OS TROPEIROS DA CIC

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Dora não imaginava que em Curitiba podia haver aquele parque distante onde o ritmo era ditado pela tropa de cavalos.

O clima imprevisível. Mas naquele exato momento, tarde de domingo, fazia um sol razoável.

Não é o mesmo sol que faz hoje, quando começo a contar esta história, na condição de Guarda Municipal acionado para resolver o desastre daquele domingo.

Distraidamente, o dono do animal largou o laço nas mãos de Dora e logo foi preparar outro pônei para um casal com filho pequeno. Eles ansiosos para fotografar o recém-nascido e logo postar a imagem na rede social.

Alguns moleques descalços da vila Nova Conquista se arriscavam sozinhos a chicotear o lombo do cavalo, contando com a sorte e com a maturidade que os próprios cavalos ganhavam no trabalho daquelas tardes. Estavam habituados a lidar com amadores, naquela arena oval, caótica. Que eu na real nem sei se aquele caos todo acontece dentro dos princípios da Lei, mas acompanhava à distância tudo aquilo.

Parque dos Tropeiros. Região do Sabará, perto da Cidade Industrial de Curitiba. Por quatro reais era possível dar um passeio a cavalo pelo caminho na parte de fora do cercado. Dentro da cerca alguns cavaleiros se aventuravam a laçar o boi mecânico.

Faltavam calos para as mãos de Dora, mas ela insistiu para Roger também subir em um cavalo branco para acompanhá-la. A imagem seria linda para eles e valeria a pena. Roger hesitou, mas no final das contas subiu e quando percebeu já sentia uma sensação única de medo. Em sua cabeça passaram todos os artistas famosos que se acidentaram.

– Lembra do que aconteceu com o ator do super homem?

A mim, o que mais me dava pena quando passava de viatura em frente ao parque era o suor no corpo do bicho, que ainda precisava morder aquele pedaço duro de ferro.

Naquela tarde de sol, pois bem. O cavalo o controlava, e Roger já estava completamente alheio às decisões do animal, que não se conformava com a sua fraca liderança.

– “Cavalo é animal de manada, fica rebelde quando não encontra um líder com firmeza”, era o que sempre me ensinava o comandante da tropa, quando eu era do batalhão de choque.

O animal partiu rumo ao alto do parque, em meio ao trânsito de outros cavaleiros, que não se importavam com o pânico silencioso de Roger e Dora. Ele tentou puxar a corda, mas logo o medo o impediu de frear com decisão.

No sentido oposto, um moleque do bairro Fazendinha, que sempre aparecia ali com os irmãos, não sabia para onde correr. E a pisada do animal foi implacável e esmagou a perna do piá, de acordo com a expressão da notícia policial.

Na verdade, é aqui que esta minha história deveria começar. E não naquela tarde ensolarada de domingo. Pelo menos é aqui, na arena vazia, debaixo de nuvem e frio, onde esta história ainda permanece.

O meu relato torto dos fatos podia ter iniciado com o trote com o qual o menino iria conviver ainda por muitos anos, quando a tropa de cavalos voltava para casa, no final da tarde, pegando o Contorno Sul e cortando pelas ruas do Fazendinha.

Recolhidos os animais e de volta para casa, a tropa passava sempre em frente à nossa casa. O velho dono dos animais numa charrete e o restante da piazada levando o restante dos cavalos no pelo. Os olhos do menino perseguem sempre em silêncio a tropa até o final da avenida. Os meus, desviam e buscam a TV.

Nos dias de semana, às vezes ele escapa e leva a perna arrastada para ver a arena dos cavalos vazia.

Às vezes eu vou junto.

E me desfaço um pouquinho daquele papel de mentira que eu inventei. Eu nunca estive em operativo nenhum, mas era apenas um guarda fora do horário de serviço, deixando meus filhos aos cavalos, enquanto me distraía numa roda de cerveja com os amigos.

Do casal que o atropelou, nós dois já não nos lembramos bem o desenho dos rostos. Eram de algum bairro rico do centro.

 

Por Pedro Carrano
Crônicas de Sexta
Terra Sem Males

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