenda, Galo, Itatá, Ouro Verde e Ressaca. Estas cinco comunidades estão cercadas de um lado pela Usina Hidrelétrica de Belo Monte e de outro por uma área de extração de ouro.

Energia

Barragem da Usina Hidrelétrica de Belo Monte vista a partir do rio Xingu. Foto: Joka Madruga
Barragem da Usina Hidrelétrica de Belo Monte vista a partir do rio Xingu. Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males

Belo Monte irá causar um prejuízo enorme para estas famílias. Pois o curso do rio será desviado para que a vazão alimente as turbinas da usina. O que irá fazer com que a água baixe de 80 a 90% no leito, dificultando a pesca e a navegação até mesmo dos barcos pequenos. Na Ilha da Fazenda, mesmo distante 12km do canteiro de obras da usina, é possível ouvir os estrondos causados pelas dinamites e até mesmo sentir o tremor de terra que elas causam. Por isto, os grandes peixes se tornam cada vez mais escassos, o que obriga os pescadores a se deslocarem por trechos mais longos em busca de seu sustento. E eles reclamam que em 2015 nem teve a piracema.

Seu Valdivino, um pescador antigo da região, que sofreu um acidente de barco na juventude e desde então anda mancando, pois nesta tragédia a hélice da voadeira atingiu uma de suas pernas, é um homem simples mas antenado com as notícias. “O Lula falou, quando ainda era presidente, naquele programa de rádio Café com o Presidente de que ele queria ver todo mundo da Volta Grande indenizado, para não passarmos pela situação que aconteceu em Tucuruí”, desabafa Valdivino.

Seo Valdivino conduz o barco com sua família no rio Xingu. Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males
Seu Valdivino, de azul, conduz o barco com sua família no rio Xingu. Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males

A Norte Energia, responsável pelas obras, não queria aceita-los como atingidos de Belo Monte. Mas com a ajuda do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), os ribeirinhos conseguiram pautar suas reivindicações e se mantém firmes na sua luta por uma justa indenização.

Segundo uma cartilha produzida pela empresa Norte Energia, a UHE Belo Monte terá uma área alagada de 502,8 Km quadrados para a geração de 11.233,1 MW de energia elétrica. A publicação não informa o período desta produção toda.

Ouro

Pequeno garimpo na Vila da Ressaca, na Volta Grande do Xingu. Foto: Joka Madruga
Pequeno garimpo na Vila da Ressaca, na Volta Grande do Xingu. Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males

Em dezembro de 2012, a Funai emitiu um Termo de Referência (com as questões a serem respondidas) para que a mineradora canadense Belo Sun Mining pudesse fazer pesquisas necessárias sobre os impactos aos indígenas que residem na área da Volta Grande do Xingu.

Porém, muitos moradores na Volta Grande vivem da extração artesanal do ouro. E o local já está cercado com diversas placas de “proibido entrar, área da Belo Sun”.

No site da Belo Sun Mining, já chegaram a anunciar que é um dos “cinturões mais ricos em minério no norte do Brasil”. E ainda afirmam que o potencial de produção de ouro na Volta Grande do Xingu é de 4.684 quilos de ouro por ano. E querem privar os brasileiros que ali vivem de toda esta riqueza.

As montanhas ao fundo é que serão exploradas pela mineradora canadense. Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males
As montanhas ao fundo é que serão exploradas pela mineradora canadense. Foto: Joka Madruga/Terra Sem Males

Uma das preocupações da realização de um empreendimento desse porte é de que a área já está fragilizada com a instalação da usina de Belo Monte. Outro temor desta invasão capitalista é incerteza do futuro dos impactados. A empresa não permite que os garimpos artesanais funcionem e muitos se obrigam a irem embora na busca de uma vida melhor, em outro lugar.

Para Eliésio de Souza da Luz, xavante que se radicou na região há mais de 30 anos e que atua no garimpo artesanal, é ex-dono de um bar na Vila do Galo. Para ele, esta situação desestimulou a viver ali. “Já teve dias de ter 15 voadeiras (barcos de passageiros para Altamira) encostadas aqui. Hoje é uma por dia, quando necessário”, reclama Eliésio. A maioria dos moradores quer ser indenizada ou continuar com seus garimpos, mas até o momento não conseguiram ter uma resposta para poderem organizar suas vidas.

Um comentário em “Os monstros que amedrontam os ribeirinhos no rio Xingu

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *